Religião

10/05/2019 | domtotal.com

O mito da 'cristianização'

Qual foi real impacto do cristianismo nos quatro primeiros séculos depois de Cristo?

"Cristo ensina os apóstolos", pintura do século IV, conservada na catacumba de Domitila, em Roma. (Divulgação)

Por Mirticeli Dias Medeiros*

É muito comum ouvirmos que a suposta “conversão de Constantino”, que teria ocorrido anos após a batalha da Ponte Mílvia, em 312 d.C, “cristianizou” o império. A impressão que nos dá é que houve a conversão em massa de grande parte dos cidadãos romanos e uma completa adesão ao monoteísmo em todos os territórios que compunham o império, motivada pela sucessão de eventos extraordinários, cujo protagonista fora o Deus dos cristãos.

Toda essa narrativa triunfalista adotada por muitos escritores cristãos do período - resgatada por muitos apologetas na atualidade - pouco condiz com o que realmente aconteceu entre o governo de Constantino (306-337 d.C) e o de Teodósio I (379-395 d.C). Um  exemplo disso é a famosa biografia Vita Costantini, de Eusébio de Cesareia, a primeira obra que narra a suposta visão de Constantino, publicada, curiosamente, após a morte do imperador augusto. Até 337, portanto, não havia nenhum registro ou notícia do episódio In hoc signo vinces - com (sob) este sinal vencerás. Se todo o exército de Constantino teria testemunhado a tal aparição - segundo a narração e Eusébio - como é possível que ninguém a tenha citado em 25 anos? Esse é a questionamento atual de muitos historiadores que pesquisam sobre cristianismo tardo-antigo.

Portanto, é importante salientar que a cristianização no império romano aconteceu paulatinamente, e a nova doutrina, cuja propagação passou a acontecer não mais pelo heroísmo dos mártires, mas graças à influência dos cristãos, então membros da alta aristocracia romana: invejados, por muitos que, até Teodósio I, eram legitimamente autorizados a manter suas crenças e, por conseguinte, a celebrar seus respectivos cultos pagãos.

O historiador irlandês Peter Brown, diz que, na verdade, se observa um submonoteísmo nos 4 primeiros séculos, uma vez que o povo em geral, inclusive muitos cristãos, ainda eram simpatizantes de práticas pagãs. O cristianismo conseguiu atenuar a crise religiosa que assolava o império, mas não penetrou o suficiente ao ponto de promover uma transformação radical, ao contrário do que muitos pensam.

Brown em seu livro Authority and the Sacred, publicado em 1996, narra um episódio do ano 420 d.C, no qual o monge egípcio Scenute de Atripe - venerado como santo pelos coptos ortodoxos -, se depara com um governador de uma província romana que, aconselhado por um monge cristão, “atou ao pé direito a unha de um chacal”: uma prática nada cristã. Em resposta ao governador, o religioso não negou a existência de um universo composto por seres superiores e inferiores, mas simplesmente destacou a superioridade de Cristo sobre todas essas entidades.

 “Na verdade, nessa fase, vemos o florescer de uma cultura coletiva partilhada por cristãos e não cristãos. [...] Existia uma visão de mundo que se baseava em um mundus dividido em compartimentos superiores e inferiores. Tendo em vista essa rígida divisão entre um Deus Supremo e alguns poderes inferiores, não é de se surpreender que muitas pessoas continuassem a buscar a proteção nesses “poderes inferiores” [...]. Os membros que dirigiam a congregação de Agostinho, em Hipona, por exemplo, consideravam que os ritos celebrados por muitos anos segundo os antigos libri pontificales (registros de rituais romanos), de certa forma, teriam o favor de Deus: para eles, somente “magia oculta moderna” deveria ser condenada, ressalta o historiador.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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