Engenharia

10/05/2019 | domtotal.com

Indústria 4.0: vulnerabilidade do Brasil no contexto mundial é preocupante

Lacuna é oportunidade para profissionais qualificados. Segundo levantamento do Senai, 30 novas profissões devem surgir nos próximos anos, em oito áreas.

O conceito de Indústria 4.0 propõe uma importante mudança de paradigma em relação à maneira como as fábricas e empresas operam nos dias de hoje.
O conceito de Indústria 4.0 propõe uma importante mudança de paradigma em relação à maneira como as fábricas e empresas operam nos dias de hoje. (Reuters)

Por Patrícia Azevedo
Repórter Dom Total

Economia estagnada, concorrência acirrada no mercado externo, baixo incentivo empreendedor, ausência de liderança. São vários os fatores que deixam o Brasil em situação vulnerável no cenário apresentado pela Indústria 4.0. A avaliação é do professor George Leal Jamil, doutor em Ciência da Informação pela UFMG e pós-doutor em Gestão do Conhecimento pela Universidade do Porto, em Portugal.

“A situação é preocupante. Inegavelmente, o Brasil tem situação estratégica potencialmente favorável, pela geografia, demografia e outros sinais importantes. Mas, na medida em que temos apenas alguns centros de excelência isolados, necessidades de uso na aplicação final e não no maior valor agregado, e baixo incentivo empreendedor, ficamos vulneráveis no contexto mundial”, aponta George Leal.

Apresentado ao público pela primeira vez em 2011, durante a Feira de Hannover, na Alemanha, o conceito de Indústria 4.0 propõe uma importante mudança de paradigma em relação à maneira como as fábricas e empresas operam nos dias de hoje. Tanto que é chamada de quarta revolução industrial, com um impacto mais profundo e exponencial que as revoluções anteriores, envolvendo um conjunto de tecnologias que permitem a fusão do mundo físico, digital e biológico.

De acordo com George Leal, a principal característica é a confluência de vários recursos, como os novos equipamentos, materiais e softwares para análise, coleta de dados, mobilidade, usos de informação e geração de conhecimento. “Tendo ocorrido num determinado momento econômico – que é difícil determinar, alguns autores se referem aos anos de 2009 e 2010 como origem, mas creio que é difícil determinar uma data – esta integração de recursos oferece novas formas de atuação para empresas e organizações em geral, no sentido de ofertar serviços e produtos, trazendo consigo os problemas e riscos associados sempre com a inserção de novas tecnologias”, explica o professor.

Segurança cibernética

Um dos desafios enfrentados em tempos de Indústria 4.0 é a segurança cibernética. De acordo com o 4º Relatório de Segurança Digital, divulgado pela empresa PSafe, foram detectados 120,7 milhões de ataques cibernéticos no Brasil apenas no primeiro semestre de 2018. Os alvos são variados – pessoas, empresas, governos e instalações de defesa.  

Para o engenheiro Cláudio Pessoa, doutor Ciência da Informação pela UFMG e professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE), o principal problema de segurança cibernética nos dias de hoje são as pessoas. “O uso exacerbado de tecnologias, principalmente de redes sociais, as levam a colocar informações na rede que não deveriam. As facilidades das tecnologias levam a falhas de análises de risco e má utilização das mesmas”, afirma Cláudio.

Já as empresas, segundo o professor, confiam demasiadamente em ferramentas que prometem ser a solução definitiva. Focam em tecnologia, deixando em segundo plano as pessoas e os processos. “Elas nunca pensam que o problema poderá ocorrer com elas. É preciso entender que a informação é o ativo principal da empresa. É preciso aprender gerenciar a informação e a segurança das mesmas. Só para se ter ideia do que digo, é preciso aprender a classificar informações. O que é sigiloso, o que é público, o que é pessoal. As empresas não fazem isso hoje. Seguem apagando incêndios em vez de planejar uma segurança real”, destaca o professor.

Tendo em vista o crescente número de ataques e ameaças, muitos países estão criando mecanismos para proteção de dados pessoais. No Brasil, o assunto é regulamentado pelas leis 13.709/2018 e 12.965/2014 (Marco Civil da Internet). “Isso é um grande avanço, pois ‘forçará’ as empresas a investir. Mas, infelizmente, não estão ainda preocupadas com isso, apesar de ser extremamente estratégico”, avalia Cláudio. Para o professor, essa negligência ocorre por uma visão em que a tecnologia é uma panaceia e irá, por si só, resolver os problemas de segurança. “Mas essa não é uma verdade absoluta. Segurança é um processo e não uma solução”, completa.

Inteligência Artificial

Outra característica marcante da Indústria 4.0 é a implementação da Inteligência Artificial (IA). De acordo com o professor José Antônio Sousa Neto, da EMGE, trata-se de sistemas que agem de forma inteligente, seja em um domínio específico (AI estreito) ou em geral (IA forte). “Os assistentes de voz pré-instalados em todos os smartphones modernos são apenas um exemplo”, aponta. 

Além de facilitar o cotidiano das pessoas, a transformação digital já impacta as relações de trabalho, como no caso de call centers que operam sem a presença de atendentes. Por outro lado, mais pessoas atuam na produção de softwares e outras profissões relacionadas à tecnologia. “Há tanto ameaças quanto oportunidades. A capacitação dos trabalhadores e as possibilidades de investimento auxiliarão a definir se há mais de uma ou outra”, avalia o professor George Leal Jamil. Segundo estudo realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o avanço da Indústria 4.0 deverá criar 30 novas profissões em oito áreas nos próximos anos.

Para ele, o principal risco neste cenário é não estabelecer uma liderança. “Atualmente, a economia tem evolução muito lenta, não há clara política estratégica e a educação do país acha-se afastada do meio empresarial, salvo eventos isolados. Por isso, os riscos de atuar em final de cadeia de valor agregado – ‘não projeta, apenas instala’ – são grandes. Daí advém a substituição massiva de postos de trabalho, com a eventual introdução de leis protecionistas que só fazem piorar o atraso, segurança de dados e informações, falhas de gestão, entre outros. É preciso estar bem preparado e atuar com visão estratégica”, defende George.

Workshop de Tecnologia 

Indústria 4.0, segurança cibernética e Inteligência Artificial são temas em debate no Workshop de Tecnologia, promovido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE) neste sábado (11), na sede da faculdade. Saiba mais sobre o evento e participe!

 

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!


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