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11/05/2019 | domtotal.com

História, viagem e delicadeza permeiam a prosa poética de Teresa Cremisi, em 'A triunfante'

Autora nasceu no Egito, viveu na Itália e na França, fez sua estreia literária aos 70 anos em obra que revela sua condição de mulher e imigrante antes de se tornar um dos nomes mais respeitados do mercado editorial europeu.

Teresa Cremisi aborda o processo de transformação de menina em mulher
Teresa Cremisi aborda o processo de transformação de menina em mulher (Bruno Coutier/AFP)

Por Jacques Fux*

Teresa Cremisi tem uma história pessoal rica e fascinante, narrada literariamente em seu livro: nasceu em Alexandria, no Egito, em 1945 – ano conturbado devido ao fim da Segunda Guerra Mundial e pela tentativa (algumas vezes não tão exitosa assim) do retorno/imigração de muitos sobreviventes para a Palestina. Em 1956, quando ela tinha apenas 11 anos, explode a crise do Canal de Suez: o presidente egípcio Nasser decide nacionalizar o canal – única e estratégica ligação entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. França e Grã-Bretanha, com a ajuda de Israel, fazem uma intervenção militar na região e, neste mesmo ano, Israel invade o Sinai, península pertencente ao Egito. Teresa e sua família fogem desse conturbado momento e se instalam em Milão. Longe da sua cidade natal, dominando a língua francesa, e também de posse dessa nacionalidade, Teresa vive e narra esse sentimento de estrangeira nos países e nas culturas em que vive.

Em um dos momentos dessas reminiscências, a narradora se lembra dos seus 14 anos e nos conduz pela descoberta da mulher, pela frustação/desconhecimento do outro e por uma surpresa gratidão: “O momento fatídico em que ‘uma menininha se torna uma mulher’, segundo a expressão tola usada por uma de minhas tias, aconteceu no verão dos meus 14 anos, em Antibes. Eu tinha sido vagamente informada, mas esse fluxo de sangue me pareceu uma catástrofe mais grave do que eu tinha imaginado. Como suportar tal constrangimento por toda a vida? Na época se desaconselhava até mesmo o banho; toda a praia poderia adivinhar o que obrigava a menina amuada a ficar sentada sob o guarda-sol. A vergonha se juntava à raiva. Tinham muitas vezes me dito que era assim para todas as mulheres, era preciso, se não ficar orgulhosa, ao menos aceitar com fatalismo: eu estava simplesmente furiosa. Havia tal contradição entre meus gostos, meus sonhos e esses entraves que eu experimentava um sentimento de revolta. De forma surpreendente, o único que tentou me consolar, a sua maneira, foi meu pai. Esse homem doce e pudico, com olhos azuis, não muito grande, mas elegante, acariciava minha mão em silêncio. Evitou com prudência as expressões que costumava usar para falar de mim a seus amigos. – É um menino frustrado, mas será uma mulher de sucesso. Ou ainda: – Tenho certeza de que ela sempre vai conseguir se virar. Ele organizou um passeio de barco, só para nós dois, depois do cair do sol, para pescarmos polvos e lulas com lampião. Descalça, de shorts e pulôver azul-marinho, na umidade da noite, senti um impulso de gratidão.”

O livro autoficcional vasculha a importância da literatura, dos livros e da poesia, reflete sobre a questão da mulher na posição de poder de uma grande companhia, elucubra sobre seu exílio forçado, mas tudo com uma certa frieza e distância. Seria isso tudo proposital por adentrar num território tão conhecido pela narradora?

Cremisi ficou conhecida como a poderosa dama do meio editorial francês: foi diretora da Gallimard, das Éditions Flammarion e diretora-geral responsável pelo desenvolvimento da Madrigal – holding que engloba tanto a Gallimard quanto a Flammarion. Mas é sua formação como leitora, e estudante apaixonada pelos livros e histórias – e seu olhar sempre crítico em relação ao dogmatismo –, que este seu primeiro romance nos presenteia: “Por volta dos 14 anos, graças a uma professora não muito bonita, mas com um olhar profundo, abordamos a literatura grega. Homero. Ela tinha decidido nos fazer ler a Ilíada na classe. Logo de início ela nos explicou que esse poema só relatava um episódio da guerra de Troia, o da cólera de Aquiles; insistiu bastante: unidade de tempo e lugar, em frente às muralhas de Troia durante cinquenta dias; deveríamos dedicar um caderno ao resumo dos cantos, ao estudo das personagens, às célebres comparações (ela dava bastante importância para isso), aos deuses e à mitologia. O primeiro canto me perturbou; eu achava essa história de Aquiles muito audaciosa, por decidir bater em retirada porque Agamemnon tinha levado sua escrava preferida; e tudo isso lido em voz alta em frente a uma classe de adolescentes. Homero nos contava então que um homem poderia ficar louco de dor e raiva porque um companheiro de guerra obrigou uma mulher jovem e bonita a sair de sua cama. Aquiles ‘em lágrimas’ pede socorro a sua mãe e aos deuses; a bela cativa Briseida o deixava ‘de má vontade’, enviada para a tenda de outro rei. Um pouco incomodada, tinha vontade de fazer chacota, mas ninguém me seguiu”.

Aos 74 anos, Cremisi lança A triunfante com a certeza de navegar por mares poéticos já visitados pelos grandes. Com um projeto memorialístico e preenchendo as lacunas da memória com ficção, ela se embrenha por onde os grandes já estiveram: “Inútil se lançar à esgrima para tentar descrever ou explicar a influência do tempo, dos sentimentos sobre a percepção dos lugares. Ninguém fará melhor que Proust na última página de No caminho de Swann: ‘Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos e as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos’.” Apesar de inútil e audacioso – como é a própria vida –, esse projeto literário da autora é bem-sucedido. Vale a pena mergulhar na narrativa e na história dessa enciclopedista editora e novíssima escritora. 

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A TRIUNFANTE
De Teresa Cremisi
Tradução de Sandra Stoparo
Editora Âyiné
208 páginas
R$ 59,90

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

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