Brasil Cidades

12/05/2019 | domtotal.com

Caminhada matinal

uma extensão de seis a sete quilômetros, contemplo as paisagens que se alternam, respiro o ar livre de poluição, sinto a fresca brisa que vem do mar.

Outro roteiro, que exige mais da minha caminhada, passa também por alguns pequenos montes que rodeiam a praia onde moro
Outro roteiro, que exige mais da minha caminhada, passa também por alguns pequenos montes que rodeiam a praia onde moro (Evaldo D' Assumpção)

Por Evaldo D' Assumpção*

Quase todas as manhãs faço caminhadas, alternando os trajetos para não se tornar uma monótona rotina. Tenho roteiros que seguem pela orla, onde posso contemplar as ondas rolando pela praia. Em dias mais ventosos, o mar se torna encrespado e as ondas crescem, jogando-se ruidosamente contra os arrecifes, mudando constantemente as camadas de areia, dando-lhes novos formatos. Tenho também caminhos que entram pelas matas, restos da imponente mata atlântica, hoje parcialmente ocupada por sítios, onde bois, vacas e cavalos se revezam no pasto viçoso, depois de períodos chuvosos. Vez ou outra aparece um bezerro, um potrinho, sinalizando a vitalidade da natureza, sempre em crescimento. Outro roteiro, que exige mais da minha caminhada, passa também por alguns pequenos montes que rodeiam a praia onde moro, levando-me a subir rampas, num eficiente teste para o meu sistema cardiovascular.

Contudo, a caminhada que mais me apraz é a que faço misturando todas elas. Passo pela beira-mar, entro pela mata, subo e desço colinas. Numa extensão de seis a sete quilômetros, contemplo as paisagens que se alternam, respiro o ar livre de poluição, sinto a fresca brisa que vem do mar, escuto os pássaros cantando entre as árvores, divirto-me com as acrobacias dos macaquinhos que saltam de galho em galho. Gasto um pouco mais de uma hora nesse percurso, aproveitando o tempo para orações e reflexões sobre a vida, sobre o que já passei, as alegrias que foram muitas, as decepções que me ensinaram bastante, e as tristezas que procuro esquecer. 

Oito décadas de vida, cinco delas dedicadas com muito afinco, à medicina em suas dimensões práticas, didáticas, e associativas. Agora, recolhido em minha aposentadoria, desfruto do dolce far niente, paradoxalmente repleto de atividades. Elas não me desgastam, porque as faço sem compromissos de horários e obrigações. Faço o que quero, quando quero e como quero, às vezes até mesmo revivendo meu consultório, quando sou consultado nas ruas por amigos que trazem exames, queixas e sintomas, para pedir minha opinião.

A vida flui com tranquilidade só quebrada pelos compromissos burocráticos de cidadania, esses sim muitas vezes desgastantes, pela complexidade que os poderes públicos lhes impõe, mantendo espertamente a pesada máquina de governo rangendo e claudicando, mas deixando generosas portas e janelas para desvios de verbas e recebimento de benesses. Ainda assim, tudo suporto, pois se fardos pesados me fazem desdobrar em esforços, maior, mais leve e mais agradável é o tempo desfrutando das amizades e dos graciosos presentes que nos proporciona o Criador.

E afirmo isso porque amanhã, 13 de maio, eu e minha esposa Edite completaremos 20 anos daquele dia de N. Sra. de Fátima em que nos demos em casamento. Dez anos vividos em Belo Horizonte, quando ambos trabalhávamos arduamente, ela com seus finos bordados à mão, elaborados por bordadeiras de incríveis habilidades, sobre projetos que ela desenvolvia em peças de cama, mesa e banho; e eu, em longas manhãs de cirurgias plásticas e reparadoras, por vezes avançando pela tarde e à noite, quando não eram ocupadas pelo atendimento em consultório. Somavam-se a isso as reuniões associativas, especialmente da Academia de Medicina que presidi por três anos, outras noites em palestras sobre minha especialidade cirúrgica, sobre ética, sobre temas de psicologia e teologia, sobre a vida e a morte. Finalmente, em 2009 encerramos nossas atividades, mudando para a pequena praia onde até hoje residimos, e onde esperamos encerrar nossa jornada nesta vida.

Mas, como disse, amanhã eu e a Edite completaremos 20 anos de vida conjugal. Consultando o Google, descobri que esse tempo de casamento é celebrado com o nome de Bodas de Porcelana. Aprofundando-me no tema, descobri que “bodas” é o plural de “boda”, palavra que vem do latim vota, que significa "promessa". Essa palavra, mais comumente usada no plural, é a celebração da promessa matrimonial feita a dois, que sendo promessa, é um compromisso de honra para ser respeitado e cumprido. Compromisso de fidelidade, de amor, de companheirismo, de cumplicidade, de respeito e carinho. 

Será que isso corresponde à realidade dos dias atuais? Por que sua duração, que se espera seja para toda a vida, tem sido tão curta? Até que a morte os separe... Mas, de que morte se fala? Certamente não da morte física, mas da morte do amor, do respeito mútuo, da disponibilidade de um pelo outro. Coisas que nesse tempo de tanta ganância, egoísmo, ambição, hedonismo, morre cedo. Amaros tempos...

Outra curiosidade que descobri, é ter sido na Alemanha onde surgiu o costume de se dar uma coroa de prata ao casal que completava 25 anos de união, e uma de ouro, para os que chegassem aos 50 anos. Daí, Bodas de Prata, Bodas de Ouro. Depois começaram a atribuir simbologias para cada ano de casado, sendo que quanto mais longo for esse tempo, maior será a importância do material que vai simbolizá-lo, indo do mais frágil ao mais resistente. E não foi por acaso que, para os 20 anos, deram o nome de Bodas de Porcelana. Isso porque, os casais que logram atingir essa marca, demonstram que foi muito o zelo pela união, assim como se zela pelas frágeis peças de porcelana para que durem, e não se quebrem. E esse zelo conjugal tem de ser dos dois, e por igual, pois só assim terá a longa durabilidade que um dia merecerá a coroa de prata, depois a de ouro. Se a minha idade o permitir, espero alcançar, pelo menos a de prata.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas