Cultura

13/05/2019 | domtotal.com

Fantasmas ao redor da luz

O tempo faz tempo deixou de ser o senhor da razão e não podemos ver as estrelas de noite porque as ruas andam muito iluminadas.

O grande erro da humanidade é achar que os fantasmas estão nas trevas quando na verdade vivem ao redor da luz.
O grande erro da humanidade é achar que os fantasmas estão nas trevas quando na verdade vivem ao redor da luz. (Vanessa Bumbeers/Unsplash)

Por Ricardo Soares*

Já são muitas mas quero falar da primeira noite de maio. Quando quase amanhecia e da varanda olhei a mata  defronte a casa maltratada. Foram tantos anos olhando pra essa mata pequena mas espessa que sempre achei que a paisagem não fosse mudar mas eis-me  aqui de pé, com uma caneca de café  entre as mãos, olhando para a mesma mata que você gostava de mirar todos os dias.  Sou eu mesmo embora não seja. Minhas mãos, meus dedos , minhas articulações, meus joelhos, meus olhos. São todos os mesmos embora eu não seja o mesmo depois dessa primeira noite.

O tempo faz tempo deixou de ser o senhor da razão e não podemos ver as estrelas de noite porque as ruas andam muito iluminadas. Tiraram da gente o poder da contemplação e parte dessa primeira noite de maio  foi vivida assim. Contando estrelas- novidades. Estrelas que nunca vi e outras das quais perdi a pista desde a infância mais tenra.  Assustei-me inclusive que algumas delas tenham estado no mesmo lugar durante todos esses anos. Eu é que não as percebia ou não queria  notá-las preocupado que estava com todos os fantasmas que vivem ao redor da luz. Alias o grande erro da humanidade é este . Achar que os fantasmas estão nas trevas quando na verdade vivem ao redor da luz.

Pois nessa primeira noite onde a dor cortava o corpo em dois a partir do fim do pescoço pude ver de novo estrelas antigas e perceber claramente o que em mim estava morto e o que resistia vivo. Pude recordar - sem ver evidente - fotos antigas, cenas remotas ,maios de maiôs antigos. Pude ouvir frases e sons que me chegavam de muito longe e pude sentir os cheiros que há muito não sentia. Arroz- feijão sendo feito para a janta em um fim de tarde no fogão de lenha.  Cheiro de sabonete Phebo preto quando minha mãe saia do banho, perfume de dama da noite toda vez que eu passava naquela rua de Ouro Preto, cheiro de sexo suado no chalé da beira da praia, cheiro de camarão frito na beira mar de Fortaleza, o cheiro de Copacabana quando o dia amanhece, o ovo frito da dona Rosa,o pudim de mamão de minha tia Ottilia, os meus tênis sujos depois do futebol da infância, o cheiro do seu cangote quando dormia de costas para mim .

 Ao contrario do que se poderia imaginar o café que tomo após  essa primeira noite de maio é  doce. Não o fiz assim de propósito . Errei a mão sem saber pois você já não está aqui para guiá-la em gestos bem banais ou gestos estudados, previamente pensados.  Você não está aqui para dizer a exata combinação entre uma calça e uma camisa , um par de sapatos com a meia, o jeito que eu tenho que pentear  o cabelo ou alinhar a barba. Você não está aqui para dizer se minhas unhas estão bem cortadas ou se eu deveria ir ao médico para prevenir doenças potencialmente existentes. 

Estranho, quase inexato que eu tenha sobrevivido a essa primeira noite. Completamente sugado , vazio do que eu fui,  vejo pássaros enormes pousarem no terreiro para comer os restos de pipoca que ali deixei de propósito. Os pássaros, creiam , gostam de pipoca. E também gostam de voar ao redor da casa maltratada indiferentes ao fato de você não estar mais aqui . Eles fazem cocô  cagam nas plantas que você cuidava.  

Apesar do calor que deverá fazer nesse dia que começa um vento ainda frio sopra na varanda balançando um terço comprido de madeira que pende enroscado em uma samambaia de metro . No crucifixo  está escrito "Canudos" indicando que o objeto deve ter vindo daquele fim de mundo onde os sertões foram inundados pelas águas do açude de Cocorobó que sepulta armas, bagagens , soldados , conselheiristas e um passado que pouco se conhece.

Mas o passado pouco se conhece mesmo. Assim é se nos parece.  Outros maios se debruçam sobre este de hoje. Menos suados, de dias , talvez, mais felizes pois agora não há bondes, lotações ou estrada velha do Mar que liga São Paulo a Santos. São tempos belicosos, com dementes no poder e não tenho mais drops Dulcora para adoçar minhas horas. Os fantasmas se refrescam e gravitam, ignaros, ao redor da luz. É a era da burrice ostentação. E nesse maio só me resta pensar em outros maios. Os vindouros, de melhores agouros.


Ricardo Soares é escritor e jornalista. Publicou 8 livros, entre os quais "Amor de Mãe" editora Patuá, 2017.

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