Religião

15/05/2019 | domtotal.com

A quem interessa uma fé passiva?

Se a fé tem um aspecto comunitário, sua privatização vai na contramão daquilo que lhe é próprio.

24ª edição do Grito dos Excluídos, reuniu representantes de movimentos sociais, em 7 de setembro de 2018.
24ª edição do Grito dos Excluídos, reuniu representantes de movimentos sociais, em 7 de setembro de 2018. (Akemi Nitahara/ Agência Brasil)

Por Fabrício Veliq*

Durante muitos séculos, ao longo da história do cristianismo, foi dada muita ênfase a certa passividade da fé. A pessoa cristã verdadeira era aquela que buscava a Deus no seu interior, e se dedicava em grande medida a viver de forma que fosse um exemplo para a sociedade. Esse exemplo, por sua vez, na maioria dos casos, viria por uma vida de cumprimento dos rituais cristãos, frequência às atividades da própria Igreja e, algumas vezes, acompanhada de práticas de caridade para com os pobres e famintos da sociedade.

Embora possa parecer algo do passado, de um cristianismo da Idade Média, para o qual o que mais valia era o cumprimento das leis institucionais e certa fé cega, que aceitava tudo que era dito desde que viesse de certa autoridade eclesiástica, ainda é possível ver nos dias atuais certa visão de fé que não seja engajada com as realidades sociais. A transferência da vida cristã para uma vida privada, a visão de um Deus que seria quase como um gerente de alguma agência bancária para clientes prime, que faz o atendimento exclusivo de seus clientes e se preocupa com as suas necessidades, garantindo que sua vida, no campo espiritual, possa ter o selo de aprovação divina, mostra-se extremamente comum e, em alguns meios, até mesmo fomentada.

O problema dessa privatização da fé não é somente que ela segue na contramão de todo ensinamento bíblico que fala de uma fé comunitária e tem a comunidade como alvo, é também o que leva o cristianismo a não se envolver com as questões de caráter público, político e social do contexto no qual ele está inserido, transformando uma fé, que tem em sua origem a ação efetiva no mundo, numa fé que passa a ter como consequência a passividade. Essa fé passiva serve, assim, às estruturas de dominação e de exploração que visam à manutenção do poder sobre as pessoas mais fracas e que não têm como se defender por si mesmas.

A fé cristã, contudo, não deve ser uma fé restrita às relações entre ser humano e Deus. Muito pelo contrário, o ensinamento cristão mostra que a relação com Deus só se manifesta por meio da relação com o próximo, de maneira que a primeira carta de João chega a dizer que “todo aquele que diz amar a Deus e não ama a seu irmão é mentiroso” (1 Jo 4,20). Em outras palavras, a fé cristã implica ação e implica comprometimento com as causas sociais, políticas, públicas e econômicas que perpassam nossa sociedade.

Antes de ser uma fé que somente ora para resolver os problemas da nação, a fé cristã, que nasce do encontro com o Ressuscitado, demanda de todos e todas seus seguidores que se envolvam na luta por justiça, equidade e distribuição de renda visando uma sociedade menos desigual e com mais oportunidade para todos.

Dessa forma, longe de ser passiva, a fé cristã é ativa e requer também ações efetivas para a transformação da realidade, uma vez que, com os olhos da fé e ancorados na esperança da nova criação de todas as coisas inaugurada pela ressurreição, percebe-se que esse não é o mundo desejado por Deus, o que faz com que se busque a sua transformação, mostrando nuances desse reino que há de vir por meio de ações de justiça e lutas por uma sociedade na qual a morte não tem a última palavra.

No cenário atual de nosso país, em que se percebe uma tentativa de desmonte da educação em todos os níveis, um projeto de empobrecimento das populações mais pobres por meio de uma reforma da Previdência que não atinge aos grandes, um projeto de aumento da violência por meio de facilitação de acesso ao porte de armas, uma política de destruição ambiental que pode acabar com o planeta para as futuras gerações, a fé cristã é chamada a alçar a sua voz profética e lutar contra essas ações, por entender que o Deus cristão, conforme revelado em Jesus Cristo, é amor e, como amor não deseja a violência de nenhuma forma, preza por sua criação e a manutenção do ecossistema, e deseja que todos e todas sejam capazes de identificar, por meio da educação, as estruturas de exploração a que, muitas vezes, são submetidos.

A fé cristã, quando compreendia, mostra-se como força poderosa contra os instrumentos de dominação. Por esse motivo, não é de se admirar que os detentores do poder desejem que esta não seja ensinada, preferindo, no lugar, impor um monte de normas a serem obedecidas para se evitar a condenação por parte de um Deus que tem prazer em punir.

Diante disso, no lugar de uma fé passiva, é dever teológico anunciar uma fé que crê, pensa, analisa e age na luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

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