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14/05/2019 | domtotal.com

Passageiro da agonia

Quatro meses de viagem a bordo do barco furado de um governo sem rumo.

'Não roube a minha esperança, roube os meus sonhos e ajude a transformá-los em realidade'.
'Não roube a minha esperança, roube os meus sonhos e ajude a transformá-los em realidade'.

Por Marco Lacerda*

Nunca votei para presidente da República e acho que vou morrer sem votar. Não votei em você, presidente, e não teria votado no seu adversário. Escrevo porque estou farto e desiludido. Farto das mentiras, traições e patifarias que se acumularam ao longo dos séculos, até chegarmos a esse lodaçal em que o Brasil encalhou de vez.

Claro que a responsabilidade não é sua, chegado ao Poder há apenas quatro meses. Mas não se pode perder de vista que o Brasil precisa de rumo e esse rumo é orquestrado pelo presidente da República. À sua revelia ou não, formou-se um grupo clandestino de seguidores seus que atuam nas redes sociais com um poder de destruição e difamação infinitamente superior ao do hoje moribundo PT. Essa gente, como você, não tem formação intelectual nem conhecimento político para ajudar na condução do barco.

Até agora você não se mostrou à altura da missão que o espera desde janeiro. Urge recompor a moral e o prestígio do Brasil, reduzidos a estilhaços. Estamos de volta à velha Síndrome de Zé Carioca. Sou atacado, como jornalista, por cobrar atitude, agressividade e postura de um governo há apenas quatro meses no poder. A verdade, porém, é outra: como é possível um governo há apenas quatro meses no poder já ter cometido tanta asneira?

Entre as asneiras a que me refiro, a mais alarmante é o papel ativo que seus três filhos – Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro – desempenham em seu governo, todos com cargos eletivos e milhões de votos conquistados na esteira da popularidade do pai. Em princípio, uma família unida por sólidos laços ideológicos, na qual cada membro é capaz de amealhar milhões de votos por si próprio, seria uma poderosíssima arma política para o bolsonarismo. Esses rapazes, porém, adultos infantilizados, parecem determinados a minar o seu poder de presidente, e não a reforçá-lo, o que lembra algumas tramas shakespearianas de cortes reais: ciúmes, traições, revelações chocantes, emoções e atos violentos – ingredientes típicos das telenovelas mais vulgares e das revistas de futricas do show business.

Não por acaso, o tema das conversas cotidianas dos brasileiros no horário do almoço, no cafezinho ou nas mesas dos bares é sempre o mesmo: “O que Bolsonaro aprontará hoje? O que os bolsojuniores dirão nas redes sociais? Qual será o novo delírio do bolsochanceler? Quem o bolsoguru vai detonar dessa vez? Qual será a bolsopolêmica do dia?”, pergunta uma colega, a jornalista Eliane Brum.

Você escolheu Olavo de Carvalho, o astrólogo descabelado, e as redes sociais como canais de comunicação. Logo as redes sociais! Antro de insolvência moral onde semi-alfabetizados, incapazes de alinhavar um pensamento lógico, pontificam com a autoridade de experts da Comunicação. Bem no estilo das redes, há pouco seu ministro da Educação, ao referir-se ao escritor Franz Kafka, chamou-o de kafta, a conhecida iguaria da culinária árabe. Kafta, para ele, deve ser o ‘conje’ da esfiha.

“As palavras já não dizem o que dizem ou não sabemos o que dizem”.

Como se não bastasse, seu chanceler continua em busca dos responsáveis pelo fiasco em que se transformou sua ida a Nova York para receber um prêmio. Enquanto seus discípulos nas redes jogam a culpa no esquerdismo do prefeito Bill de Blasio, seu chanceler prefere responsabilizar o cônsul brasileiro na cidade por não ter feito nada para impedir o vexame.

A verdade que o seu governo finge não ver está no seu histórico desde a campanha que o elegeu: seu machismo, sua homofobia e sua beligerância, alardeados à exaustão. As portas de Nova York já estavam fechadas para você desde então, assim como estão lacradas, por razões semelhantes, para o seu parceiro em Washington. Desde que foi eleito, Donald Trump não se atreveu a por os pés em sua libertária cidade natal.

O ministro da Justiça Sérgio Moro deve deixar o governo até o fim do ano.

Com o decreto sobre armas, você, presidente, desagradou apoiadores e críticos, sobretudo por tê-lo feito monocraticamente, sem consultar sequer o seu ministro da Justiça, Sérgio Moro. Além do mais, a liberação da aquisição e do porte de armas em público, temida por boa parte da sociedade civil, só pode ser decidida pelo Congresso. Como o porte de armas foi liberado até para profissionais do jornalismo policial, já pensou que animadas passarão a ser as entrevistas coletivas com os repórteres armados na plateia?

As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. Se os seus inimigos pararem de dizer mentiras a seu respeito, pare de dizer verdades a respeito deles, pois a mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter tempo de calçar os sapatos. A única coisa verdadeira em certos jornais é a data.

Quem desconhece a verdade não passa de um tolo, mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso. Você deve saber melhor do que eu que não é mole governar no mundo em que vivemos. Diz o pensador uruguaio Eduardo Galeano:

- Hoje as torturas são chamadas de “procedimento legal”, a traição se chama “realismo”, o oportunismo se chama “pragmatismo”, o imperialismo se chama “globalização” e as vítimas do imperialismo se chamam “países em desenvolvimento”. O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem ou não sabemos o que dizem.

Liberte-se de uma vez por todas da revoada de abutres (também conhecidos como políticos) de plantão nos palácios de Brasília – quase todos de rabo preso com a Justiça –, com o propósito único de legislar em causa própria, minar a guerra contra a corrupção tão propagada em sua campanha eleitoral, e desmoralizar o ministro Sérgio Moro. Não são poucos os que acreditam que Moro abandonará o seu governo até o fim do ano.

Por favor, não insista em roubar minha esperança. Em vez disso, roube os meus sonhos e ajude-me a transformá-los em realidade, pois já não sou mais capaz de fazê-lo, tamanha a desilusão que tomou conta do Brasil. Para isto, repito, é preciso que você rompa com o crime organizado instalado em Brasília. Caso contrário, estará comprovado que você e seus adversários são dois lados de uma mesma moeda – a moeda da insensatez.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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