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14/05/2019 | domtotal.com

Sim, tive sonhos....

Ela sempre foi um anjo bom, segura e sempre disposta a fazer as pazes, fosse com quem fosse. Era assim mesmo a dona Tuta.

Lev Chaim e sua mãe em Delf, Holanda.
Lev Chaim e sua mãe em Delf, Holanda. (Arquivo pessoal)

Por Lev Chaim*

Ontem sonhei com a minha mãe, dona Tuta para quase todos, mas o seu nome era Noêmia. Ela estava com o seu blazer vermelhinho que ela tanto gostava e acenava para mim. Isso foi o bastante para que a minha história com ela voltasse com tudo. Ela sempre foi um anjo bom, segura e sempre disposta a fazer as pazes, fosse com quem fosse. Era assim mesmo a dona Tuta.

Este sonho me fez lembrar de quando decidi enviar o meu currículo à Radio Internacional da Holanda (Radio Nederland – de Wereldomroep). Eles necessitavam de um jornalista de língua portuguesa, mas que falasse outras línguas. Comentei com a minha mãe e ela disse de cara: envia mesmo. Naquela altura dos acontecimentos, meu pai já havia falecido e morávamos os três na grande casa: a irmã mais velha de minha mãe, tia Sinhá (Maria Zilda); minha mãe e eu. Minhas irmãs e meu irmão, já casados, tinham as suas próprias casas.

Naquele momento, eu estava com a ideia fixa de ir para a Holanda e nem reparei direito no rosto de minha mãe quando lhe dei a notícia. Antes, bem antes, havia me formado na faculdade, ido para a Inglaterra e, quando voltei para São Paulo, arrumei o meu primeiro trabalho fixo para uma revista de engenharia. Às vezes fazia críticas de livros para um amigo que as assinava com seu próprio nome, pois estava atarefadíssimo e não tinha tempo de ler os livros. Foi aí que ouvi que o meu pai, lá em Franca, estava doente, muito doente, e tinha que fazer o máximo de repouso possível.

E foi justamente numa época em que ele havia decidido transformar sua chácara de 30 alqueires, ao lado da cidade, num loteamento, com lotes de 300 metros quadrados. Eu sempre dizia que se ele fosse fazer isso, tinha que arrumar um corretor bastante honesto, que ganhasse a porcentagem exata e não tudo de uma vez como ocorria em outros loteamentos. Devido às circunstâncias, decidi largar o meu emprego em São Paulo, voltar para a minha cidade natal e começar uma empresa para preparar o loteamento do meu pai, juntamente com dois primos que se dispuseram a ajudar e a investir nas primeiras despesas. A novela durou mais de 14 anos no total. Meu pai havia falecido dois anos antes.  

O sonho com a minha mãe me levou de volta para aquela época. Ela havia perdido o marido e estava com a irmã solteira, que sempre morou com ela, desde o seu casamento. Meu pai até brincava que era o único em Franca que tinha duas mulheres. Isto porque a tia Sinhá, ao contrário da minha mãe, sempre gostou de fazenda, chácara e sempre acompanhava o meu pai. Todos lá pensavam que ela era a esposa do meu pai. 

Com certeza, repensando agora, a minha mãe ficou triste com a notícia da minha ida para a Holanda, deixando-a insegura e atrapalhando ainda mais o seu sono. Mas, eu, egoísta, não me dispus a analisar isso, pensar duas vezes, nem me colocar no lugar dela, para ver o que ela realmente sentiu, quando anunciei que iria morar e trabalhar em outro país. Era eu que havia estado à frente dos negócios do papai esse tempo todo. Não, não pensei nisso.

O currículo foi enviado. Havia 60 candidatos e três foram escolhidos para ir para a Holanda e fazer a entrevista (eu estava entre os três). Fui e ganhei o emprego. Depois que fui selecionado, disse a eles que queria um contrato por oito meses de trabalho por ano. Trabalharia oito meses e ficaria quatro no Brasil, de forma intercalada. Eles aceitaram e as coisas foram assim durante os cinco anos que a minha mãe ainda viveu. Após o seu falecimento, o meu contrato com a Radio Internacional da Holanda passou a ser integral.

Ela esteve me visitando por aqui, com a Luciana, uma neta dela que falava inglês. Lembro-me que na sua partida de volta para o Brasil, quando a vi passando pelo controle de passaporte e indo em direção ao portão de embarque do voo, corri até a polícia e disse que havia me esquecido de dizer algo para a minha mãe. Sem esperar resposta, corri ao encontro dela, que já estava a uns 50 metros de distância. Gritei, ela se voltou e eu lhe dei um abraço e disse em seu ouvido: “eu te amo”. Ela sorriu e os dois guardas chegaram para me levar de volta para o outro lado. Nem passaporte eu tinha ali. Outros tempos.

Isso ocorreu há mais de 30 anos, e só agora eu me pergunto como a minha mãe se sentia morando sozinha com a minha tia Sinhá. Minha mãe era medrosa por natureza. Tinha medo de quase tudo e principalmente de tempestades. Eu herdei isto dela. A minha vontade de vir para a Holanda era tanta, que nem um apêndice operado às pressas me impediu de vir. Atrasei por uma semana o voo. Depois, o senhor Dorivaldo, chofer do meu pai e agora da minha mãe, levou-me a São Paulo para tomar o avião. Quando ele me disse, “vai com Deus”, quase chorei. Naquele instante, percebi que estava só e aí pensei em minha mãe.  

Há pouco tempo houve a entrega de um dos maiores prêmios literários da Holanda para o escritor Rob van Essen, autor do livro ganhador do prêmio, De goede zon (O bom filho). Em sua entrevista à televisão, ele contou que escreveu o livro mais para checar o seu verdadeiro relacionamento com a mãe, que morava numa clínica para idosos e sofria com um início de Alzheimer. O jornalista lhe perguntou: “Você foi um bom filho?”. Ele respondeu que sim e que não. Que ele havia escrito o livro para se confrontar com a realidade. Ele disse que ter sonhos era muito bom, mas quando tínhamos sonhos, nunca prestávamos atenção nas pessoas ao nosso redor. Quando ouvi isto, senti-me um homúnculo. Comigo foi assim: decidi vir para a Holanda e nunca parei para pensar como ficaria a minha mãe, lá, sem mim. E você caro leitor? Foi ou é um bom filho ou filha?  

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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