Religião

15/05/2019 | domtotal.com

Francisco adia decisão sobre diaconato feminino

Segundo o papa Francisco, a decisão sobre as mulheres diaconisas não pode ser feita 'sem fundamento histórico'.

Papa Francisco saúda uma freira durante assembléia plenária da União Internacional das Superiores Gerais, que reuniu 850 superioras gerais de congregações religiosas em 10 de maio, no Vaticano.
Papa Francisco saúda uma freira durante assembléia plenária da União Internacional das Superiores Gerais, que reuniu 850 superioras gerais de congregações religiosas em 10 de maio, no Vaticano. (CNS/Vatican Media via Reuters)

Por Joshua J. McElwee*

O Papa Francisco anunciou em 10 de maio que entregou o relatório da comissão vaticana que estuda a história das mulheres diaconisas na Igreja Católica à organização global de mulheres religiosas que solicitou a criação do grupo há três anos.

Em uma audiência de quase uma hora no Vaticano com membros da União Internacional de Superiores Gerais (UISG), o pontífice repetiu suas observações anteriores de que os 12 membros da comissão tinham sido incapazes de chegar a um acordo sobre o papel das mulheres diaconisas nos primeiros séculos do cristianismo.

“Eles foram juntos até certo ponto”, disse o papa. “Até esse ponto, todos concordaram. Depois cada um teve sua própria ideia”.

Referindo-se à líder da UISG, a irmã maltesa Carmen Sammut, Francisco acrescentou: “Por isso, entreguei hoje à presidente, oficialmente, o resultado do pouco que todos conseguiram concordar”.

Francisco havia falado pela primeira vez sobre a comissão das diaconisas em resposta a uma pergunta do National Catholic Report durante uma coletiva de imprensa em voo em 7 de maio. O papa havia dito que, embora a comissão tivesse deixado de trabalhar em grupo, continuariam seus estudos sobre o tema individualmente.

Em sua audiência de 10 de maio com 850 membros da UISG, em Roma, para a assembleia trienal do grupo, o pontífice deu um pouco mais de detalhes. Alguns membros da comissão acharam que a Igreja “deve ir adiante”, disse, e reinstituir uma ordem de mulheres diaconisas. Outros “dizem que devemos parar por aqui”.

“Precisamos estudar isso”, ponderou Francisco. “Não posso fazer um decreto sacramental sem um fundamento teológico histórico”.

Reiterando que agora se espera que os membros da comissão continuem seus estudos individualmente, o papa acrescentou: “Vamos em frente. Depois de algum tempo, posso ligar para os membros da comissão para ver o que encontraram e definiram”.

A audiência de Francisco com as religiosas foi inesperadamente envolvente. Ele entrou no Salão Paulo VI acompanhado por Sammut e a irmã Pat Murray, diretora executiva da UISG e membro do Instituto da Bem-Aventurada Virgem Maria. Quando chegaram ao palco, o papa pediu aos funcionários que levassem uma cadeira para a frente, para que Sammut pudesse se sentar ao seu lado durante todo o evento.

Sammut, que também dirige as Irmãs Missionárias de Nossa Senhora da África, falou primeiro, apresentando Francisco ao grupo e ao tema de sua assembleia: “Semeadores de esperança profética”. O papa tomou notas enquanto ela falava.

Francisco soltou o punho por alguns minutos, respondendo a alguns dos pontos que Sammut havia feito. O papa inesperadamente ofereceu às religiosas 40 minutos de perguntas e respostas, convidando as pessoas a se apresentarem e perguntassem o que queriam.

A gama de tópicos tocados era vasta e incluía abuso sexual de clérigos, como a doutrina se desenvolve atualmente na Igreja e uma possível visita papal ao Sudão do Sul.

Depois de ouvir as observações iniciais do papa sobre a comissão de mulheres diaconisas, uma irmã contou a Francisco que mulheres como ela estavam procurando servir a Igreja em igualdade com os homens. Ela perguntou por que a questão de saber se as mulheres poderiam servir como diaconisas se baseava na prática histórica.

O pontífice respondeu que a Igreja desenvolve seus ensinamentos “em fidelidade com a revelação”. Também afirmou que a natureza da revelação é um “movimento contínuo para se auto-esclarecer”.

“O modo de compreender a fé hoje, depois do Vaticano II, é diferente do modo de entendê-la antes”, disse. “Porque houve um desenvolvimento de compreensão.”

A consciência da fé, segundo afirmou o papa, “cresce com os anos”.

“Está em crescimento contínuo”, disse. “Não muda. Ela cresce. Aumenta com o tempo. Entende-se melhor.”

“Se vejo que isso, o que pensamos agora, está ligado à revelação, será bom”, disse Francisco. “Mas se é uma coisa estranha que não está de acordo com a revelação… não funciona.”

“No caso do diaconato, temos que ver o que havia no início da revelação”, afirmou Francisco. “Se houve alguma coisa, a ideia é deixar crescer, deixar viver. Se não houve coisa algum… não vai funcionar.”

“Não podemos ir além da revelação e definições dogmáticas”, disse. “Somos católicos. Se alguém quiser criar outra igreja, é livre para fazê-lo.”

Francisco também falou sobre o abuso sexual de menores e de religiosas.

Sobre o abuso de menores, contou que a Igreja “iniciou um processo” para abordar a questão de forma sistêmica.

“Lentamente, estamos criando processos”, disse, mencionando sua recente publicação de novas leis determinando que todos os padres e membros de ordens religiosas denunciem o abuso ou seu encobrimento. A Igreja, acrescentou, tomou consciência da questão “com muita vergonha”.

“Mas, abençoada vergonha”, disse. “Vergonha é uma dádiva de Deus. É um processo. E precisamos seguir em frente com o processo – passo a passo – para resolver esse problema.”

Sobre o abuso de mulheres religiosas, Francisco disse que era um problema “sério” e “grave”.

“Mesmo aqui em Roma, estou ciente dos problemas, das informações que estão chegando”, confirmou o papa. “Não só de abuso sexual, mas abusos de poder, abusos de consciência. Devemos lutar contra estes.”

Ele disse às mulheres que suas vidas deveriam ser de serviço, não de servidão (escravidão). “Você não se tornou uma religiosa para fazer o trabalho doméstico de um padre”, disse.

“Por favor”, pediu. “Serviço, sim; servidão, não.”

Francisco falou sobre o Sudão do Sul em resposta a uma pergunta de uma irmã desse país. Ela disse ao papa que as pessoas agradeciam pelo retiro que ofereceu recentemente no Vaticano para seus líderes, mas disse que ainda esperam que ele possa visitar a nação mais jovem do mundo.

O pontífice mencionou que planejava ir ao país no ano passado, mas não conseguiu devido a preocupações de segurança. Mencionando que sua viagem às nações africanas de Moçambique, Madagascar e Ilhas Maurício, programada para setembro, Francisco disse que “talvez pudesse” ir este ano. Contudo, o papa enfatizou a expressão de que “poderia”.

“Não é uma promessa!”, exclamou.

Francisco fez uma promessa, no entanto. Disse às irmãs que participaria de sua próxima assembleia plenária, a ser realizada em 2022.

“Se estiver ainda vivo, irei”, afirmou o papa. “Porém, se eu não puder, lembre meu sucessor, então ele poderá ir!”


National Catholic Reporter - Tradução: Ramón Lara

*Joshua J. McElwee é correspondente do Vaticano no NCR. Seu endereço de e-mail é jmcelwee@ncronline.org. Siga-o no Twitter: @joshjmac.

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