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15/05/2019 | domtotal.com

Gritos no meio da noite

Eu queria apenas compreender o motivo e o destino de seus brados.

Sabia quem era. O que me intrigava não era o som que cortava o silêncio nem o tom esganiçado da voz, mas a fúria implícita.
Sabia quem era. O que me intrigava não era o som que cortava o silêncio nem o tom esganiçado da voz, mas a fúria implícita. (Miguel Schincariol/AFP)

Por Pablo Pires Fernandes*

Os gritos me fizeram chegar até a janela. Eram palavras lançadas ao léu, – para a noite talvez. Embora vociferantes, não as compreendia, mas conhecia quem as pronunciava e era capaz de imaginar os braços agitados daquele homem acompanhando impropérios e indignação. Sabia quem era. O que me intrigava não era o som que cortava o silêncio nem o tom esganiçado da voz, mas a fúria implícita.

Conhecia-o de vista há alguns anos, sempre topando pelas ruas do bairro. Notava-o dormindo sob variáveis marquises, normalmente cercado por um punhado de coisas, objetos de seu trabalho de catador e revendedor. Recebi inúmeras ofertas para compra-los: aparelhos eletrônicos, brinquedos, itens domésticos, todos provavelmente desfeitos por causa de algum defeito.

Diante da regularidade dos encontros, passamos a nos cumprimentar. Ele me saudava com bom dia ou boa tarde, referindo-se a mim como “doutor”, o que me deixava um tanto constrangido. Naquela noite, sai de casa e fui até ele.

Depois do espanto desconfiado, percebeu-me inofensivo e se calou. Eu queria apenas compreender o motivo e o destino de seus brados. Disse isso a ele, sentando-me num degrau próximo e também me calei. O silêncio lhe deixou intrigado, acho. Agitado, andava de um lado para outro movimentando os braços com pausas em que, estático, fitava a minha curiosidade impassível antes de voltar a se movimentar como um felino na jaula.

Perguntei-lhe como se chamava. “Osvaldo”, respondeu-me. Sem lar e vagando pelas ruas, Osvaldo me pareceu surpreso ao pronunciar seu nome, como se reconhecesse ter história e identidade próprias.

Sempre observei com atenção à gente nas ruas e, sobretudo, àquelas que extraem sua força do acaso, atentas às brechas das circunstâncias. Além da resiliência, são geralmente dotadas de criatividade incomum, forjada na necessidade de sobrevier um dia após o outro, o que me faz pensar no presente imperativo. Pensei sobre o passado de Osvaldo e o que levou a dormir nas calçadas.

Ao fim de meia hora de um insólito diálogo, voltei para casa certo de trazer dúvidas maiores. A origem e o destino da fúria de Osvaldo me perturbavam mais, sem que eu identificasse pista alguma. Desfilaram, então, uma série de personagens, conhecidos, mais ou menos íntimos, que habitam ou circulam nas ruas.

A primeira imagem que me veio à mente foi da Maga. Esquálida com seu sorriso banguela insistente, me chama de amigo, pois sempre sucumbo aos apelos de colaborar com o leite das crianças – vi-a grávida mais de 10 vezes. Depois, o casal de craqueiros me fez pensar no afeto – sempre juntos, ele convoca a presença da parceira aos berros sempre que ela se detém ao pedir trocados. Veio-me a imagem do Baiano e sua dança bêbada e trôpega no canto da praça.

Antes de dormir, quando sonho e realidade se confundiam, constatei que, apesar dos meus gestos gentis, não sabia quase nada da realidade daquelas pessoas. Desde aquela noite, Osvaldo deixou de lado a alcunha de doutor e passou a me chamar de pai. Fico ainda mais constrangido, mas aceito como gesto de afeto. Algum dia, quem sabe, eu consiga entender seus sonhos?

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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