Meio Ambiente

16/05/2019 | domtotal.com

Volta da mineração na Serra da Piedade já causa impactos na vida de moradores e de fiéis

Padre e reitor do Santuário de Nossa Senhora da Piedade avisa que Arquidiocese de BH será incansável na defesa da Serra da Piedade.

Retomada da mineração na Serra da Piedade foi aprovada em fevereiro.
Retomada da mineração na Serra da Piedade foi aprovada em fevereiro. (Gabriel Rezende/Arquivo Pessoal)

Rômulo Ávila
Repórter Dom Total

Fiéis, moradores e frequentadores do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, já sentem os efeitos da volta da atividade minerária na Serra da Piedade, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “É um desrespeito à sociedade como um todo. É uma agressão sem tamanho à Terra Mãe”, disse o padre Fernando César do Nascimento, reitor do santuário, em entrevista ao Dom Total.

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A retomada da mineração na Serra da Piedade (Mina do Brumado) foi aprovada pela Câmara de Atividades Minerárias do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) em fevereiro deste ano. Conforme acordo homologado pela Justiça, a mineradora AVG poderá extrair somente após recuperação da área explorada anteriormente pela mineradora Brumafer, que teve suas operações suspensas em 2005, deixando um grande passivo ambiental.

“Tem movimentação enorme de caminhões com impacto sérios e graves acontecendo. Você não consegue passar no trecho da estrada que liga Caeté à BR-381 sem cruzar com 50 caminhões”, disse o deputado estadual João Vitor Xavier (PSDB) ao Dom Total. “Não podemos dar as costas para uma situação dessa gravidade, porque é um dos maiores patrimônios de Minas”.

Padre Fernando César relata que a sociedade reage com indignação, mas que alguns moradores são atraídos pela oferta de emprego da AVG.

“Infelizmente, vivemos uma realidade marcada pelo desemprego. Sabendo disso, a empresa (AVG) acaba seduzindo uma pequena parcela da sociedade com a promessa de trabalho, um marketing poderoso que omite o que há de negativo e chega a encantar as pessoas que não conseguem dimensionar os prejuízos e ameaças, por não estarem envolvidas diretamente e tecnicamente no processo. A propaganda sobre a oferta de emprego encobre o enorme prejuízo que virá no futuro – que o dinheiro hoje adquirido, fruto do trabalho, será 100% ineficiente para garantir a sobrevivência da população diante das consequências que virão com a degradação do meio ambiente. É preciso ter a clareza de que a destruição da natureza é a destruição da própria vida, dom e graça de Deus”, alerta o padre.

 sociedade reage com indignação, mas que alguns moradores são atraídos pela oferta de emprego da AVG. sociedade reage com indignação, mas que alguns moradores são atraídos pela oferta de emprego da AVG.


Mais exploração

O deputado João Vítor Xavier (PSDB) e o padre Fernando mostram preocupação com a possibilidade de exploração de mais 30 hectares na região.

“A arquidiocese está trabalhando incansavelmente na defesa da Serra da Piedade, perante a gravidade do que pode representar o acréscimo de 32 hectares (que extrapolam o acordo judicial) à área de extração de minério; o que resultará no desmatamento de Mata Atlântica, ameaçando cavernas de máxima relevância e nascentes, desconsiderando, ainda, a grande crise hídrica que se anuncia”, alerta o padre. “O mais preocupante é que nada disso toca a consciência das nossas autoridades que têm o poder de dizer sim ou não”, lamenta.

“A mineradora fala em fazer um processo de recuperação ambiental dos danos causados no passado, mas que, na verdade, é o seguinte: faço a recuperação ambiental, mas para isso preciso de liberação para mais exploração mineral”, critica João Vitor 

Procurada pela reportagem do Dom Total, a AVG garantiu não existir pedido para explorar mais hectares. Em nota, afirma existir somente um licenciamento ambiental iniciado em 2013, e no qual foram concedidas as licenças prévia e de instalação. Destaca ainda que todo processo respeita acordo homologado por sentença transitada em julgado.

“A AVG declara que jamais pleiteou, e nem pleiteará no processo de licenciamento e em nenhum outro, autorização e licença de qualquer espécie que não siga os estritos limites da decisão judicial, sendo falsa qualquer afirmação em contrário”, diz trecho da nota. Leia a íntegra aqui!

A reportagem do Dom Total também procurou a Secretaria Estadual de Meio Ambiente. “O licenciamento em questão é fruto de um acordo judicial federal que, devido aos problemas de instabilidade e ao grande passivo ambiental deixado pela Mineração Brumafer na área, definiu um projeto de recuperação concomitante à mineração. Esta área foi denominada de 'Cenário 3' e foi escolhida entre quatro áreas no âmbito do acordo judicial”. Clique e leia a nota na íntegra!

O cenário 3 estabelece a necessidade de avançar em áreas não impactadas para iniciar a recuperação das que estão degradadas. Em audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o deputado Wendel Mesquita (SD) alertou: "No processo de licenciamento junto ao governo de Minas houve uma possibilidade de expandir em mais de 30 hectares, uma extração de uma mata preservada".

Reprodução TV ALMGReprodução TV ALMG

‘Desrespeito’

Padre Fernando César também critica a atuação do Copam, órgão que ele considera ser a favor das investidas das mineradoras, e cita o comportamento de alguns membros durante a votação que liberou a volta exploração.

“Sequer deram atenção à defesa que fazíamos em favor da Serra da Piedade, ficando o tempo todo conectados a seus celulares, tablets etc. Nem mesmo o crime humano e ambiental ocorrido com o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, foi capaz de fazer com que os seus votos fossem modificados”, disse .

“A configuração e composição do Copam, hoje, é totalmente favorável ao que estamos assistindo. Mas a Arquidiocese de BH acredita que existem homens e mulheres de boa vontade capazes de exercer, com imparcialidade, o poder a eles conferido. E com a responsabilidade e respeito que tem pela obra de Deus e pela humanidade, continuamos determinados na defesa desse patrimônio sagrado, que é de todos”, finalizou.

A Serra

A Serra da Piedade detém os títulos de Patrimônio Natural, Histórico e Paisagístico nas três esferas de poder: municipal, estadual e federal. Lá, foi construído o Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade, no século 18, em homenagem à santa de devoção que, desde 1958, é a padroeira de Minas Gerais.



Redação Dom Total

EMGE

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