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17/05/2019 | domtotal.com

Os novos ladrões

Sem preconceitos, os novos ladrões também visam enriquecer seu patrimônio com artigos de menor valor, tais como torneiras de banheiro público recém-inaugurado.

O novo ladrão aguça as orelhas: pode ser uma boa chance.
O novo ladrão aguça as orelhas: pode ser uma boa chance. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Antigamente os ladrões eram tão raros que poderiam ser identificados por categorias. Pais e mães zelosos apontavam, sem erro, aqueles vizinhos e passantes à margem da lei:

- Fulano é mau-elemento. Fique longe dele, meu filho...

Punguista, oportunista, batedor de carteiras, mão-leve, gato, vigarista. Com o objetivo de acrescentar novos itens à referida classificação, acabo de identificar mais uma espécie deveras interessante: são os novos ladrões.

O novo ladrão, ao contrário dos profissionais ortodoxos, costuma ter emprego fixo e carteira assinada. Vive relativamente bem, tem família, mulher, filhos. Enfim: à primeira vista, um sujeito normal, um legítimo cidadão brasileiro. O que distingue esse dos demais é sua posição estratégica, postado exatamente sobre a linha divisória do bem e do mal.  

Exemplo: ele está num bar da avenida, de bobeira, tomando uma cervejinha. Uma turba de manifestantes aparece da esquina, batendo tambores e gritando palavras de ordem. Opa! O novo ladrão aguça as orelhas: pode ser uma boa chance. A passeata se aproxima e toma novas proporções, a temperatura sobe. Um sujeito atira uma pedra contra a vitrine de uma loja. É a oportunidade que o novo ladrão aguardava: larga a cerveja, invade a loja, recolhe três pares de tênis, duas camisetas, três bonés e mais alguns artigos que cabem na mochila – também furtada.

Outra cena: o novo ladrão mora próximo a uma rodovia. Numa linda manhã ele chega à janela, espreguiça-se, acende um cigarro. De repente, o barulho costumeiro dos motores roncando pela estrada é interrompido por um rinchar de freios seguido de estrondo. O sujeito adora estes imprevistos. Só de bermudas, salta da janela e corre em direção ao asfalto. Um caminhão baú está tombado. Outros cidadãos honestos e inofensivos também foram atraídos ao local. Ninguém está preocupado em socorrer feridos, caso existam; muito menos isolar o local preventivamente. O caminhão tombado transporta eletrodomésticos – que sorte! Por isso, como se fosse mágica, aqueles cidadãos honestos e inofensivos sofrem a metamorfose: transformam-se em novos ladrões.  

Sem preconceitos, os novos ladrões também visam enriquecer seu patrimônio com artigos de menor valor, tais como torneiras de banheiro público recém-inaugurado. Ou fechaduras, maçanetas, hidrômetros, válvulas, lâmpadas, espelhos e até rolos de papel higiênico – levados sorrateiramente e desde que não haja testemunhas. Cúmplices discretos, entretanto, são sempre bem-vindos.

Uma vizinha – senhora de seus quase 70 anos – tropeçou numa calçada do centro da cidade; calçada irregular e esburacada, padrão de Belo Horizonte. Enquanto estava no chão, meio atordoada, joelhos e cotovelos esfolados, alguns transeuntes vieram ajudá-la. Entre eles, um homem de meia-idade, bem vestido e até bastante simpático. Discretamente, fingindo socorrê-la com carinho, retirou dela o relógio; dois anéis; uma correntinha de ouro; não se esquecendo ainda de limpar a bolsa contendo os trocados da aposentadoria. Em seguida, como dizem os policiais, o indivíduo rapidamente evadiu-se do local. Não tive dúvidas. Certamente tratava-se de um novo ladrão típico, no auge de sua expertise.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

EMGE

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