Ciência e Tecnologia

16/05/2019 | domtotal.com

Tecnociência desperta temor e esperança

Seminário na Dom Helder reúne especialistas de várias áreas para debater as relações de tecnociência com ecologia.

As discussões éticas e legais estão atrasadas em relação aos avanços técnicos.
As discussões éticas e legais estão atrasadas em relação aos avanços técnicos. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes
Repórter Dom Total

A origem da técnica remonta os ancestrais do ser humano, quando se começou a empregar as mãos associadas ao uso de ferramentas ou instrumentos. O conceito de ciência, porém, pressupõe a elaboração de métodos, padrões e categorias para interpretar o mundo. A tecnociência, portanto, traz consigo esses dois conceitos, mas ganha um sentido mais específico nos dias de hoje. O professor e filósofo Émilien Vilas Boas Reis aponta, porém, que o termo “quase sempre está ligado à relação entre ciência moderna e o uso prático que se faz dela através da técnica”.

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No texto “Técnica: salvação ou devastação da humanidade e do meio ambiente?”, incluído na publicação, o professor Émilien discute as visões, normalmente opostas sobre a tecnociência. Para ele, a noção geral “é de que a mesma técnica que destrói a natureza e prejudica a humanidade é a que irá salvá-la. Apesar de não defender um otimismo raso a respeito da técnica, deve-se enfatizar que sem ela, muito provavelmente, já teríamos perecido enquanto espécie”. Como algo inerente à condição humana, argumenta, a técnica e, portanto, a tecnociência, é necessária uma ampla discussão que passa por educação, ações pessoais, ações coletivas, poder público e academia para que ela seja utilizada a favor da proteção do meio ambiente.

A tecnociência e sua relação com a ecologia é tema de seminário realizado nesta semana em Belo Horizonte, organizado pela Dom Helder Escola de Direito, Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE), Instituto São Tomás de Aquino (Ista) e Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Nesta sexta-feira, na Dom Helder, haverá o lançamento do livro Tecnociência e Ecologia: múltiplos olhares, organizado pelos professores Afonso Murad, Émilien Vilas Boas Reis e Marcelo Antônio Rocha. A proposta da obra, assim como do seminário, é abordar o tema de maneira multidisciplinar, com contribuições de áreas aparentemente distintas como teologia e engenharia ou geografia.

Para o professor Émilien, da Dom Helder, “as temáticas envolvendo a natureza devem ser multidisciplinares, no sentido de várias áreas do conhecimento pensarem, a partir de suas próprias metodologias, a respeito das questões envolventes; mas também deve ser transdisciplinar, no sentido de que é possível criar uma nova forma de refletir que leve em conta as diferentes metodologias das distintas áreas do saber”. O filósofo diz que os textos “conversam entre si” para dar conta da complexidade do tema. A reflexão sobre a tecnociência e suas relações com a natureza abarca, segundo ele, “os ganhos, os prejuízos, os impactos e as relações que a primeira enseja na segunda”.

O professor José Carlos Aguiar Souza defende visão mais ampla acerca da natureza e a narrativa, embora seja exclusiva dos humanos, deva levar em conta o respeito pelas outras formas de vida, sejam plantas ou animais. É o que chama de bionarrativa, conceito que “tira a centralidade humana na concepção do que seja a natureza”. “A natureza não pode mais ser vista em função de nós e dos nossos ideais”, argumenta, acrescentando que a modernidade instituiu uma forma de ver a natureza a partir da relação de dominação.

Assim, José Carlos Souza propõe a noção de alteridade estabelecida pelo filósofo irlandês William Desmond, na qual abandona “qualquer tentativa de reduzir o outro à identidade unívoca do próprio ‘eu’”. “Apenas nesse reconhecimento genuíno poderemos pensar num tipo de soberania do sujeito, que não seja a soberania introduzida pela modernidade de senhorio e domínio”, afirma. Ele acredita que essa nova postura vai influenciar profundamente o direito. “Isso já se mostra no novo constitucionalismo latino-americano, expressa por exemplo na ideia de que a natureza é portadora de direitos fundamentais: um rio tem o direito de correr livremente.”

Émilien explica que, com frequência, as discussões éticas e legais estão atrasadas em relação aos avanços técnicos, o que causam temores na sociedade. “Especificamente, no que diz respeito à relação entre ética e direito, normalmente, as reflexões éticas são anteriores às regulações jurídicas, por isso, é inevitável que o ordenamento jurídico leve em consideração as meditações éticas”, explica. 


Redação Dom Total

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