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20/05/2019 | domtotal.com

O amor nos tempos da virgindade

Um dia, José conheceu Maria, quando ela e a mãe apareceram na loja. Foi paixão ao primeiro olhar.

Só se deram as mãos no dia do casamento.
Só se deram as mãos no dia do casamento. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Ele José, ela Maria. Ele, um jovem comerciante bem-apessoado e próspero. Ela, moça simples da roça, bonita que nem flor de açafrão.

José tinha uma loja de tecidos e armarinho no Largo da Matriz. Aos domingos levantava-se bem cedo, ia à missa das 6h e ali pelas 9h abria a loja. Domingo era dia de movimento na vila, portanto, dia bom para vender cortes de brim e chita, agulhas e linhas e botões e aviamentos em geral à freguesia que vinha das fazendas e povoados pra rezar, passear e comprar.

Um dia, José conheceu Maria, quando ela e a mãe apareceram na loja. Foi paixão ao primeiro olhar. Mas ele mal viu os olhos azuis da mocinha, que, na maior parte do tempo, se mantinha de cabeça baixa, um tanto de vergonha, um tanto pelo jeito de ser, recatada e do lar como eram as mocinhas daquele tempo e daquelas roças.

Filha de uma família rural, Maria morava com a mãe viúva e duas irmãs na casa da fazendinha, a 3 quilômetros da vila. Vinham a pé todo santo domingo para assistir à missa.

Daquele dia em diante José só pensava em Maria. E lá na roça o mesmo acontecia com a bela tabaroa. Aos 17 anos, ela sabia pouco de homens, mas começou a saber quando passou a pensar naquele bonito rapaz de bigode, com quem trocara um único olhar furtivo e eterno. Sonhou todos os dias com a missa do domingo seguinte.

A missa era José.

Chegou o domingo e Maria insistia com a mãe para que comprasse alguma coisa naquela loja. A mãe, roceira muito sabida, desconfiou das intenções da menina. E foram à loja. E José viu uma beleza profunda naqueles olhinhos azuis, que já não se escondiam tanto.

À tardinha, fechou a loja mais cedo, arriou o cavalo, montou e se mandou para a casa de Maria. Chegou, bateu palmas na porta e foi recebido com a hospitalidade da gente da roça. Tomou café de rapadura, comeu broa de fubá e logo disse a que vinha: queria conhecer a moça dos olhos azuis.

A mãe chamou a menina. José veio aqui pra conhecer você, disse. Podem conversar. E conversaram naquela sala toda semana, durante três meses.

Um dia, José resolveu fazer a pergunta que guardava na mente e no bolso, em forma de alianças. Quer casar comigo? Sim, quero. Ele chamou a mãe de Maria e pediu a mão dela em casamento. Tirou do bolso as alianças, provas da boa intenção. E então ficaram noivos.

Só se deram as mãos no dia do casamento, que teve vestido de filó, grinalda com flores de laranjeira e a igrejinha cheia de gente, especialmente de moças que invejavam Maria e moços que invejavam José. Ela aos 17, ele aos 28 anos.

Era um domingo de primavera do ano da graça de 1919.

Tiveram oito filhos e viveram juntos e felizes até que a morte os separasse. Primeiro foi José, velhinho, e anos depois Maria, ainda mais velhinha e na agonia entregando-se, em oração, a Jesus, Maria e... José.

Foi o que pude apurar do namoro, do curto noivado e do casamento infinito dos meus pais, Maria e José Barroso. Casal insuperável na fé cristã, na caridade e no amor. Amor entre si, amor a Deus, amor aos filhos, amor ao próximo e à vida.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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