Religião

22/05/2019 | domtotal.com

O incômodo da graça de Deus

Embora a expressão 'graça' esteja na boca dos cristãos, seu significado ainda é pouco conhecido e, o pior, vivido.

Reconhecer a graça do Pai é aceitar que ele traz o sol sobre justos e injustos.
Reconhecer a graça do Pai é aceitar que ele traz o sol sobre justos e injustos. (Unsplash/ Olivia Snow)

Por Fabrício Veliq*

Toda pessoa que se diz cristã, em algum momento da sua vida, já falou sobre a graça de Deus. De alguma forma, o termo graça se encontra bastante banalizado em alguns meios, de maneira que não se reflete mais sobre o que essa palavra tão simples e tão poderosa quer dizer. Assim como o credo – recitado na maioria das igrejas cristãs ao redor do mundo e por pessoas minimamente instruídas na fé cristã, cuja fórmula começa com o famoso “Creio em Deus Pai....” – é dito sem que se pense qual seja o sentido de afirmar a crença em um Deus que é Pai, da mesma forma a palavra graça é constantemente utilizada em círculos cristãos sem uma reflexão sobre o seu real significado.

Graça, significando “favor não merecido”, é um conceito fundamental para a fé cristã. São diversos usos que possui no dia a dia cristão. Diz-se que vivemos pela graça de Deus; somos salvos mediante a graça de Deus – que nos alcança pela fé –, busca-se a graça dos céus diante de situações difíceis e por aí vai. Entretanto, mais que um termo corrente, ela traz em si algo de bastante incômodo. Em seu bojo está a ideia de que diante de Deus todas as pessoas são iguais e estão na mesma condição.

De início, pode parecer algo trivial e cuja conclusão se pode chegar pelo senso comum. Desde criança se aprende que Deus ama a todos da mesma forma, não fazendo distinção entre ninguém. Mas, num olhar atento ao cotidiano, percebe-se constantemente certo “rankeamento” da população feito por pessoas que se intitulam cristãs. É comum no meio cristão se considerar superior aos outros por acreditar que se está na religião correta ou andando de acordo com aquilo que Deus quer. Em outras palavras, é comum que cristãos se considerem como mais amados por Deus e mais dignos de receber suas bênçãos do que aqueles para quem sua existência não faz diferença ou mesmo o têm como inexistente.

Certo grau de superioridade é percebido nos discursos cristãos atuais, para os quais todo o resto do mundo está perdido e somente aqueles que estão dentro de alguma comunidade cristã são salvos. Nestes também se percebe a mesma ideia de superioridade. Ou seja, a pessoa que é mais ativa na igreja e mais se envolve considera a que não é como mais afastada de Deus e com menos interesse nas coisas divinas. Reproduzem o discurso ouvido, sentindo-se superiores e achando que Deus as prefere em detrimento das que não são tão ativas na vida da igreja.

Com esses pequenos exemplos é possível perceber o quanto o princípio da graça ainda é mal compreendido no meio cristão. Ela traz consigo o incômodo de anunciar que ninguém, por mais crente que seja, é considerado melhor do que qualquer outra pessoa. Em outras palavras, a graça revela que não há nada que possamos fazer para que Deus nos ame mais ou menos. Ela escancara que não há diferença nenhuma, aos olhos de Deus, entre uma prostituta e uma beata, um assassino e um pastor, um psicopata e seminarista. A graça de Deus alcança a todos da mesma forma, não fazendo acepção de pessoas e não selecionando os filhos e filhas mais amados por Deus.

Reconhecer a graça do Pai é aceitar que ele traz o sol sobre justos e injustos e faz vir a chuva sobre maus e bons, sempre prezando pela liberdade daqueles com quem quer conviver. A graça revela, assim, um Deus amoroso, que permite até mesmo não ser amado de volta por aqueles a quem se entrega.

Assim, a compreensão sobre a graça deveria nos fazer abrir mão de toda e qualquer pretensão de superioridade com relação a quem quer que seja e nos fazer perceber que um Deus que ama é sempre um Deus que deixa o ser humano radicalmente livre para se relacionar ou não com ele, não o forçando a nada.

O incômodo da graça nos chama à humildade ao nos fazer perceber que somos todos irmãos e irmãs amados pelo mesmo Deus e, por isso mesmo, responsáveis pela vida uns dos outros, principalmente pelos pobres, desabrigados, famintos e desfavorecidos dessa terra. Consequentemente, somo chamados a lutar pela dignidade ampla de todas essas pessoas.

Se a graça de Deus não nos incomoda dessa forma, talvez ainda seja necessário que nos tornemos realmente pessoas cristãs.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

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