Religião

23/05/2019 | domtotal.com

Educação não é despesa. É investimento em humanização

Conhecimentos técnicos são imprescindíveis para o crescimento econômico, mas a educação deve garantir a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral do ser humano.

A escuta do outro está ligada à educação democrática, radicalmente oposta ao ensino autoritário.
A escuta do outro está ligada à educação democrática, radicalmente oposta ao ensino autoritário. (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Por Élio Gasda*

A educação, bem público, um direito universal e constitucional (direito de todos e dever do Estado- art.205), está sendo transformado em mercadoria. Os sistemas educativos estão sob forte pressão de agentes do mercado. O atual ministro da Educação, um ultraliberal, é operador do mercado financeiro. A presidenta da Associação Nacional de Universidades Privadas (Anup), entidade que representa corporações empresariais como Anhanguera, Estácio, Kroton, Uninove e Pitágoras, é irmã do ministro da Economia. A meta da educação foi reduzida em qualificar mão de obra barata. A educação está na UTI, com risco de morte.

Os conhecimentos técnicos são imprescindíveis para o crescimento econômico, mas seria apenas esse o objetivo da educação? A educação vai além da aplicação de métodos pedagógicos, didáticos, de ensino. Ela deve garantir a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral do ser humano. A reflexão sobre a educação não se restringe ao campo de uma ciência, a pedagogia. Não existe ciência que, sozinha, a compreenda. O conhecimento técnico não a substitui ou a suplanta. A pergunta sobre o papel da educação para a formação humana em contexto de hegemonia do ensino acadêmico a serviço do mercado toca na relação entre cultura cientifica e humanismo, entre o progresso técnico e a ética.

O acesso ao ensino e ao desenvolvimento técnico ainda é um ideal distante para grande parte da humanidade vive na pobreza. Em contrapartida, a população dos países desenvolvidos está totalmente instruída. Mas a instrução não tornou essas pessoas e nem o mundo melhor ou mais pacífico.  

Como sair do perigo de uma formação técnica esvaziada do humanismo? A questão diz respeito à realização da humanidade em cada pessoa. A educação não pode ser reduzida a mera instrumentalização ou uma simples redução do indivíduo à sua função econômico-social. Qual o lugar da educação num contexto caracterizado por um incrível progresso tecnológico, mas com imensa carência de sentido? Não surpreende encontrar indivíduos ao mesmo tempo “instruídos” e entediados, vazios, deprimidos, individualistas e incapazes de descobrir um sentido mais nobre para a sua existência.

Muitas pessoas são pobres porque lhes falta ensino técnico, mas são profundamente educadas, “civilizadas”. O uso de termos como “cultura técnica”, “cultura jurídica”, “cultura empresarial”, não se traduz, necessariamente, em pessoas “educadas”. Existem indivíduos altamente instruídos, mas absolutamente insensíveis e incapazes de dar bom dia ao porteiro. Nem todo "homem culto" é um homem bom, humano, de caráter. Para ser bom não precisa ser culto.

A instrução não substitui a educação. Como fazer com que os indivíduos se decidam, livremente, pela educação e não só pela instrução? Como dar a esta decisão a importância de política de Estado? Como apresentar a educação humanista como uma necessidade? O ponto essencial da educação é assumi-la como parte da pergunta pelo sentido da vida e da sociedade. As ciências humanas não são mero anacronismo nem um conhecimento inútil. Ao contrário, são a condição de possibilidade da consciência do que somos e do que queremos.

Somos seres de diálogo e naturalmente relacionais. Existimos e somos com os outros. A educação tem como objetivo ajudar o indivíduo a adotar atitudes justas e humanas nas suas relações. Essas são fundadas na convivência e no diálogo respeitoso. E esse é o caminho pelo qual os indivíduos ganham significação como seres humanos. Este encontro só pode ocorrer onde há abertura e disponibilidade para escutar o outro, para estabelecer um encontro entre dois seres humanos, onde cada um se coloca em presença do outro. O pensamento crítico, próprio de todo processo educacional, se ocupa com a transformação daquelas situações que impedem que as relações sejam humanizadas. Não há verdadeira educação que não leve à humanização.

A escuta do outro está ligada à educação democrática, radicalmente oposta ao ensino autoritário. Saber escutar é a condição. É escutando que se aprende a falar com os outros. Quem escuta é capaz de dialogar e jamais fala impositivamente. E, quando discorda, trata o outro sempre como sujeito e nunca como objeto. Compreende não ser o único que tem algo a dizer. Por outro lado, aquele que não escuta, esgota a sua capacidade de dizer, por nada ter escutado. Respeitar e acolher a diferença, eis a condição para acolher o outro. A natureza ética da prática educativa enquanto prática humana é imprescindível à convivência minimamente civilizada, não violenta.

Uma educação comprometida com a busca pela dignidade humana deve visar a superação de todas as situações e formas de agressão. Toda prática educativa é um ato de inclusão. “Educar é um gesto de amor, é dar vida. E o amor é exigente, requer que utilizemos os melhores recursos, que despertemos a paixão e que nos coloquemos a caminho com paciência, juntamente com os jovens” (papa Francisco). A cultura forma sábios; a educação, seres humanos.

Educação não é simples transferência de saberes, mas via de humanização. Esta é a principal tarefa. Educar é substantivamente, humanizar. Por trás da educação está a pergunta: O que é ser humano? Nada de humano se fez sem educação. Transformar a educação em qualificação técnica é desconhecer o significado da educação. Portanto, caro ministro da educação, “sobre o que não se pode falar, se deve calar” (Wittgenstein).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas