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23/05/2019 | domtotal.com

O que chamamos de bons tempos

Cadê sua infância? Cadê sua juventude?

Enfim, tem coisas que só a saudade conhece, e é preciso sentir saudade dessas coisas que o tempo não apaga.
Enfim, tem coisas que só a saudade conhece, e é preciso sentir saudade dessas coisas que o tempo não apaga. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Teve apenas uma meia infância quem nunca jogou bolinha de gude ou jogou futebol na rua. Também não pode dizer que teve infância plena aquele que nunca tomou banho pelado num rio, não escreveu em folha de papel almaço com caneta tinteiro e nunca correu atrás de palhaço.

Da mesma forma, não teve juventude pra valer quem nunca dançou bolero de rosto colado, não sentiu o cheiro do lança-perfume Rodouro, não experimentou a sensação de um dia afinal pegar na mão da namorada e, mais ainda, de dar um beijo levemente correspondido.

Enfim, tem coisas que só a saudade conhece, e é preciso sentir saudade dessas coisas que o tempo não apaga. Esclareço que estou falando de práticas de menino-homem, até porque é bem outro o universo da menina-mulher. Dito isso, estripemos essas coisas à la Jack.

NA RUA DE TERRA – O que era, e como se jogava bolinha de gude ou birosca, como era chamada na minha terra? Jogava-se nas ruas pisadas e repisadas pelos cavalos, pelos burros de carga e carros de bois, e por nós, pequenos animais racionais que só andávamos descalços. Bolinhas de gude ou biroscas não podiam faltar nos nossos bolsos. Furávamos um buraquinho no chão, o papão. Era preciso acertar a bolinha do adversário umas duas ou três vezes e depois meter a nossa no buraquinho. Só se usavam os dedos polegar e indicador para impulsionar a bolinha.

PELADOS E PELADAS – Nadar era coisa de todo dia de calor. Nadávamos até debaixo de chuva e às vezes de noite, quando era clara a lua. Sem calção, que calção era roupa que a gente não tinha. Não é preciso dizer que os rios eram limpos. Parece que nem no dicionário havia a palavra poluição. Outra coisa que se fazia no chão da cidadezinha era jogar futebol. Eu era meio perna-de-pau, apenas corria e me esforçava. Mas assim mesmo era bom jogar.

PAPEL E CANETA – Ainda existe papel almaço? Se existe, pra que serve? Na infância da qual falo servia para escrever composições sobre temas que a professora escolhia e mandava fazer. E a gente fazia escrevendo com caneta-tinteiro. Saberá você o que é caneta-tinteiro?

 ATRÁS DO PALHAÇO – De vez em quando chegava o circo, que era armado no largo de cima, e a gente corria em bando atrás do palhaço. E lá íamos nós a responder às perguntas que ele gritava no seu megafone. Hoje tem marmelada? Tem sim senhor. Hoje tem goiabada? Tem sim senhor. Hoje tem arrelia? Tem sim senhor. Mocotó com melancia? Tem sim senhor. E o palhaço o que é? É ladrão de "muié". Quem acompanhava o palhaço ganhava uma marca a tinta no braço, como garantia do ingresso gratuito no circo.

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ – Uma vez chegados à puberdade, dançávamos bolero ao som de orquestras, que não sei como apareciam por aquelas bandas. Orquestras grandes e de nomes pomposos, como Românticos de Cuba e Cassino de Sevilha. Colavam-se os rostos, o que revelava um rascunho de paixão.

AS MÃOS E O BEIJO – Namorar era a coisa mais saborosa do mundo adolescente. Sexo era só insinuado e crescia quando se conseguia pegar na mão. E daí ao beijo, que parecia inocente, percorria-se uma longa jornada. E um dia ele se realizava, um beijo doce como o da valsinha. Era a glória dos enamorados de então.

O CHEIRINHO DO CARNAVAL – Sim, o carnaval tinha o aroma insuperável do lança-perfume Rodouro. A embalagem de metal dourado continha um perfume exalado em spray que impregnava o lenço, a roupa e a alma. Cheirinho bom do éter perfumado. Não viciava. Ou melhor, viciava com datas marcadas: de sábado a terça. Depois disso esse não vício ficava arquivado até o carnaval seguinte.

E então? Você nunca? Cadê sua infância? Cadê sua juventude? Ah, como é lamentável essa vida impregnada de Whatsapp, Instagram, Twiter, Facebook! Vida sem graça essa de datilografar apenas com os dois polegares!

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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