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23/05/2019 | domtotal.com

O Brasil favela urbana

Segue a lógica de que a propriedade tem mais valor que a vida e que só discutir a mobilidade urbana não vai resolver o problema habitacional.

O foco, apesar do academicismo reinante, foi discutir, diante de uma concepção humanista, questões mais do que aflitivas da favelização mundial das grandes cidades.
O foco, apesar do academicismo reinante, foi discutir, diante de uma concepção humanista, questões mais do que aflitivas da favelização mundial das grandes cidades. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Há pouco mais de um mês foi realizado o seminário "Planejamento na escala da metrópole: Experiências realizadas e perspectivas", que foi a primeira atividade pública da Escola da Metrópole no Instituto de Estudos Avançados da USP. A escola é um núcleo de apoio à pesquisa instituído em dezembro de 2017 pela pró-reitoria de pesquisa. Com esse seminário, pretendeu-se resgatar uma discussão sobre a capacidade gestora do Estado diante do caos urbano a que são submetidas as grandes metrópoles brasileiras e mundiais. O foco, apesar do academicismo reinante, foi discutir, diante de uma concepção humanista, questões mais do que aflitivas da favelização mundial das grandes cidades.

Essa favelização já foi lindamente abordada num livro fundamental chamado Planeta favela, de Mike Davis, que tenta explicar – diante do avanço da lógica do neoliberalismo pelo planeta – como ocorreu a concentração da maior parte dos seres humanos do mundo nas grandes cidades e que tipo de trágicas consequências isso traz.

No recente seminário da USP, falaram vários especialistas no assunto ou personagens que tiveram que se submeter aos problemas causados pela superpopulação, como Fernando Haddad, ex- prefeito de São Paulo. Aliás, por trás da realização desse útil seminário, teve o dedo de sua esposa, Ana Estela Haddad. É bom que se lembre que a iniciativa (Escola da Metrópole) segue de vento em popa tentando buscar saídas além da academia para os aparentemente insolúveis problemas de megacidades como São Paulo.

Uma das expositoras com a fala mais contundente desse seminário que assisti foi Erminia Maricato, veterana na luta para humanizar as metrópoles e que, por coincidência, assina o posfácio do fundamental Planeta favela que citei acima. 

Erminia dispõe de um manancial de dados aterradores sobre essa falta de planejamento urbano. Como exemplo, lembrou que 80% dos domicílios de Manaus são tecnicamente ilegais e que, em São Paulo, 25% deles também está irregular. Como conviver, pois, com esse caos urbano, com a ausência de uma malha eficiente de serviços e transportes e todas as questões que disso decorrem ? Aí, ela cunha um termo preciso para isso. Vivemos a era de "senzalas urbanas".

É bom lembrar que Erminia conhece bem esse inferno sobre o qual disserta, pois além de larga experiência no assunto já foi secretária de Habitação na administração de Luiza Erundina. E, aparentemente, apesar de estar sempre discutindo saídas a respeito, não parece ser muito otimista com o panorama atual provocado pela "crise internacional do projeto desenvolvimentista" segundo sua definição.

O leque de assuntos abordados num seminário como esse não caberia numa crônica ligeira como essa . Mas há dados que devem ser ressaltados e com urgência, como lembrou Luís Massonetto, ex-secretário de Negócios Jurídicos da capital paulista, para quem "o município sequer controla seus próprios limites". Já o ex-prefeito Haddad bem lembrou que "morar na malha urbana não é morar na cidade" e que, hoje, 40 % dos brasileiros vivem nas nove regiões urbanas do país. Exemplo disso é que hoje 50% da população do Ceará está em Fortaleza, sinal da abissal desigualdade no estado que jamais foi corrigida, apesar das propagandas enganosas da dupla Tasso Jereissaiti-Ciro Gomes, que querem nos fazer crer que transformaram o estado num Éden.

O que pairou no ar durante a realização do seminário é que segue a lógica de que a propriedade tem mais valor que a vida e que só discutir a mobilidade urbana não vai resolver o problema habitacional. Uma derivação dessa discussão foi a lembrança de Haddad, que garantiu que há, sim, "terra disponível com aparelhamento urbano esperando para ser ocupada". Todos nós torcemos para que a afirmação seja verdadeira não só em São Paulo como em todo o Brasil, já que não temos como contribuir para a reversão do Planeta favela, mas podemos lutar pela reversão do quadro de um Brasil favela urbana.  Que sigam as discussões seguidas de ações.

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Dirigiu 12 documentários, publicou oito livros.

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