Religião

24/05/2019 | domtotal.com

Conservar a Tradição da fé, fugir do tradicionalismo

Na transmissão da fé, comunica-se também algo da cultura e do modo com que os precedentes receberam. Não se pode confundir Tradição, com maiúscula, e tradição, com minúscula.

A Tradição consiste no tesouro da fé que carregamos, como em vasos de barro, e que nos foi transmitido pelos que nos precederam.
A Tradição consiste no tesouro da fé que carregamos, como em vasos de barro, e que nos foi transmitido pelos que nos precederam. (Oshin Khandelwal/ Unsplash)

Por Felipe Magalhães Francisco*

A internet trouxe uma oportunidade única de organização social, tornando possível a reunião, em ambiência virtual num primeiro momento, de pessoas que estavam isoladas em seus gostos e visões de mundo. Com isso, e diante de uma série de influências culturais próprias do nosso tempo, explica-se o levante conservadorista que temos observado no mundo todo. Agora, já que todos têm o poder da palavra, graças à internet, ficou mais fácil que as pessoas reconheçam seus pares, no que diz respeito às visões de mundo e opiniões acerca deste.

No caso do catolicismo, o conservadorismo sempre existiu, desde que o cristianismo entrou num processo de institucionalização. Se antes, no entanto, o conservadorismo era mais visível em meio ao clero, agora isso já se alastrou para o extrato dos fiéis leigos e leigas, muitas vezes mais clericalistas e tradicionalistas que os próprios clérigos. Entre as juventudes, temos observado o crescimento assustador de grupos com compreensões tradicionalistas da fé, que se desdobram, com agressividade, em policiamento doutrinal – equivocado e anacrônico – de vivências religiosas e espirituais, bem como de teologias, que não se adequam àquilo que eles entendem como o correto.

São tradicionalistas porque ignoram a diferença fundamental entre tradição e Tradição, fixando, obsessivamente, o apego à primeira. Tradição, com “t” minúsculo, compreende-se como costumes que pessoas ou grupos adquirem porquanto aquilo faz sentido. Já a Tradição, em maiúsculo, significa aquilo que o cristianismo guarda de mais precioso e que lhe dá sentido. Uma imagem que bem ilustra a Tradição é a de um rio que, por onde passa, influencia e sofre influência do meio. A Tradição é viva: é o Evangelho cheio de sentido na vida das comunidades. Conservar essa Tradição, viva, pressupõe não compreendê-la de modo cristalizado, tal como quem confunde Tradição com tradição.

É preciso conservar a Tradição, com suas tradições não cristalizadas. A fé é um tesouro que carregamos em vasos de barro (cf. 2Cor 4,7) e que muitos irmãos e irmãs que nos precederam carregaram com grande testemunho – não sem percalços, é verdade – até que chegasse a nós: isso é a Tradição. Em cada tempo, há apelos próprios para a vivência e para o testemunho da fé, o que não significa que respostas dadas antes, serão certamente apropriadas para nosso momento. Mas o fio que une estes tempos deve ser um só: a fé.

Há uma ignorância em se pensar que, tradições próprias do período medieval, por exemplo, assumidas institucionalmente pelo Concílio de Trento, correspondem ao todo da grande Tradição da Igreja, que remonta à fé dos Apóstolos: é o caso da Missa de Pio V, ou Missa Tridentina, tão na moda entre tradicionalistas atualmente. Uma visão cristalizada do que seja a Tradição, encerrada nas tradições, leva a graves consequências para a compreensão da fé e do papel da Igreja no mundo. Basta vermos a que os tradicionalistas têm cedido, politicamente, por exemplo, ao redor do mundo e, tão perto de nós, no Brasil. Há catolicismos exagerados, que impedem a vivência do cristianismo e que colocam em risco, a unidade da Igreja.

É preciso compreender o que separa a Tradição do tradicionalismo. Para isso, Daniel Couto nos propõe o artigo: Entre a Tradição e o tradicionalismo, no qual nos ajuda a perceber o que realmente significa a Tradição da Igreja. Uma vez compreendida a verdadeira Tradição, cabe-nos lançar um olhar a respeito da Fidelidade ao Evangelho versus conservadorismo da fé, tal como nos propõe Rodrigo Ferreira da Costa. Diante de uma fé atenta aos sinais dos tempos e comprometida com a vivacidade da Tradição, somos chamados a pensar o nosso papel. É o que nos interpela Gustavo Freitas, no artigo: E sereis minhas testemunhas.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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