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24/05/2019 | domtotal.com

Uns caras legais

Histórias assim me atraem num momento em que a meninada da geração milênio restringe cada vez mais seu universo.

Henry David Thoreau, Alexander Von Humboldt e Walt Whitman
Henry David Thoreau, Alexander Von Humboldt e Walt Whitman (Divulgação)

Por Fernando Fabbrini*

Amigo de Goethe e de Simon Bolívar, o naturalista alemão Alexander von Humboldt subiu montanhas, explorou vulcões, fuçou toda a flora e fauna do mundo, inspirando Darwin e outros cientistas. Apaixonado pela América do Sul, foi por aqui que Humboldt viveu grande parte de suas aventuras, penando de fome, frio e doenças no meio do mato aí pelos meados do século 19.  

Imagino que deve ter sido numa dessas viagens que ele mergulhou no clássico insight existencial. Perdido no meio do floresta, extasiado, olhando as árvores e estrelas do céu, perguntava-se: “Nossa! Quem sou eu? O que estou fazendo aqui?” Sua suspeita de que tudo fosse interligado – gente, bichos, plantas, terra, céu – foi insinuada mais tarde na obra Cosmos, um best-seller que mereceu até um poema elogioso de Edgar Allan Poe. Emocionado, escreveu Poe: “o universo descrito por Humboldt é o mais sublime dos poemas”.

Walt Whitman – o primeiro hippie da história, contemporâneo do cientista –também foi tocado pela ousadia do Cosmos e pela ideia de que “somos todos um”. Isso fica bem claro nas entrelinhas do Folhas de relva e da famosa Canção de mim mesmo: “Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo/ E aquilo que eu sou também deves ser/ Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti”.

Estudiosos atribuem a Humboldt e ao seu Cosmos o papel de instrumento fundamental na formação e no comportamento de um dos escritores mais célebres dos Estados Unidos: Henry David Thoreau. Este foi, para mim, o mais legal e o mais doidão de sua geração.

Ele entrou em Harvard aos 16 anos e formou-se em grego, latim, alemão, matemática, história e filosofia. Um intelectual chato? Que nada: colegas contavam que o rapaz feioso “subia em árvores como um esquilo veloz” e lá ficava por horas, o dia inteiro se deixassem. Ou então caminhava lentamente olhando pro chão em busca de folhas ou insetos. Foi em Harvard que Thoreau escandalizou a sociedade pela primeira vez, escrevendo numa prova: "'O melhor governo é o que não precisa governar; é aquele que deixa as pessoas mais tempo em paz. Infelizmente, só quando os homens evoluírem poderão ter esse governo".

Thoreau torceu o nariz para a promissora carreira acadêmica que lhe ofereciam e se refugiou numa pequena cabana construída por ele mesmo às margens do Lago Walden, próximo a Boston. Ser filósofo “era viver uma vida de simplicidade”.  Aos poucos, foi virando o que mais queria: um bicho muito louco.

Não dava a mínima para a vida social, dinheiro ou conforto. Usava calças remendadas e sapatos que nunca viram um pingo de graxa. Sentia-se mais à vontade sozinho do que na presença de outras pessoas. Uma exceção era sua alegria na companhia das crianças. Recebia com carinho grupos de estudantes do vilarejo e para eles fazia mágicas, malabarismos e repetia uma impagável história de sua autoria envolvendo “um duelo de tartarugas na beira do lago”.

Animais e plantas se comunicam com ele; havia um vínculo que ninguém explicava. Thoreau assoviava e os animais iam surgindo pela trilha. A marmota espiava da vegetação rasteira, esquilos corriam na direção dele e passarinhos pousavam sobre seus ombros. Quando assentava-se na frente de sua cabana, camundongos passeavam ao longo de seus braços; corvos cercavam-no como galinhas dóceis e até serpentes enrodilhavam-se nas suas pernas sem o picar.

Histórias assim me atraem num momento em que a meninada da geração milênio restringe cada vez mais seu universo – e seu tempo – à tela quadrada do computador e às ilusões ali exibidas. Agarram-se, ansiosos, aos monstros e mutantes que combatem nos joguinhos – mas não têm olhos para as maravilhas – reais – bem ao lado. Vale a frase: vida é aquilo que acontece enquanto você fica babando no seu celular.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

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