Religião

24/05/2019 | domtotal.com

Entre a Tradição e o tradicionalismo

No cristianismo há dois tipos de 'olhar para o passado'. Um é fruto da própria espiritualidade e o outro consistem em saudosismo de tempos onde 'as respostas e o contexto eram outros'.

Os grupos “tradicionalistas” ganham força na reconstrução de “modelos” imaginários de tempos “perdidos”, para os quais não podemos voltar.
Os grupos “tradicionalistas” ganham força na reconstrução de “modelos” imaginários de tempos “perdidos”, para os quais não podemos voltar. (Shalone Cason/ Unsplash)

Por Daniel Couto*

"Vou abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa"
(São João XXIII, Papa.)

A fé é um organismo vivo e se renova, continuamente, pela ação do Espírito Santo no corpo eclesial. É essa a crença dos cristãos católicos, e é dessa maneira que se expressa a Palavra de Deus, sempre atual, revelada nas Sagradas Escrituras, na Tradição da Igreja e no Magistério. Tal articulação, revigorada no Concílio Vaticano II a partir da publicação da Constituição Dogmática Dei Verbum, recoloca dentro da temporalidade, da história e dos “sinais dos tempos” a presença e a eficácia dos ensinamentos divinos. Apesar da consciência dos padres conciliares de que a vida ordinária era essencial para a interpretação da Palavra, o que vemos, no contexto dos últimos anos, é um retorno irresponsável a elementos descontextualizados que, anacronicamente, pretendem resgatar uma “tradição” que já não dialoga com o cotidiano, a vida e a sociedade.

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A Igreja, durante séculos, dialogou com as comunidades nas quais estava inserida buscando, a partir das demandas sociais, culturais e religiosas, respostas inspiradas pelo “frescor do Evangelho”. Na história do cristianismo vemos os inúmeros percalços encontrados, seja pela necessidade de uma resposta “dura” e institucionalizada, seja pela demora na compreensão de que os tempos exigiam medidas rápidas de aproximação e presença da Igreja. Esses contratempos fortaleceram a dissociação de uma experiência dita “sagrada” de uma outra realidade denominada “profana”. Quando a experiência humana foi se configurando desta maneira, na dicotomia proposta pela própria vivência da fé, o clamor pela “voz do divino” ficou, cada vez mais, restrito aos âmbitos da “religião”. Essa diferenciação se fortaleceu, ainda mais, no distanciamento do estado e da religião, um processo que se iniciou na revolução da modernidade e que modificou nossa sociedade de maneira estrutural. Chegamos à contemporaneidade com a ideia do mundo profano e do mundo sagrado solidificado em nossas práticas.

Quando reduzimos a experiência do “divino” à faceta específica da existência, revestimos esse âmbito da vida de adereços que, ao invés de nos formar enquanto seres plenos, parecem nos levar a uma realidade que está distante e só pode ser alcançada a partir da negação total dos outros aspectos que vivemos. A herança do dualismo “espírito-corpo” se reorganiza em nossa sociedade atual com o “sagrado-profano”, “humano-divino”. Eis que essa distorção da experiência das primeiras comunidades nos levou para um cristianismo maniqueísta, uma batalha entre o “bem” e o “mal” personificados que se distancia fundamentalmente da fé no “Deus encarnado”. O cristianismo (nos moldes das primeiras comunidades cristãs católicas e no resgate da Tradição proposto pelo Concílio Vaticano II) é uma religião essencialmente do corpo, onde a terra e o céu se encontram e o sagrado e o profanos não se separam, mas possuem um único modelo: Jesus.

O mistério de Deus que se encarna no “hoje” da história humana é fortalecido pelo espírito que “nos une em um só corpo”; este corpo é o mesmo – porque se configura com o Cristo – mas também é plural, pois está inserido em uma cultura, uma história, um tempo, uma linguagem e um contexto. Somente desta maneira a Palavra de Deus se torna “viva e eficaz” porque dialoga com os seus filhos, agentes de um mundo que, cada vez mais, precisa de respostas. A Igreja, no Congresso Mundial das Universidades Católicas (CMUC), em 2013, já nos ensinava que “novos tempos precisam de novos sentidos”.

Diante desta dificuldade em perceber que a realidade do ser humano é completa em si, sem a necessidade de uma ruptura para o “plano do sagrado”, muitos grupos reivindicam a retrógrada visão de uma existência fragmentada em dois polos, repudiando uma existência “do mundo” e exaltando uma “vida de Deus”. Tais movimentos exaltam uma “visão da fé” que respondia aos problemas da Idade Média, ou do início do secularismo moderno, resguardando os símbolos e elementos culturais do cristianismo em uma época onde os ataques não buscavam um diálogo, mas a destruição. Uma outra comunidade humana vivia aquele contexto que, a partir dos seus problemas e dilemas, precisava de respostas que sustentassem sua existência no mundo, lugar da experiência de Deus. Quando a busca por essas “tradições” se torna uma exaltação daquilo que já aconteceu, sem entender o contexto específico e a realidade na qual elas estavam inseridas, encontramos uma desfiguração da própria Tradição e, consequentemente, do cristianismo.

Temos, nesse nostálgico retorno, uma incompreensão do lugar da Tradição na igreja e um movimento que chamamos de “tradicionalismo”. É preciso distinguir os dois tipos de “olhar para o passado” porque um é fruto da própria espiritualidade cristã e o outro um saudosismo de tempos antigos onde “as respostas e o contexto eram outros”. Como já explicitamos no início deste texto, a Tradição é uma fonte rica da revelação da Palavra de Deus e deve ser resgatada sempre a partir da interpretação dos tempos, da realidade da comunidade no “hoje” e da experiência convivial que é intrínseca ao contexto onde ela está. A Tradição é vista como uma “lente” na qual o presente e o passado se articulam, apresentando caminhos e respostas novas aos problemas da humanidade. Por outro lado, o “tradicionalismo” é a retomada de uma realidade passada como “norma” ou “prática” pelo simples fato de constar dentro de uma tradição. É o resgate de estruturas caducas que não dialogam com o contexto, mas reafirmam os enlaces da própria instituição da qual eles são “retirados” em uma autoafirmação e um isolamento diante dos desafios. Os “tradicionalistas” não estão abertos ao diálogo, pois todas as respostas que precisam já foram dadas pelas estruturas estabelecidas através dos séculos, e, ademais, o tempo atual é a corrupção, uma “comunhão divina perdida”. No lugar da busca pelo Evangelho no mundo atual, os “tradicionalistas” desejam um retorno ao tempo onde o “Evangelho era revelado”.

Os grupos “tradicionalistas” ganham força na reconstrução de “modelos” imaginários de tempos “perdidos”, para os quais não podemos voltar. O fenômeno das missas em latim, da retomada de devoções medievais, da visão de uma Igreja juíza e reguladora da moral e da liberdade, da visão teológica de um Deus vingativo, guerreiro e mercantilista, baseiam-se, em muitos casos, em documentos, comunidades, experiências e ensinamentos da própria Igreja, que, com o passar dos séculos e da vida eclesial, foram dialogando com os novos tempos e apresentando novas maneiras de tornar nossa a “carne de Cristo”. As janelas do Vaticano, abertas pelo papa João XXII, são um contraponto aos “tradicionalistas” e um bonito sinal do diálogo, caminho percorrido por Jesus ao elevar o ser humano à dignidade de filhos e filhas de Deus. Os cristãos são chamados, a partir da própria figura missionária de Jesus, a viver a plenitude de humanidade em todos os contextos, tendo como tesouro da fé todos os irmãos e irmãs que responderam, com suas limitações, sua realidade e seu tempo, o chamado por um Reino de Justiça.

O que vemos, portanto, não é um retorno às tradições para clarear a visão do nosso tempo, dos nossos desafios e da nossa realidade, mas um conservadorismo puro e simples, no intento de manter estruturas obsoletas que excluem filhas e filhos de Deus, invisibilizando os problemas e os questionamentos que a Igreja hodierna precisa responder. O “tradicionalismo” que ataca, inclusive, o “papa filho do Concílio”, busca uma igreja que se afasta do mundo em direção ao Divino. Esses grupos são míopes, pois não conseguem enxergar na própria vida da igreja, e na Tradição que eles tanto enaltecem, que o mandamento de Jesus, de “espalhar o Evangelho do amor” nos quatro cantos do mundo só é possível no diálogo com o tempo, o espaço e a cultura. A resposta adequada aos “sinais dos tempos” é, portanto, a dialética entre o modelo proposto por Jesus e os problemas que se apresentam, pois, o único mediador da nossa fé é o Cristo.

Enquanto os “tradicionalistas” querem trancafiar a Igreja em seus palácios, galerias e corredores, aqueles que acolheram a boa notícia sabem que Evangelizar é fazer da “história do povo” a “história da Igreja”. É por isso que Francisco (o papa) está nas ruas, resgatando o primeiro sinal da tradição: o brasão dos cristão reconhecidos como aqueles que amavam radicalmente.

*Daniel Couto é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com pesquisas na área de filosofia antiga, retórica grega, filosofia aristotélica e recepção da filosofia antiga. Trabalha, ainda, com a Liturgia, a Ritualidade Cristã, a Cerimonialidade e a Teologia Litúrgica e é membro da REDE CELEBRA.

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