Religião

24/05/2019 | domtotal.com

'E sereis minhas testemunhas' (At 1,8)

A Igreja não precisa de neo-cruzados, mas de testemunhas do Cristo vivo.

Conservadoristas nutrem a ideia de defesa da Igreja quase que conclamando fiéis para uma Neo-Cruzada contemporânea, bem ao estilo das medievais.
Conservadoristas nutrem a ideia de defesa da Igreja quase que conclamando fiéis para uma Neo-Cruzada contemporânea, bem ao estilo das medievais. (Jan Zikán/ Unsplash)

Gustavo Freitas, FMI*

Estamos no Tempo Pascal, tempo propício em que a Igreja exulta pela ressurreição de Jesus, celebrando a Eucaristia, memorial da Páscoa do Senhor. Nas celebrações litúrgicas, os textos bíblicos nos quais somos chamados a meditar são extraídos dos Atos dos Apóstolos, livro no qual transparece a vivência eclesial à luz da presença do Ressuscitado, que acompanha a comunidade de fé. O texto inicial dos Atos dos Apóstolos tem como projeto eclesial o testemunho de fé no Ressuscitado, conduzido pela presença do Espírito Santo: “Recebereis o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas, em Jerusalém, na Galileia, na Samaria, até os confins da Terra” (At 1,8).

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Atualmente, tem-se observado, com a ala conservadora em outras realidades sociais, e especialmente na Igreja, a ideia de defesa eclesial, quase que conclamando os fiéis para uma Neo-Cruzada contemporânea, bem ao estilo das Cruzadas Medievais (de 1095, quando o Papa Urbano II convocou os cristãos para as Cruzadas, até 1272, última Cruzada). Inclusive, a atual classe conservadora utiliza a expressão Deus lo Vult (forma latina da expressão ‘Deus o quer’, utilizada pelo Papa Urbano).

As justificativas são as mais ignomínias possíveis: Defesa e promoção da fé cristã católica e batalha contra os infiéis e hereges (se outrora no passado, estes eram caracterizados os muçulmanos, agora estes são todos os opositores ao pensamento dos neo-cruzados: os que apoiam a "ideologia de gênero", "lobby gay", aborto, diaconato feminino, etc.), incluindo a maciça morte dos ditos infiéis.

Ora, esta manipulada ‘teoria da conspiração’ está contrária ao Cristianismo em sua essência, por vários fatores. Primeiro, que o Mestre de Nazaré estabeleceu como forma de vivência dos seus seguidores o amor, como ‘mandamento’ instituído, vivido, experimentado, celebrado, na sua plenitude, a exemplo de seu testemunho (“e tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” Jo 13,1). Além disso, que a vivência eclesial escrita em Atos dos Apóstolos é ser testemunhas do Ressuscitado. Outrossim, que as Cruzadas foram um movimento eclesial próprio de seu tempo, motivadas por questões econômicas e políticas daquela época. Por fim, a Igreja não é uma Instituição frágil e caduca que precisa de defensores valentes e corajosos, mas de testemunhas que fizeram uma experiência, um encontro com o Vivente. Aliás, a história nos mostra que a Igreja não é essa instituição frágil, mas sim, uma entidade poderosa, capaz de manipular os reis e os poderosos da época, considerada a grande senhora feudal.

O convite feito aos Apóstolos, e depois a toda a Igreja é de serem testemunhas de Jesus, de anunciá-lo aos quatro cantos, primeiro, com o testemunho de vida, e posteriormente, com as palavras e as pregações, se for necessário. Um bom testemunho de vida que alguém que fez uma experiência afetiva e efetiva com o Senhor é de grande valia para toda a Igreja. Aliás, acredito que o caminho de conversão eclesial passa na leitura e vivência das escritas sagradas dos Atos dos Apóstolos. Este é um livro que ensina os cristãos a serem ekklesía, assembleias do Senhor, reunida por Ele e para Ele.

Nesse sentido, a eleição para a presidência do governo da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é uma grande ferramenta para o exercício do testemunho profético da Igreja no país. A eleição de dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte; de dom Jaime Splengler, arcebispo de Porto Alegre, como 1º vice-presidente; de dom Mário Antônio da Silva, bispo de Roraima, como 2º vice-presidente; e de dom Joel Portella como secretário-geral é de grande valia e testemunho para o Brasil.

Antes de tudo, são pastores empenhados em dar a vida por suas ovelhas (Jo 10,10), no encargo que lhes é confiado. São pastores em comunhão com o papa Francisco e sua visão de Igreja e de mundo. São cristãos que testemunham com vida a pertença a Deus e aos irmãos, e por isso promovem a unidade entre todos os homens e mulheres de boa vontade. Além disso, o caminho de Igreja escolhido pela nova direção da CNBB está alinhado com a visão eclesiológica do papa Francisco, que deseja retomar de forma existencial, os princípios norteadores do Concílio Vaticano II: Uma Igreja aberta a todos, que sai em missão para as periferias existenciais, uma Igreja profética, voltada especialmente para a opção preferencial pelos pobres e para os pobres, uma Igreja inclusiva e acolhedora. Nesse aspecto, as variadas formas de inclusões –sejam elas, étnica, de pessoas marginalizadas, dos moradores de ruas, das várias expressões de diversidades etc. – nas várias realidades pastorais da Arquidiocese de Belo Horizonte têm dado um testemunho de vivência cristã. Por seu testemunho de unidade e de inclusão com todos, são perseguidos pelos opositores do Reino, os mesmos que se auto intitulam “defensores da verdade”. Mas não é isso que ensina o livro dos Atos dos Apóstolos: “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34)?

Além disso, a mensagem que o episcopado brasileiro dirigiu a essa nação, por ocasião da 57º Assembleia Geral foi providencial, profético e pleno de esperança e solidariedade, ao enfrentar e condenar um “liberalismo exacerbado e perverso, que desidrata o Estado quase ao ponto de eliminá-lo, ignorando as políticas sociais de vital importância para a maioria da população, favorece o aumento das desigualdades e a concentração de renda em níveis intoleráveis, tornando os ricos mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres”. (Mensagem da 57ª AG-CNBB).

O texto é claro e explicativo, caminha na contramão das atuais propostas governamentais que excluem, matam, ferem, principalmente os mais marginalizados e excluídos de nosso país. Ensina que o discipulado de Jesus tem sua força no amor, no diálogo e na reconciliação os subsídios para a vida em comunidade, no Brasil, de forma que os preconceitos, as discriminações e o ódio sejam eliminados de nosso seio.

Num mundo em que as palavras têm menos peso do que as imagens, o testemunho é válido para a comunidade cristã. A Igreja não precisa de soldados dispostos a sacrificar as suas vidas, de neo-cruzados, estimulados por frases de efeito como “Deus o quer”, mas de testemunhas. Aliás, Deus nos quer sim, como testemunhas, como a CNBB hoje o é para o Brasil, anunciando com nossas vidas, gestos, palavras e ações, que somos pertencentes ao Senhor e que aderimos ao projeto de Jesus, o Mestre de Nazaré, pois a promessa é para todos: “E sereis minhas testemunhas... (At 1,8 )”.

*Gustavo Santos Freitas é graduado e pós-graduando em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), graduado em Filosofia pela Faculdade Católica de Pouso Alegre e licenciado em História pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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