Religião

24/05/2019 | domtotal.com

Fidelidade ao Evangelho versus conservadorismo da fé

Para se manter viva, a Tradição não pode se apegar a modelos do passado simplesmente. Ao contrário, precisa ser relida e atualizada para fazer sentido no tempo presente.

Se por medo ou em nome de “guardar a Tradição” nos fecharmos em nossas próprias estruturas, vamos adoecer e morrer, e ainda seremos chamados por Deus de servos indignos e preguiçosos.
Se por medo ou em nome de “guardar a Tradição” nos fecharmos em nossas próprias estruturas, vamos adoecer e morrer, e ainda seremos chamados por Deus de servos indignos e preguiçosos. (Dmitry Moraine/ Unsplash)

Por Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

Guardar a fé. Manter viva a Tradição que recebemos dos Apóstolos. Fazer com que o Evangelho penetre as culturas e estruturas. Conservar a fé com criatividade, a fim de que ela continue falando com sentido aos homens e mulheres do nosso tempo. Avançar com os riscos, ao invés de fixar-se em parâmetros objetivos, claros, mas que não encontram ressonância em nossos tempos. Cuidar do “depósito da fé” (cf. 2 Tm 1,14) sem cair no conservadorismo estéril que “pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu” (papa Francisco, EG, n. 83). Eis o grande desafio da Igreja. Não se trata de ser progressista ou ser conservador, ser de direita ou de esquerda, mas de testemunhar a fé com criatividade sem perder a fidelidade à Boa Nova de Jesus. Pois, “a Igreja, quando é autorreferencial, sem perceber, acredita que tem luz própria; deixa de ser mysterium lunae e dá lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual”(Henri De Lubac).

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Para iluminar nossa breve reflexão tomo a parábola dos talentos contada por Jesus (Mt 25, 14-30) para exemplificar o modo como o discípulo do Reino deve agir enquanto espera pela vinda do Senhor. O patrão, confiando em seus servos, dá a cada um parte de sua riqueza e viaja para um lugar distante. Depois de algum tempo ele volta e pede conta de seus bens. Dois dos servos, mesmo correndo risco, trabalharam e lucraram. Por isso, ao se apresentarem diante do patrão trazendo o resultado de seu trabalho foram chamados de “servos bons e fieis”. Um dos empregados, porém, deixando-se levar pelo medo e pela preguiça, fez um buraco no chão e escondeu o dinheiro do patrão, na hora da prestação de contas, ele trouxe apenas o talento que havia recebido e ainda quis justificar-se culpando o patrão exigente. Mas o patrão não aceitou as desculpas daquele “servo indigno e preguiçoso” e o condenou a perder até mesmo o que lhe fora confiado. Estes servos somos nós, discípulos (as) do Reino, aos quais foram confiados os dons mais preciosos. Se por medo ou em nome de “guardar a Tradição” nos fecharmos em nossas próprias estruturas, vamos adoecer e morrer, e ainda seremos chamados por Deus de servos indignos e preguiçosos. Como nos recorda o papa Francisco, “mais do que como peritos em diagnósticos apocalípticos ou juízes sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, é bom que nos possam ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardiães do bem e da beleza que resplandecem numa vida fiel ao Evangelho” (EG, n. 168).

Guardar a fé recebida dos Apóstolos é missão da Igreja. Temos um patrimônio espiritual milenar que precisa ser cuidado. Testemunhar, porém, a fidelidade ao Evangelho e à Tradição não significa fechar-se num conservadorismo estéril, sem vida, sem brilho, sem espírito. Em muitas pessoas e grupos que se dizem “defensores da Igreja” e da “santa Tradição” o que se vê não é uma preocupação em conservar o espírito do Evangelho que gera vida, esperança e salvação para todos, mas o apego à letra fria da doutrina que na maioria das vezes já não fala mais aos homens e mulheres do nosso tempo, esquecendo-se que “a lei mata, o espírito vivifica” (2 Cor 3, 6).

Em tempos de um novo conservadorismo cinzento e, por vezes, fundamentalista e agressivo no seio da Igreja, faz-se necessário voltar o nosso olhar para o modo como Jesus de Nazaré vivia a fé e as tradições religiosas do seu tempo. Ele agia com plena liberdade diante das tradições e das Escrituras (cf. Mt 5, 17-48), não revogando ou destruindo a Lei e os profeta, nem tampouco consagrando-os como inatingíveis, mas dando-lhes, pelo seu ensinamento e pelo seu comportamento, novo sentido, “pleno cumprimento”, no qual se realiza plenamente aquilo que a Lei se encaminhava. Não se trata, portanto, de negar ou afrouxar as verdades da fé que estão firmadas no Evangelho, mas de perceber que as Escrituras e a Tradição precisam ser interpretadas para não se tornarem letras mortas (e que matam). Como afirma Johan Konings, “a vida da Escritura não se fixa nas letras de tinta de uma carta, nem em tábuas como as recebidas por Moisés. Desabrocha no coração, que significa a compreensão. Pelo Espírito, que é o Senhor na sua atualidade como palavra viva. Podemos incluir nesta obra do ‘Espírito’ a ‘esfera hermenêutica’ na qual se desenvolve a compreensão dos textos bíblicos, no seio da comunidade cristã, que procura ser fiel à práxis em palavra e ação de Jesus de Nazaré – fidelidade que tanto a teologia tradicional como a moderna consideram obra do Espírito Santo”.

O Concílio Vaticano II, ao falar da missão da Igreja no mundo atual deixa claro que “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et SPES 1). Neste sentido podemos afirmar que não é possível dizer que a Igreja está sendo fiel à sua missão, ao “depósito da fé”, se ela se fizer indiferente aos clamores dos pobres e sofredores. Por isso, mais do que ser uma Igreja dos antematismos, o mundo espera de nós homens e mulheres da misericórdia e da esperança. Como lembrou o Papa São João XXIII no seu discurso de abertura do Concílio Vaticano II, “a Igreja sempre se opôs aos erros, muitas vezes até condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações”.

Assim sendo, enquanto Igreja, precisamos ter a coragem de “voltar por outros caminhos” (cf. Mt 2, 12), abrindo mão de “caminhos prontos”, de nossas seguranças, e arriscando trilhar caminhos novos para continuar cumprindo com fidelidade a missão que nos foi confiada, guardando uma fé viva que fala aos corações e testemunhando com criatividade e ousadia o evangelho do Reino, para não nos tornamos uma Igreja que fala somente para si mesma, e não consegue se comunicar com os outros que estão fora de seus muros.   

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo em Belo Horizonte-MG.

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