Religião

28/05/2019 | domtotal.com

Beijar durante o Ramadã é perigoso

Demonstração de afeto de atrizes marroquinas no festival de Cannes foi tratado como escândalo em seu país de origem.

A atriz Lubna Azabal (direita) teve de pedir desculpas por gesto de carinho.
A atriz Lubna Azabal (direita) teve de pedir desculpas por gesto de carinho. (Loic Venance/ AFP)

Dois beijos, um dado às escondidas e outro frente a dezenas de câmeras, trouxeram problemas para os quatro marroquinos que os deram por diferentes razões, mas que foram agravados por acontecerem em pleno mês do Ramadã.

O primeiro caso, mais conhecido, foi protagonizado por duas atrizes marroquinas que, na última terça-feira (21).  Elas deram um pequeno beijo na boca, um “selinho”, diante de dezenas de fotógrafos em uma foto oficial em Cannes com o elenco do filme Adam (do cineasta marroquino Meryem Touzani), que foi apresentado no evento francês.

As atrizes Loubna Azabal e Nisrine Erradi, protagonistas do beijo e do filme, talvez não tenham medido as consequências de seu gesto, que em Cannes teria passado como fato banal, mas em seu país chegou à categoria de escândalo.

"Um beijo de amor a uma pessoa que considero minha irmã"

Tanto foi assim que Azabal, de 45 anos e com uma longa carreira, sentiu a necessidade de gravar um vídeo no dia seguinte e publicá-lo no YouTube para se desculpar "diante de Nisrine, das mulheres, do povo marroquino e de todas as pessoas (que se sentiram ) ofendidas”.

Embora tenha enfatizado em seu vídeo que foi "um beijo ingênuo, de amor a uma pessoa que considero minha irmã", ele acrescentou: "Não quis nem chocar, nem ofender a ninguém neste mês de Ramadã".

Um mês de abstinência

E o que o Ramadã tem a ver com essa história? Ninguém faria essa pergunta no Marrocos: o mês de jejum não é apenas um mês de piedade e oração, mas também um período de externalizar pudor e recato.

Uma colunista do portal de notícias le360.ma contou que no primeiro dia do Ramadã, um dia quente, teria descido de seu apartamento para depositar o lixo na rua usando uma regata. Dois jovens passaram por ela e falaram de um jeito agressivo: "Estamos jejuando, cubra-se!".

Penalidades de até seis meses de prisão

Depois veio a segunda história de beijos no Ramadã, mas esta pode acabar pior: em 15 de maio, um casal estava escondido dentro de um carro trocando beijos na saída de um povoado no sul do país, perto da cidade de Guelmim e da fronteira com a Argélia.

Uma patrulha militar passou pelo carro e observou um movimento suspeito de corpos em seu interior à plena luz do dia: não se esqueça que durante o Ramadã a abstinência também inclui o sexo em todas as suas variantes, incluindo o beijo.

O casal, que além disso não era casado, foi levado ao quartel para deporem. O relatório policial do interrogatório ao qual a agência EFE teve acesso insistia na religião dos infratores, o que não é trivial: um artigo do Código Penal (222) pune com até seis meses de prisão "o muçulmano que infringe o jejum" - de comida, bebida ou sexo - durante o dia.

Claro que esse artigo afirma que a ruptura deve ser "ostensiva" e "em local público", exigências que um casal escondido em um veículo não cumpre.

"Incitação à depravação"

Talvez por esse motivo, o promotor de Guelmim tenha sido bondoso e não apresentará acusações por infração do Ramadã, mas apenas por "incitação à depravação", também punido no Código Penal (artigo 502) com penas de um mês a um ano de prisão.

A imprensa marroquina, no entanto, exibiu o caso por vários dias como uma infração ao jejum do Ramadã, apontando seu dedo acusador para o casal de Guelmim com um ímpeto moralizante mais rigoroso do que o das próprias instituições.

No entanto, parece claro que as instituições marroquinas – a polícia, a promotoria e os juízes – estão mostrando nos últimos anos uma certa flexibilidade quando se trata de aplicar o artigo 222 àqueles que se recusam a jejuar e, desse modo, caminham à frente em relação à sua sociedade, que se mostra mais intolerante.

Será que o Estado perdoa, mas a sociedade não? Pergunte às atrizes. Por algum motivo Loubna Azabal teve que pedir perdão "ao povo marroquino".


Religión Digital - Tradução: Gilmar Pereira

EMGE

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