Religião

28/05/2019 | domtotal.com

Idólatra é a fé de vocês

A Bíblia insiste que quem não pratica o direito e a justiça, sinais do seguimento do Senhor, caminha na idolatria.

Pastor da Igreja Batista Atitude ora pelo presidente durante culto.
Pastor da Igreja Batista Atitude ora pelo presidente durante culto. (Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Por Tânia da Silva Mayer*

O Concílio Vaticano 2 ensinou que Jesus Cristo é ápice da revelação de Deus, pois é ele quem a completa ao realizar a nova e definitiva aliança. O concílio também ensina que Deus não se revelará publicamente outra vez antes da manifestação gloriosa do Filho Jesus Cristo quando todas as coisas estiverem completadas. A Dei verbum ainda chama a atenção para o fato de que essa revelação divina em Jesus Cristo é acolhida pelo ser humano na fé, esta que é uma resposta livre e gratuita ao convite de Deus para tomar parte na comunhão da sua vida. Mas para que isso aconteça, é fundamental cooperar com a graça e com o Espírito Santo, colocando-se numa atitude permanente de conversão.

A revelação divina que encontra o ser humano plenamente por meio do anúncio e da inauguração do Reino por meio das obras e das palavras de Jesus, no entanto, se deu ao longo da história da salvação. Deus, ao longo dos séculos, serviu-se de homens e mulheres que se dirigiram ao povo para ajudá-lo a escolher o caminho da Aliança. Por isso, o autor de hebreus começa afirmando que “muitas vezes e de muitos modos” Deus falou pelos profetas. Mas a adesão à antiga ou à nova e definitiva Aliança depende única e exclusivamente do salto de fé que uma pessoa é convidada a dar. E ela pode querer fazê-lo ou não.

Por isso, a história da vida do povo mostrará sempre aqueles que se perdem entre o acolhimento do Reino e a adesão a outros ídolos. E mesmo diante da exortação dos profetas ou dos ensinamentos de Jesus há algumas pessoas que acorrerão aos falsos deuses para se beneficiarem das facilidades prometidas por eles. Parece que foi ontem que o povo solicitou a Aarão que elevasse para eles um bezerro de ouro no deserto para oferecer sacrifícios e torna-lo seu “deus” (cf. Ex 32). Também não sai da memória um discípulo que compartilhou da vida íntima de Jesus, mas preferiu trocá-lo entregando-o para ser crucificado por dinheiro (cf. Mc 14,11). Essas e outras experiências mostram quão aquém se pode estar de uma profissão de fé no Deus de Jesus e quão disponíveis alguns estão para a idolatria.

Mas a idolatria bíblica não consiste somente em erigir altares para outras divindades ou quando o coração humano cede à mesquinhez do dinheiro. É idólatra também toda pessoa que deixa de viver o código de ética da fé. Precisamente, ser ético no mundo bíblico significa praticar o direito e a justiça, sobretudo com relação aos menores do povo. Nesse sentido, defender e amparar a viúva e o órfão, abrigar o estrangeiro na própria casa e socorrer o pobre em suas necessidades consistem na postura a ser cultivada por aqueles que decidem servir ao Deus da Aliança, o libertador e criador de todas as coisas. Quem não baliza a própria vida e não se ajusta a essa medida, é uma pessoa injusta e, nesse sentido, também idólatra, porque vai à contramão da conduta ética esperada por Deus. Nessa linha, Jesus ensina que os queridos do Pai são os que agem em favor do faminto, do sedento, do nu, do doente, do estrangeiro, do encarcerado. Esses estão mais disponíveis para receberem a herança do Reino (cf. Mt 25, 31-46).

Até hoje muitas pessoas erguem alteres aos falsos deuses. Também há aqueles que se tornam idólatras por serem coniventes com as injustiças contra os menores do povo. Essas idolatrias são muitas vezes ensinadas por pastores, padres e pregadores das religiões cristãs, que ignoram a revelação de Deus na humanidade de Jesus. A tentativa perversa e idólatra de criar uma imagem de “enviado de Deus” para o presidente Jair Bolsonaro é um desastre para a fé e para a democracia. Uma aberração, diga-se, pós-moderna, mas com forte ligação às obscuridades de um passado que usou o nome de Deus para objetivos escusos.

Para a fé, trata-se de negar a Tradição sobre a revelação plena de Deus em Jesus Cristo. É dizer que Deus está se revelando num homem de conduta ética muito duvidosa e isso depois de já ter revelado tudo o que era da sua vontade na encarnação do Filho, por meio da pregação do Evangelho. Nem de longe Bolsonaro faz ressoar a palavra de Deus, que falou pela boca dos profetas e nas palavras e obras de Jesus. Não há idolatria maior que elevar um altar para Bolsonaro. Quem pensa que isso não está acontecendo, não leu nas redes sociais um dos dizeres que trazia o seguinte: “Não acho que Bolsonaro vai nos dar o céu, mas espero que nos livre do inferno”. Ora, a fé cristã não espera pela salvação do presidente, mas por aquela que Jesus Cristo ofereceu na cruz a todas as pessoas. É idolatria sim, para os cristãos e para as cristãs que estão indo por caminhos que superam as afinidades ideológicas.

Para a democracia, os sintomas da idolatria não são menores. Em nome de Deus escondem-se alianças que fazem ruir as estruturas democráticas, vende-se o País aos interesses estrangeiros, retiram-se direitos conquistados das classes empobrecidas e as condenam às misérias mais uma vez, aumentam-se as injustiças sociais geradoras de desigualdades, entre outras atrocidades. O maior ataque à democracia é o levante de uma representação teocrática que, sobretudo, governa injustamente para os perversos. É idólatra sim, a fé de vocês.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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