Religião

31/05/2019 | domtotal.com

Expulsar os vendedores e virar a mesa

Jesus é exemplo de indignação contra quem prioriza o dinheiro ao ser humano.

A atitude de Jesus contra o vendilhões do Templo pode encorajar os brasileiros nesse momento da história em que nossas riquezas estão sendo vendidas para enriquecer ainda mais uma minoria de privilegiados.
A atitude de Jesus contra o vendilhões do Templo pode encorajar os brasileiros nesse momento da história em que nossas riquezas estão sendo vendidas para enriquecer ainda mais uma minoria de privilegiados. (Free Bible Images/ Lomo Project)

Por Tânia da Silva Mayer*

É impossível não sentir saudades do tempo em que o ensino superior estava na pauta, como uma preocupação dos governos brasileiros. Preocupação esta que visava potencializar o ensino, a pesquisa e a extensão, a partir de uma lógica de inclusão. Naquele tempo, havia sentido em falar sobre a universidade para todas as pessoas. Hoje, esse sentido tenta ser esvaziado a todo custo pelas autoridades eleitas para governar o Brasil. As pautas defendidas durante a campanha do Bolsonaro já indicavam que a educação não era prioridade para o governo dele e, sobretudo, que ela se tratava de uma contra prioridade.

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Por essa razão, tanto a educação básica quanto a educação superior foram atacadas duramente durante a campanha eleitoral, sendo tachadas como instrumentos de doutrinação de alunos e de alunas às ideologias da esquerda. Tese refutável porque fruto de teorias de conspiração mirabolantes. Em janeiro deste ano, o então ministro da educação, Ricardo Vélez Rodríguez, afirmou através de sua rede social que “a universidade não é para todos”, mas “somente para algumas pessoas”. Anteriormente, em entrevista ao Valor Econômico, ele disparou que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica”. O ministro se justificou com a tese de que a prioridade era o investimento no ensino básico e que o ensino técnico, por sua vez, oferecia um retorno financeiro mais imediato que uma graduação.

Ricardo Vélez, que era um dos preferidos do presidente, foi demitido no início de abril, passando a chefia da pasta para o administrador Abraham Weintraub. Este, por sua vez, não ficou para trás e declarou que os investimentos na educação superior feitos pelos governos anteriores foram errôneos. Segundo o atual ministro, o financiamento estudantil – Fies – é uma tragédia, porque, na compreensão do administrador, os estudantes ficam endividados. Não bastasse essas declarações polêmicas que revelam um projeto contra educação do governo federal, Weintraub anunciou que cortaria verbas destinadas a três universidades federais por praticarem, segundo sua visão, balbúrdias. Compreendendo a inconstitucionalidade do ato, anunciou entre bombons e incompetência que cortaria 30% das verbas destinadas a todas as universidades públicas que são de responsabilidade do governo.

O discurso do governo é de que se a reforma da previdência não emplacar, os cortes de verbas da educação – espertamente chamados de contingenciamentos – não estarão mais em discussão, além disso, programas como o bolsa família e o próprio pagamento das aposentadorias serão afetados. Argumento mais raso não é possível. Um governo de um país com estruturas continentais deveria apresentar para seus cidadãos e para as suas cidadãs mais propostas para solucionar seus problemas. Com essa proposta da morte – ou da reforma da aposentadoria – o governo faz o povo um refém que, sem sombra de dúvidas, sairá perdedor de uma batalha assimétrica e injusta.

Mas o que não pode passar despercebida nessa arapuca é a relação intrínseca que o governo forçou entre a previdência e a educação. Uma se tornou moeda de troca da outra. Mas não se trata de algo irrelevante. Por trás dessa relação está um dos homens mais importantes do governo de Jair Bolsonaro. O ministro da economia Paulo Guedes é quem fez as contas na ponta do lápis e encontrou um resultado, do qual somente ele tem conhecimento, e que prevê a necessidade de cortar os investimentos na educação do país, especialmente no ensino superior. Guedes é o ministro que afirmou há alguns dias que se a reforma da previdência não for aprovada pelo Congresso, ele se mudará para o exterior e ficará bem longe do Brasil.

Bom, uma coisa são as intenções e outra coisa é a intencionalidade dos fatos. O que significa esse entrelaçamento entre a educação e a economia? A quem interessa essa proximidade? A irmã do ministro da economia Paulo Guedes, a senhora Elizabeth Guedes, é vice-presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares – Anup, que defende, entre outras coisas, a independência do ensino superior privado do Ministério da Educação – MEC. Também o próprio Paulo Guedes possui investimentos no setor educacional privado, que lhe renderam lucros altos. Para quem sabe ler, um pingo significa muita coisa.

Está em curso um desmonte do Estado Democrático de Direito. As conquistas do povo estão sendo minadas, a fim de que uma casta de beneficiados lucre ainda mais à custa da exploração dos que possuem muito pouco. A educação não é mercadoria e não deve nunca ser tratada como mero objeto de negócios escusos. Pelo contrário, uma educação pública, gratuita e de qualidade é sinônima do progresso e do desenvolvimento, trata-se da única ponte segura para a construção de um futuro para esse País. Diante do óbvio tramado pelos homens e mulheres de bens, a população brasileira precisa resistir e reagir. À luz da fé cristã, a história pode ser lida com olhos mais esperançosos, que reanimam e encorajam a luta contra as mentiras que diariamente são inventadas e contadas como verdades.

Por isso, nada melhor que voltar ao Evangelho e colher dele os sinais de resistência contra aqueles que enxergam cifrões e, porque apegados ao lucro, esqueceram-se de que a vida é maior e vale mais. É preciso, pois, fazer memória do gesto de Jesus no Templo em Jerusalém que é carregado de força simbólica. O Templo acolhia muitos romeiros que iam oferecer sacrifícios. Por isso, justificava-se no pátio um grande comércio dos animais que seriam utilizados nas liturgias e o cambio do dinheiro pela moeda local. Esse comércio era majoritariamente controlado pelo sumo sacerdote e pelas famílias sacerdotais, que aproveitavam as ocasiões festivas para subir o preço das mercadorias que seriam adquiridas por todo o povo.

Segundo os Evangelhos, ao chegar a Jerusalém, Jesus foi ao Templo e de lá expulsou os vendedores e os compradores, derrubou as mesas dos cambistas e proibiu que qualquer pessoa transportasse mercadoria. Ele bem sabia que aos poderosos do Templo interessava muito mais os ganhos financeiros que ali se obtinham do que propriamente uma espiritualidade do encontro com Deus. Por isso, Jesus asseverou que os interesses escusos das famílias sacerdotais faziam daquele lugar um covil de ladrões e não uma casa de oração. Nesse sentido, ao contestar os ganhos dos que se enriqueciam por meio da religião, ele denunciou a farsa religiosa que ali acontecia.

A atitude de Jesus pode encorajar os brasileiros e as brasileiras nesse momento da história em que nossas riquezas estão sendo vendidas para enriquecer ainda mais uma minoria de privilegiados, sob a farsa de que se trata de algo proveitoso para o povo – coisa que não é. É preciso parar esse comércio e virar as mesas nas quais se negociam barato nossas riquezas, nossos direitos trabalhistas, nosso sistema de saúde, nossa previdência social pública, nossa educação pública, gratuita e de qualidade etc. A melhor maneira de agir é ocupar as ruas com os nossos gritos e as nossas bandeiras que reivindicam um País a altura da nossa gente que o constrói com muito suor e alegria. Os que fazem do Brasil um covil de ladrões, hão de assistir nossa resistência. Vamos destruir esse templo do dinheiro e reconstruir a democracia!

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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