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30/05/2019 | domtotal.com

Mulheres que tecem

Tentavam achar o caminho além dos próprios dedos que trançavam.

Estavam ali tecendo os seus vestígios de passagem sobre a Terra tal qual o falecido artista plástico Artur Bispo do Rosário.
Estavam ali tecendo os seus vestígios de passagem sobre a Terra tal qual o falecido artista plástico Artur Bispo do Rosário. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

À minha esquerda vi uma porta de garagem aberta. Dentro dessa garagem sentadas em círculo pelo menos 10 mulheres – todas elas em idade avançada – tricotavam em silêncio. Mães. Não se entreolhavam, mas sentiam a presença uma das outras irmanadas em tecer juntas, o que se supunha ser o mesmo longo casaco que as protegeria do frio que sentiriam no longo caminho que as levaria ao céu. Cada uma delas tecia um pedaço. Esses pedaços – sabe-se lá quando – um dia estariam juntos cobrindo e esquentando as suas vidas mornas e passadas. Estavam ali tecendo os seus vestígios de passagem sobre a Terra tal qual o falecido artista plástico Arthur Bispo do Rosário.

Muitas dessas mulheres usavam óculos toscos de grossas e baratas lentes de vidro. Tentavam ver além da lã que teciam. Tentavam achar o caminho além dos próprios dedos que trançavam. Entretidas, respiravam baixo e mesmo quando se coçavam era de maneira singela para não incomodar a vizinha ao lado. Muitas estavam calçadas em sandálias de vão de dedo que mostravam pés muitos feios, inchados e maltratados com unhas rombudas e outras pateticamente pintadas em  borrões de vermelho. Alguns pés tinham veias saltadas, na verdade raízes de enormes varizes cultivadas durante anos ao redor de tanques e fogões com meninos chorosos agarrando a barra de suas saias. Aquelas mulheres, muitas das quais de cabelos brancos presos em coque, davam a impressão de que formavam um excelente coro de mães benzedeiras cujas ave-marias e pais–nossos rezados em conjunto seriam capazes de trazer Lázaro de volta à vida .

Atrás delas, viam-se muitas prateleiras onde se empilhavam novelos coloridos de lã e algumas peças já prontas. Blusas, coletes, casaquinhos. Todos de gosto muito duvidoso, mas feitos com capricho único. Também se viam moldes abertos como mapas expostos em uma grande parede. Mapas que indicavam não o caminho das Minas Gerais ou das terras do sem fim baiano. Mas mostravam qual o melhor atalho a se chegar para a conclusão de uma boa blusa, saia ou gorrinho de bebê.

Tão entretidas estavam diante desse fazer coletivo que as 10 mulheres nem perceberam que eu ali estive diante delas durante longos e infinitos segundos a roubar um pouco de suas santidades. Embevecido, tinha a certeza de que jamais saberia fazer uma peça daquelas sequer. Mas daria o que eu tenho e não tenho para que uma só dessas peças me servisse. Queria ser conduzido à eternidade vestido em uma delas. Mas elas não me viam. Simplesmente teciam o futuro.

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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