Brasil Cidades

03/06/2019 | domtotal.com

Nosso jornalismo de guerra

Hoje a carnificina entra na hora do lanche de pipoca com Ki-suco.

Quantos, nos últimos 30 anos, já não pereceram nessa triste guerra brasileira?
Quantos, nos últimos 30 anos, já não pereceram nessa triste guerra brasileira? (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Pode ser que seja completa ignorância de minha parte, mas desconheço qualquer livro de jornalista brasileiro que faça relato do nosso moderno jornalismo de guerra aqui no país. Com testemunhos, relatos, entrevistas com policiais, assassinos, traficantes, milicianos, todos os protagonistas de nossa selvagem guerra urbana travada nos morros cariocas e nas periferias sem fim de nossas grandes cidades.

Se você é daqueles que acreditam que não vivemos uma guerra urbana no Brasil desaconselho a leitura dessa modesta crônica. A premissa básica que ela embute é a de que vivemos essa guerra com intensidade já faz algum tempo e tenho como triste marco inicial dessa "superlativização" da nossa guerra urbana a chacina da favela carioca de Vigário Geral, no dia 29 de agosto de 1993.

Quase 26 anos depois a tragédia, acabou por se banalizar diante de tantas outras, quase cotidianas, que pululam nos nossos noticiários e fazem a alegria de televisivos mercadores da morte, como Datena e suas tristes cópias. Ou seja, hoje a carnificina entra na hora do lanche de pipoca com Ki-suco de milhões de lares brasileiros e todo mundo acaba por achar que a barbárie é normal. De tudo, óbvio, o pior dessa guerra é a banalização da violência.

O assunto entrou na minha linha de tiro – perdão pelo trocadilho – depois que esbarrei com um livro assaz interessante, que estava meio escondido num sebinho ali na rodoviária do Tietê, em São Paulo. Chama-se  A vida secreta da guerra e foi escrito por Peter Beaumont e publicado entre nós em 2010, pela Companhia das Letras. O autor cobriu diversas zonas de conflito, especialmente nos Balcãs, África e Oriente Médio, e entende muito bem sobre violação de direitos humanos e os impactos da chamada "guerra moderna" na população civil. Um relato similar ao de Beaumont aqui no Brasil seria mais do que propício nos tristes dias em que vivemos sob um desgoverno que não preza direitos civis e incentiva porte de armas transformando-nos em porte dos seus karmas.

Quantos, nos últimos 30 anos, já não pereceram nessa triste guerra brasileira? Pior que nem sombra de solução temos no horizonte. Quiçá um relato contundente do mapa sangrento do Brasil sensibilizasse os que devem ser tocados para que invertamos a triste lógica vigente. É um livro caudaloso a se escrever sobre esse nosso jornalismo de guerra, se é que ele existe. Resta saber quem será o ungido preparado para escrevê-lo.

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas