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06/06/2019 | domtotal.com

Quase sessenta

Sou, aos quase 60, afinal, um baita rascunho. Não estou pronto. E ponto.

Amigos e amigas me consolam dizendo que os 60 não doem tanto e enviam relatos de que os 60 são os novos 40. Não me iludo nem me deixo levar
Amigos e amigas me consolam dizendo que os 60 não doem tanto e enviam relatos de que os 60 são os novos 40. Não me iludo nem me deixo levar (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Esta é a derradeira crônica que escrevo antes de entrar oficialmente na terceira idade. Isso posto claro está que, sim, tenho muito a perder às vésperas dos meus 60 anos. Passou tudo muito rápido e talvez eu pensasse que fosse escrever outra coisa além desse monumental clichê. Mas, me desculpem, sou incapaz. Sou incapaz de reverter tantas noites mal dormidas, tantas dores de dente e outras de menor quilate, tantos risos e alegrias, tantos aprendizados errados e verdadeiros em algo original, digerível, honesto, direto e reto. Sou, aos quase 60, afinal, um baita rascunho. Não estou pronto. E ponto.

Escrevo porque necessito. De amparo sobretudo. Sem ele não sei ler sequer as horas, sou aquela velha canoa roída de cupins, à deriva num rio barrento. Não sei quem está nas margens, mas sei que estou à margem de um longo processo que foi me excluindo até me transformar – quase! – num doente dos nervos. E preciso por a culpa em alguém.

Então, por onde começo? Pela infância querida que os anos não trazem mais? Pela adolescência tardia, pela juventude transviada, pelos casamentos equivocados, pelos conflitos não resolvidos com pai, mãe e companhia? Ou começo por uma noite fria onde nasci trazendo bronquite e preocupações à já citada senhora minha mãe? Embora seja historicamente um tempo curto, 60 são sessenta. Por numeral ou por extenso.

Não há mais sentido a essa altura mascar chicletes ou usar bermudas coloridas com bolsos anexos. Não quero ser um velhinho descolado, mas também não me furtarei a olhar e cobiçar bundinhas nativas que gravitam ao meu redor em dias de verão. A libido naufraga e nem sei se sou o último exemplar de minha espécie. Só sei que bebo mais café, durmo menos, lembro das mulheres que perdi e continuo tendo muito medo das alturas. Vertigens supremas, sempre.

Nas ruas, acreditem, os cãezinhos me olham com desconfiança e, outro dia, um mendigo me pediu uns trocados e, enquanto procurava moedas nos bolsos, ele desistiu e foi embora dizendo um formal "não se preocupe não". Foi no mesmo dia que revisitei cantos perdidos da cidade onde não ia desde os meus verdes anos para constatar, estupefato, que muita coisa, apesar de mais encardida, seguia do mesmo jeito. Procurei ecos do meu avô entre os elevadores pantográficos e pedaços dos pacotes de papel pardo que ele carregava cheio de surpresas. Nada encontrei. Nem vestígios. Talvez pelo fato de que meu avô tenha partido há muito tempo e muito além dos 60, apesar do excesso de álcool e de tabaco.

Amigos e amigas me consolam dizendo que os 60 não doem tanto e enviam relatos de que os 60 são os novos 40. Não me iludo nem me deixo levar. Sequer sei se devo ir mais devagar. Não vou passar pelo moedor de carne meus sonhos desfeitos nem meus desalentos. Mas vou, apesar dos pesares, semear sonhos novos em tempos em que há precisão de utopias e esperanças. Se não rejuvenesço, pelo menos não padeço.

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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