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01/06/2019 | domtotal.com

Tensão, memória e normalidade ante a catástrofe

O escritor Jacques Fux se identifica ao resenhar 'Meu pai, minha mãe', autobiografia da infância do autor israelense Aharon Appelfeld.

Nascido na atual Ucrânia, Appelfeld narra com sutileza os dias de veraneio à beira do Rio Pruth.
Nascido na atual Ucrânia, Appelfeld narra com sutileza os dias de veraneio à beira do Rio Pruth. (Leemage/AFP)

Por Jacques Fux*

Quando o resenhista se comove durante seu trabalho, será que ainda é possível escrever ou deve se entregar unicamente à emoção? Será que deve friamente descrever a biografia de Aharon Appelfel (1932-2018) – que nasceu nos arredores de Czernowitz, hoje na Ucrânia; que seu pai era industrial e que, quando os soldados alemães chegaram, mataram centenas de judeus, entre eles a mãe de Aharon; que o escritor e o pai foram levados a um campo de trabalhos forçados, e o jovem conseguiu fugir para as florestas da Ucrânia passando dois anos escondidos, mendigando trabalho e cortando lenha para uma prostituta e, mais tarde, se juntando ao Exército soviético; e que, quando a guerra terminou, ele foi para a Itália e de lá para o que em breve se tornaria Israel, chegando sozinho e quase mudo em 1946 – ou será que o resenhista aceita-se um leitor apaixonado pela história, e decide caminhar junto, de mãos-dadas e com um aperto no coração, se transportando para um passado sombrio e ao mesmo tempo encantador?

E quando esse mesmo resenhista-leitor é também um escritor obstinado em busca das próprias memórias de infância, das palavras, fatos, amores e invenções – e ele descobre que o texto que gostaria de ter escrito está no belo Meu pai, minha mãe? “No instante em que os olhos da criança se erguem por sobre a escuridão dos anos, surge algo como a promessa de novas visões. Palavras claras e um refinamento luminoso da linguagem, que havia anos se encontravam ocultos em seu interior, revelam-se. O espanto exaltado da criança remove, num instante, a poeira que os anos acumularam sobre as imagens e sobre as pessoas, e elas surgem à sua frente como quando lhe foram reveladas pela primeira vez e então, com todo o seu coração, você deseja que essa graça não acabe nunca”. O escritor se comove, assim como se comoveu ao ler Proust.

Em tempos de abstenção completa da poesia – e de uma enxurrada de intolerância – o resenhista-leitor-escritor se depara com a delicadeza de uma obra que narra a extinção de um passado e a reconstrução de uma memória enevoada, ainda que extremamente vívida. Meu pai, minha mãe é um trabalho de suspense: ante a catástrofe que se aproxima – e que o narrador sabe muito bem o que irá se passar – o livro descreve pessoas, relações, interações. Conta uma história de umas férias de verão, à beira do rio; narra as memórias de um menino, de um jovem escritor vivendo entre a sensibilidade, religiosidade e o amor de sua mãe, e a racionalidade e a descrença de seu pai – ambos já perdidos em um passado destruído.

O leitor-escritor ressurge novamente, emocionado. “Escrever um livro é uma jornada que se estende por muitos dias. Ao longo dela, como em todas as jornadas, haverá dúvidas, equívocos, pensamentos desesperados, sono intranquilo. O contato com a própria intimidade e com as figuras que o acompanham ao longo dos caminhos percorridos é uma mistura entre pessoas que você conheceu de perto e outras que passaram à sua frente e que desapareceram de sua vida”. Ele, escritor, compartilha com Appelfeld a dura tarefa da escrita... e das espinhosas reminiscências.

De volta à labuta, o resenhista biografa: com o fim da guerra, e já na Palestina/Israel, Aharon, agora com 17 anos, ingressa no Exército e começa a estudar Literatura e Filosofia. Ele desconhece o hebraico, fala apenas pouco iídiche, e sua língua mãe – o alemão – é desprezada. Quem é ele, então? Apenas mais um inocente e ingênuo estrangeiro que a história acaba de atestar a impossibilidade da assimilação ou um incipiente escritor em busca de uma língua poética para seu trabalho?

O escritor-resenhista irrompe: ele está ansioso, admirado e angustiado para compartilhar antropofagicamente o silêncio do outro com o qual agora se congrega: “O silêncio é o segredo de toda arte. Em meio ao silêncio, enxergamos melhor e ouvimos mais”.

O silêncio é o silêncio dos mortos. Dos fantasmas. Dos crimes e do genocídio kafkiano. Autor-resenhista-escritor-leitor sabe disso: “Não sou capaz, porém, de calar meus sonhos. Eles irrompem em meio ao sono e preenchem completamente. Se não fosse pelos monstros e pelas criaturas sangrentas e aterrorizantes, eu ficaria feliz em sonhar. Perguntei a Mamãe se seria possível calar os sonhos. Mamãe se espantou com minha pergunta e disse: ‘Isso é algo que não está ao nosso alcance. O sono e os sonhos não estão à nossa disposição. Um homem não pede para sonhar. Ele simplesmente sonha’. ‘E isso é um presente ou uma maldição?’, perguntei. ‘O sonho é um presente de Deus e é possível ser abençoado por ele. Deus nos presenteou com dons em abundância. Nós enxergamos, ouvimos, sentimos o gosto e o cheiro e também sonhamos. O que seria de nós sem esses dons?’.”

O resenhista se perdeu, mas sabe que tem que falar um pouco mais sobre o livro: Meu pai, minha mãe se passa em 1938 durante o mês de veraneio da família burguesa. Pai, mãe e filho vivem as últimas férias antes da guerra que dizimaria grande parte daqueles judeus. O livro, de estilo reticente e delicado, traz um narrador vidente: ele sabe do futuro catastrófico, mas nunca perde o olhar poético e sutil com o qual analisa o tempo e os seus personagens.

O escritor já não sabe mais quem e como escreve – “Mas a falta de palavras é sempre uma desvantagem? Mais de uma vez, nos primeiros anos de minha escrita, a falta de palavras adequadas me deixava ofegante, me sufocava. Só com o passar do tempo aprendi que a falta de palavras, a gagueira, frases toscas, todos os defeitos da má escrita, podem ser vantagens. Frases longas, distintas e fluentes às vezes ocultam o vazio. A abundância de palavras ordenadas frequentemente está cheia de excessos” – porém, tem consciência que a literatura é justamente as muitas e infindáveis lacunas que só podem ser preenchidas pela ficção. Ficção essa, narrada em Meu pai, minha mãe, que nos açoita ao recalcar a dor, a história e o passado de Aharon Appelfeld.

MEU PAI, MINHA MÃE

De Aharon Appelfeld
Tradução de Luis S. Krausz
Editora Carambaia
232 páginas
R$ 79,90


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*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

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