Religião

31/05/2019 | domtotal.com

Fé cristã e resistência em defesa dos empobrecidos: aprendendo com as Escrituras

Profetismo é anúncio esperançoso de transformação da realidade lida em perspectiva divina, implicando consequentemente em ação: luta por justiça.

Resistir aos poderes da morte, que muitas vezes se mostram com uma linguagem e roupagem religiosas, é lutar contra falsos ídolos que nos distanciam da plenitude do Reino de Deus.
Resistir aos poderes da morte, que muitas vezes se mostram com uma linguagem e roupagem religiosas, é lutar contra falsos ídolos que nos distanciam da plenitude do Reino de Deus. (Lubo Minar/ Unsplash)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Há uma coisa que o povo da Bíblia nos ensina, em toda a sua história, e que muito tem a dizer para nosso tempo atual de Brasil, a respeito da resistência. A história do povo da Bíblia se fez em meio a muitas crises. Essas foram lidas como ocasiões importantes para o fortalecimento da fé e da própria identidade de povo, compreendida na relação com o Senhor, libertador e criador.

Diante das constantes ameaças dos povos hegemônicos, o povo da Bíblia esteve sujeito, muitas vezes, a sistemas de injustiça e opressão que iam terminantemente contra o desejo de Deus de relações justas, equânimes e que fossem garantias do direito, sobretudo aos mais vulneráveis da sociedade. Muitas vezes, as lideranças do próprio povo significavam ameaça ao bem-viver, compreendido segundo o coração de Deus, para toda aquela gente.

O papel de homens e mulheres que souberam ler a realidade, percebendo nela as injustiças, foi muito importante. São os profetas e profetisas que, à luz do querer de Deus, interpretavam a realidade e a história, julgando-as. Esse juízo era constante convite à mudança de rumos e à adequação das políticas e costumes sociais e religiosos, em favor de um seguimento fiel à vontade de Deus que era de mais vida para todas as pessoas.

Também Jesus, verdadeiro profeta, soube ler a realidade sofrida do povo e dar uma esperança de transformação dessa realidade. Ao falar sobre o Reino de Deus, Jesus anunciava com sua própria vida uma maneira radicalmente nova de viver diante de Deus e na relação uns com os outros. Em Jesus, definitivamente podemos sonhar com uma realidade completamente transformada e nova, na qual todas as pessoas possam vivem dignamente.

A esperança dos discípulos e discípulas de Jesus, na possibilidade de realização do Reino de Deus, deve ser motor de fé e missão, em todos os tempos. Em nosso atual cenário político-social, é dever dos cristãos e cristãs erguer a voz na luta por justiça. O Reino de Deus não é apenas uma promessa a se realizar num futuro além-vida, mas é no já da história que precisamos começar a viver essas novas relações que favoreçam a vida em abundância. E são, sobretudo nos tempos em que o poder da morte mais revela sua força, que a fé deve nos mobilizar a sermos anunciadores de vida.

Os discípulos e discípulas de Jesus, se quiserem se manter fiéis ao Evangelho do Mestre e Profeta da Galileia, não devem comprometer a própria vida com sistemas injustos que têm a morte como estandarte. É preciso vencer o engodo de falsos messianismos que iludem e que nos desviam da compreensão profunda daquilo que o Evangelho nos revela: o Reino de Deus é para todos e todas, sem distinção e, para que ele se efetive em nossa história, é preciso arregaçar as mangas e fazê-lo acontecer.

Tudo isso, em nome da fé, configura-se como resistência. Resistir aos poderes da morte, que muitas vezes se mostram com uma linguagem e roupagem religiosas, é lutar contra falsos ídolos que nos distanciam da plenitude do Reino de Deus. O Brasil passa por momentos bastante delicados e o risco de regredirmos em todos os bons passos que, como sociedade, conseguimos dar é bastante real. Como sempre, quem mais sofre, na própria carne, são os empobrecidos e as empobrecidas, sempre mais vulneráveis às maldades colossais dos que dominam os poderes: e enquanto uma vida sequer continua sendo crucificada, o Cristo é crucificado nela.

Aqueles e aquelas que têm fé em Jesus Cristo, e que o confessam como Senhor de suas vidas, não podem atrelar sua história a sistemas que produzem mortes. É preciso resistir: eis um verdadeiro imperativo de fé! As Sagradas Escrituras têm muito a nos ensinar sobre isso: recorrendo a elas, o colaborador e as colaboradas deste nosso Dom Especial, convidam-nos a pertinentes reflexões sobre nossa atuação, na leitura e na transformação de nossa realidade atual.

 Junior Vasconcelos do Amaral puxa a conversa, com o artigo Resistir ao sistema com esperança, no qual, lendo nossa realidade político-social brasileira, recorre à tradição do profetismo bíblico para nos inspirar ações em prol do direito e da justiça, que são verdadeira riqueza que gera vida.

Em seguida, Solange Maria do Carmo propõe o artigo: Violência acima de tudo (ou Os pequeninos que danem), refletindo sobre a perseguição aos pequeninos em dois marcantes episódios das Escrituras, e que jogam luzes sobre nossa realidade atual, com ações nefastas vindas do atual governo.

Por fim, Tânia Mayer remete-nos à pessoa de Jesus, que soube resistir aos poderes injustos de sua época, a partir do artigo: Expulsar os vendedores e virar a mesa, no qual nos conclama a, tal como Jesus, encorajarmo-nos na luta contra a idolatria do dinheiro, que faz muitas vítimas.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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