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03/06/2019 | domtotal.com

Com um nó na garganta

Gravata enrijece o pescoço, faz suar, amordaça, escraviza.

Quando é obrigado a usar gravata, ele até que tenta.
Quando é obrigado a usar gravata, ele até que tenta. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

O grande nó na vida de Necésio é o da gravata. Parece castigo: por mais que tenha tentado, durante anos, aprender a dar nó, jamais conseguiu. Quando é obrigado a usar gravata, ele até que tenta. Coloca a peça em volta do pescoço, passa o lado mais largo para trás do mais fino, depois dá uma volta por cima, enfia a ponta do lado largo por trás de si mesmo, dá uma segunda volta, enfia, puxa, aperta, e o resultado é sempre um nó torto, inclinado ora para o lado esquerdo, ora para o direito. Resulta sempre enviesado, indevido, inviável. Nunca sai certinho, como os que ele vê e inveja no pescoço dos outros seres engravatados que estarão soberbos à sua volta na cerimônia para a qual foi obrigado a se engravatar naquela noite. 

Mais que o próprio nome, que reconhece ser estranho e feio, Necésio detesta esse item da indumentária. Nunca gostou, porque o considera extremamente incômodo, além de ilógico e desnecessário. Gravata enrijece o pescoço, faz suar, amordaça, escraviza. E parece que essa ojeriza lhe provoca um nó na inteligência. Sente-se um idiota retardado sempre que tem de dar o raio do nó.

Naquela noite da semana passada, ele estava se aprontando para ir a um evento importantíssimo, o casamento do seu melhor amigo, de quem era um dos padrinhos. Era hora do nó, hora do início de uma tortura que só iria terminar quando o casamento estivesse consumado e as boas doses de uísque da festa permitissem desmanchar o nó e meter a gravata no bolso.

Vestiu o terno, calçou os sapatos, era hora do nó. E agora? Pegou uma gravata, não, esta não. Pegou outra e outra, até que achou a que lhe pareceu mais adequada para a cor e o modelo do terno. Começou então o martírio. A primeira tentativa foi um desastre: o nó ficou tão mal feito que ele deu um puxão para desatar e, em vez disso, o nó apertou mais, quase o enforcando. Virou um nó cego que ele a custo conseguiu desfazer.

Começou tudo de novo, tentando lembrar-se das instruções mais ou menos recentes de um amigo. Desta vez ficou quase bom, a não ser pelo tamanho da gravata. Muito curta. Mal chegava à região do estômago, quando o destino correto é a cintura. Foi obrigado a desfazer de novo o diabo do nó. Refez, já puto da vida. Não ficou bom, como sempre, assim como não há de ficar jamais.

Estava atrasado, o casamento foi marcado para as oito e eram são sete e quarenta. Pegar o carro, não, era melhor um táxi. Afinal, podia não achar lugar para estacionar. Além do mais, ia beber na festa e, quando beber, não dirija, recomendam os bafômetros. Quanto ao nó, ficou do jeito que estava mesmo. Apertado demais, torto demais, fino demais.

Chegou à igreja a tempo de ocupar o lugar ao lado da Ninha, a madrinha que seria seu par na cerimônia. Terminado o casamento, todos cumprimentavam os noivos e se dispersavam. Mas Necésio não se livrou do comentário que um amigo fez à saída da igreja, olhando impiedosamente para o seu pescoço.

- Chiii, cara, que gravata horrorosa!

Dessa vez nem a gravata se salvou. Superava o próprio nó. Arrancou-a ali mesmo e jogou fora com nó e tudo.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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