Saúde

03/06/2019 | domtotal.com

Desinformação dificulta combate ao sarampo

A baixa cobertura vacinal no Brasil é apontada como um dos fatores responsáveis pela epidemia de sarampo.

Falhas na cobertura vacinal podem ser reduzidas com a informação.
Falhas na cobertura vacinal podem ser reduzidas com a informação. (AFP)

Por Patrícia Almada
Repórter DomTotal

No Brasil, é lei vacinar crianças e adolescentes. A Lei 8.069 de 13 de julho de 1990, artigo 14, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) diz: “É obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”. Existe até punição para isso – em torno de 20 salários mínimos. Porém, nem sempre a lei se faz presente.

A baixa cobertura vacinal no Brasil é apontada como um dos fatores responsáveis pela epidemia de sarampo, por exemplo, que em 2018 atingiu oito estados brasileiros, com mais de 10 mil casos confirmados. Esse número é quarenta e seis vezes maior comparado a 2015, quando se registrou 214 acometidos pela doença. O sarampo se manifesta por febre alta e, em seguida, erupção de placas. É contagiosa quatro dias antes e depois desta erupção.

Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a declarar o fim da doença no país, mas, em fevereiro de 2018, dois surtos provenientes dos estados de Amazonas e Roraima, relacionados a pacientes refugiados da Venezuela, mudaram o quadro. Para evitar a proliferação da doença, seria necessário imunizar pelo menos 95% da população.

A mudança deste quadro, de acordo com o infectologista da secretaria municipal de saúde, Argus Leão, deve-se também ao afrouxamento dos órgãos públicos de saúde com as campanhas de vacinação, pela desinformação das pessoas sobre a imunização e à falta de orientação aos pacientes por parte dos médicos de diversas especialidades. “É muito difícil ver, em uma consulta regular com um clínico, nefrologista ou cardiologista, por exemplo, o assunto de vacinas. Portanto, os próprios profissionais não se mantêm atualizados a respeito das vacinações e acabam não orientando os pacientes. Acredito que o maior impacto fosse a recomendação do profissional para a vacinação. Talvez, assim, atingíssemos mais ativamente a população”.

Argus aponta que o sucesso das vacinas deixou também as pessoas tranquilas com o tema. “O maior problema que se tem no Brasil é a desinformação. Com o controle que obtivemos de doenças infectocontagiosas nas últimas décadas, nós não víamos muitos casos de sarampo e poliomielite. Portanto, as vacinas estão sofrendo com o próprio sucesso. Elas praticamente eliminaram todas essas doenças do convívio da população em geral. Com isso, as pessoas e os profissionais baixaram a guarda”, explica.

Apesar de a OMS ter declarado o fim da doença no Brasil em 2016, Argus explica que o sarampo nunca foi erradicado. “A erradicação é a eliminação da doença sem ter a necessidade de continuar se adotando medidas preventivas. Por exemplo, se não precisássemos mais vacinar contra o sarampo, e ele não estivesse mais em circulação, ele estaria erradicado, como aconteceu com a varíola. Então, o sarampo no nosso meio foi eliminado, mas não erradicado. Ainda assim é preciso tomar a vacina para evitar que ele retorne. Mas, infelizmente, os casos de sarampo estão voltando com a imigração de venezuelanos no nosso país. Mas a imigração não é o único fator. Existem outras portas de entrada da doença. Mas o surto não ocorreria se a população tivesse sido devidamente vacinada”, diz.

Mundo

O sarampo não é um problema apenas no Brasil, como mostram dados alarmantes divulgados pela OMS. Os casos da doença quadruplicaram no mundo nos primeiros três meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Na África, o aumento foi de 700%, seguida pela Europa (300%), o Mediterrâneo Oriental (100%), as Américas (60%) e a região do Sudeste Asiático/Pacífico Ocidental (40%). Em 2016, a doença estava em queda.

"Até o momento, em 2019, 170 países relataram 112.163 casos de sarampo à OMS e, no ano passado, na mesma data, 28.124 casos de sarampo haviam sido registrados em 163 países, representando um aumento de quase 300% em escala global", disse a agência da ONU em comunicado, após afirmar que estes são números provisórios e ainda incompletos.

A OMS estima que menos de um em cada 10 casos são relatados. "O sarampo é uma das doenças mais contagiosas do mundo e para a qual não há tratamento curativo, mas pode ser prevenida com duas doses de uma vacina 'segura e eficaz'", segundo a OMS.

Ainda de acordo com a OMS, o número de casos atingiu países em que a cobertura vacinal era grande, como Estados Unidos, Israel, Tailândia e Tunísia.

Antivacinismo

A maior incidência da doença no mundo se deve também a movimentos antivacinas. Os chamados “anti-vax" se baseiam em uma publicação de 1998 da revista Lancet, importante periódico sobre saúde. O médico inglês Andrew Wakefiel associou o aumento do número de crianças autistas com a vacina tríplice viral, que protege contra o sarampo, rubéola e caxumba. O estudo foi suficiente para que os pais deixassem de levar os filhos para vacinar. Porém, anos depois, descobriu-se que o médico recebia pagamentos de advogados em processos por compensação de danos vacinais. Até mesmo a revista foi obrigada a se retratar sobre a publicação.

A falsa notícia deixou marcas importantes em movimentos antivacinas, que ainda se utilizam de pseudos resultados para se justificar e propagar inverdades sobre a imunização. 

Como exemplo, nos Estados Unidos, em 2005, o sarampo foi declarado erradicado. Porém, com o relaxamento da cobertura vacinal, em 2013, foram registrados 189 casos no país.

No Brasil, de acordo com Argus, o movimento antivacinas é incipiente, pois a população ainda aceita de forma amigável a vacinação. “Não acredito que seja o principal motivo pelo fato de baixas coberturas vacinais. O movimento antivacina está começando a ganhar algum corpo no nosso país, mas ele é muito mais forte fora daqui. Não acho que devemos imputar nesses movimentos todas as nossas falhas em se vacinar adequadamente a população. No nosso meio, o grande problema é desinformação. Tanto da população, que se descuida quanto dos profissionais que perdem o contato com a doença. ”

Argus complementa que a evidência científica é extremamente importante para se combater os “anti-vax”. “Quem trabalha com antivacinismo trabalha com dados sem evidências científicas. Hoje, tudo que vamos fazer é baseado em evidências. Por exemplo, se eu prescrever um medicamento que trata insuficiência cardíaca, se ele não tiver sido amplamente testado e comprovado o benefício, nem no mercado entra. O grande questionamento das pessoas que trabalham com o antivacinismo seria em relação à segurança desses produtos e efeitos colaterais. Nenhum produto é isento de efeitos colaterais. Mas com relação à vacina, os efeitos são menores. O benefício que esses produtos trazem em detrimento aos efeitos colaterais menores é incomparável”, reafirma.

O infectologista explica que a melhor maneira de se combater os movimentos antivacinas é com informação adequada e comprovada. “Talvez nosso grande papel é combater junto à população, que não tem uma opinião formada, é a de que a vacinação é necessária. Agora introjetar essas informações em quem trabalha com antivacinismo já é mais difícil, pois geralmente essas pessoas são mais radicais. E ciência precisa ser comprovada na literatura. E as vacinas que estão no mercado são seguras sim”, afirma.

Vacinas combinadas e conscientização

O movimento antivacinas critica o uso das vacinas combinadas. Para esse grupo, as vacinas provocariam uma sobrecarga no sistema imune, o que para Argus não faz o menor sentido. “O sistema imune é preparado para receber uma carga de antígenos infinitamente maior do que duas ou três ou quatro vacinas aplicadas em conjunto. O sistema imune é tão complexo que isso para ele não é nada. A gente é capaz de responder a milhares de agressões ou estímulos diferentes ao mesmo tempo", garante.

Argus acredita que as falhas na cobertura vacinal podem ser reduzidas com a informação, investimentos e conscientização “Em todo lugar há falhas. Não temos como dizer que nenhuma esfera (municipal, estadual e federal) não está falhando, sendo que as coberturas estão reduzindo. É difícil de identificar um ponto específico, mas acredito que deveria ter mais campanhas, maior conscientização e maior investimento em saúde pública”, conclui.


Redação Dom Total

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