Religião

04/06/2019 | domtotal.com

Estive preso e me enviastes uma carta

Se Cristo convida ao acolhimento dos encarcerados, a carta do papa à Lula na prisão não deve espantar os cristãos.

O Evangelho não pode ser esquecido e silenciado, ainda que vivamos em contextos polarizados e marcados pelo ódio.
O Evangelho não pode ser esquecido e silenciado, ainda que vivamos em contextos polarizados e marcados pelo ódio. (AFP)

Por Tânia da Silva Mayer*

Ao longo dos tempos, os cristãos e as cristãs correm sério perigo de se esquecerem dos fundamentos da própria fé. Esse esquecimento pode ser tão radical que a pessoa se esquece que esqueceu daquilo que um dia pôde a ter motivado e ter sido fonte de sentido. Obviamente, em contextos nos quais a fé cristã irrompeu como fruto de um processo cultural, nem toda experiência que passa pela afirmação de que se é uma pessoa crente é consequência de um discernimento pessoal e da decisão firme de se tornar um discípulo ou discípula do Mestre Jesus Cristo. Ainda hoje, o Evangelho continua sendo motivo de escândalo para muitas pessoas, ou porque se esqueceram dele ou porque não desejam conformar-se a ele.

A partir de uma leitura paulina, o Evangelho é compreendido como a “palavra da cruz”. Mas essa palavra que é publicada para todo o mundo não significa a morte ou o fim trágico de uma vida. Antes, a palavra da cruz é palavra de amor. Precisamente, é o amor que está se falando de braços abertos no madeiro da morte. E esse amor salva, pois confere uma vida nova e mais feliz, não só a Jesus, mas também a todas as pessoas que são amadas por ele. Nesse sentido, o Evangelho é o amor acontecendo e salvando, dando novas oportunidades ao descortinar um horizonte no qual abundam a misericórdia e o perdão. É graça superabundando o pecado.

Muitos de nós fomos catequizados a partir de um discurso do medo que focava na máxima culpa do pecado. Essa catequese recebida cultivava mais uma imagem de um Deus tirano que aquela face misericordiosa revelada por Jesus nos Evangelhos. Por isso, tivemos e ainda temos dificuldades de ouvir falar e de ver gestos de misericórdia e perdão. E posturas alinhadas ao Evangelho narrado por Jesus tendem a ser incompreendidas por nós até hoje. É culpa nossa? Não é. Mas, uma vez amadurecidos e podendo dar continuidade ao processo permanente da catequese, devemos ir aos poucos permitindo uma conversão do coração, que dá a oportunidade de experimentar o amor de Deus sabendo que desse amor nada e ninguém pode nos separar. Progredir em direção a esse amor nos faz muito bem e também aos outros encontrados pelo caminho.

Por essa razão, não deveriam alguns cristãos e cristãs se escandalizarem por causa da carta que o papa Francisco enviou ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, divulgada na semana passada. A carta é bastante profética e diz mais da afinidade de Francisco com o Evangelho de Jesus do que do próprio Lula. Ir ao encontro de quem está privado de liberdade é uma tarefa para quem quer assumir o discipulado: “Estive preso e viestes me ver” (Mt 25,36). Nesse caso específico, o papa Francisco veio até Lula respondendo a uma carta que o ex-presidente teria lhe enviado no início deste ano. Ele prestou-lhe assistência, convidando-o a perseverar na fé e a não “desanimar e continuar confiando em Deus”. As razões para resistir nesses tempos difíceis fundamentam a existência dos cristãos desde a cruz:

“A sua Páscoa, sua passagem da morte à vida, é também a nossa páscoa: graças a Ele, podemos passar da escuridão para a Luz; das escravidões deste mundo para a liberdade da Terra Prometida; do pecado que nos separa de Deus e dos irmãos para a amizade que nos une a Ele; da incredulidade e do desespero para a alegria serena e profunda de quem acredita que, no final, o bem vencerá o mal, a verdade vencerá a mentira e a Salvação vencerá a condenação”.

Como se pode ver, o anúncio da vitória de Jesus Cristo sobre a morte é o conteúdo central da carta. É por causa do amor vencedor do ódio e da vida plena e abundante que Jesus comunica da sua cruz que devemos, o ex-presidente e também nós cristãos, manter-nos firmes e decididos no caminho da fé. Por isso, o papa Francisco manifestou ainda sua solidariedade a Lula pelas perdas que passou: a morte da mulher, do irmão e do neto. Com isso, o pontífice mostrou que não há lugar ou circunstâncias que devam ser desassistidos de misericórdia e perdão.

Precisamente, o Evangelho não pode ser esquecido e silenciado, ainda que vivamos em contextos polarizados e marcados pelo ódio. Essa palavra de amor precisa reverberar nas realidades todas, inclusive naquelas impensáveis. Quantos cristãos comemoraram as mortes dos parentes de Lula? Francisco está dizendo mais uma vez que o Evangelho não se vende às ideologias, mas é acontecimento de solidariedade, de misericórdia e perdão a quem quer que seja. Aqueles que ignoram esse caráter originalmente evangélico já se esqueceram do fundamental da fé ou o estão ignorando por adesão às ideologias em detrimento da fé, e, nesse caso, já não mais poderiam ser chamados de cristãos. Escândalo é esquecer o Evangelho.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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