Religião

05/06/2019 | domtotal.com

Senhor dos Exércitos ou Pai de todos e todas?

A compreensão de Deus, como é apresentada no Antigo Testamento, deve ser iluminada pela Revelação que se dá em Jesus Cristo.

Ideia de um deus belicoso resiste entre cristãos.
Ideia de um deus belicoso resiste entre cristãos. (Thomas Tucker/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

Toda pessoa que se diz cristã se perguntada sobre qual o princípio que norteou a vida de Cristo dirá que se trata de amar uns aos outros e de pregar o amor para um mundo melhor. Embora esse seja o discurso oficial, não é difícil encontrarmos nos diversos cânticos de movimentos evangélicos e católicos a ideia de um Deus belicoso, chefe dos exércitos e que guerreia contra os inimigos de seu povo trazendo-lhe a vitória. Em outras palavras, há um discurso oficial de “amor a todos” ao mesmo tempo em que se serve ao Senhor dos Exércitos, que destrói todos os seus inimigos.

O fato mais curioso é que grande parte dessas pessoas não percebem a incoerência que os dois discursos trazem quando colocados na mesma frase. Dizer que o Senhor dos Exércitos, que destrói a todos quanto se mostrem seus inimigos, é o mesmo Pai de Jesus Cristo, que ensinou que devemos amá-los, faz algum sentido? Definitivamente, não. Ou se assume uma imagem de Deus enquanto senhor bélico e conflituoso ou se assume a imagem de Deus como Pai que faz seu sol nascer sobre justos e injustos, que ensina o dever de perdoar sempre e é definido por João como amor.

A escolha precisa ser feita, uma vez que a forma como vemos Deus determina a forma como nos relacionamos com as pessoas e com o próprio mundo. Se Deus é o senhor da guerra – como era visto pela comunidade judaica, que sempre vivia guerreando e entendia o conflito entre as nações como o embate entre seus deuses – então faz sentido pregar o ódio aos inimigos desse Deus e pregar a segregação. Faz sentido pregar o nós contra eles, o povo escolhido contra os povos que não seguem os mesmos princípios considerados divinos etc. Da mesma forma, se a visão de Deus que se tem é de um Deus bélico, a ação discriminatória com relação aos diversos grupos religiosos é uma consequência direta. Afinal, quem não segue os princípios do rei de toda terra deve, portanto, ser exterminado para que esta seja do Senhor dos Exércitos.

Se, contudo, assumimos a imagem de Deus trazida por Jesus e constantemente afirmada nos Evangelhos de que Deus é Pai e é amor, então todo discurso segregacionista perde o sentido, uma vez que o amor não discrimina. Nesse sentido, todo discurso belicoso também não encontra guarita, pois o amor não visa guerra nem ódio. Da mesma forma, os discursos de morte e o incentivo à matança se tornam totalmente despropositados, já que é inconcebível pensar como um amor que gera a vida pregaria em seu bojo a morte.

Diante disso, questionar-se a respeito de qual imagem de Deus se tem carregado e promulgado se torna tarefa extremamente necessária. Principalmente hoje,  quando o governo atual do Brasil se esconde atrás de um discurso chamado cristão enquanto prega um Deus bélico, que não é o anunciado pelo cristianismo. De maneira semelhante, esconde-se atrás de um moralismo suportado por falsos profetas enquanto destrói a soberania nacional e entrega os pertences da nação ao capital estrangeiro, estrangulando os mais pobres. Em outras palavras, alia a imagem do Senhor dos Exércitos com a idolatria ao deus Mercado que deve ser saciado à custa da vida dos desfavorecidos e marginalizados.

O Deus revelado por Jesus Cristo, porém, não é esse. Antes, é aquele que se coloca do lado dos pobres, marginalizados e oprimidos a fim de que possam ter vida e ter seus direitos garantidos, exigindo de nós, que nos dizemos cristãos, que sigamos seus passos e nos posicionemos e lutemos em favor dos que sofrem.

O Pai que ama e requer que amemos segue na contramão do deus Mercado que prega o individualismo e o acúmulo de capitais para usufruto de uma parcela pequena da população. No lugar, propõe que aquele que colhe muito reparta com que colhe pouco para que haja justiça e igualdade entre todos e todas, uma vez que todos são dignos de humanidade.

Falar de amor, ser cristão e anúncio de um Deus que é Pai e ao mesmo tempo agir de forma belicosa, fomentando a morte da natureza, de pobres, sem-terras, indígenas, negros e negras carregando o discurso do senhor dos exércitos é hipocrisia e prova de que, na verdade, nunca houve um encontro com o Ressuscitado que, por sinal, é o mesmo bandido que foi crucificado pelo império de seu tempo, a pedido dos líderes religiosos daquela época.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

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