Religião

07/06/2019 | domtotal.com

Quando regar o jardim de casa faz florescer o mundo inteiro

Se nossas atitudes individuais não forem da mesma grandeza que esperamos das de nossos líderes, todos perdem.

Já parou para revisar quantos 'trecos' habitam nossas casas que simplesmente ocupam espaço ou que nem nos damos conta que temos?
Já parou para revisar quantos 'trecos' habitam nossas casas que simplesmente ocupam espaço ou que nem nos damos conta que temos? (Reprodução/ Pixabay)

Por Otávio Juliano de Almeida*

Dias 24 de maio e 18 de junho devem ser lembradas por nós, cristãos, com saudável orgulho. Papa Francisco assina em uma data e publica-se na outra a Encíclica Louvado sejas (Laudato si) sobre a ecologia e sobre o ser humano que faz parte dela.

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No seu conceito chave de “ecologia integral’ (capítulo 4) encontramos, com profunda qualidade argumentativa, a implicação mútua entre o cuidado com a natureza e o cuidado com o ser humano. Ou seja: o escrito magisterial desenlaça um nó ainda em vigor – em tempos de tristes polarizações – no qual antropocentrismo e biocentrismo disputavam atenções e prioridades de políticos, acadêmicos, cientistas e mídia.

Sendo assim, percebemos que as nossas ações individuais, como coleta de lixo seletivo, uso moderado e responsável da água, manutenção de nascentes, evitar queimadas urbanas ou rurais desnecessárias, dentre tantas outras atitudes cotidianas e simples, podem fazer uma enorme diferença. Ainda no campo individual, mesmo que direcionada a uma minoria que consome – e consome mal – existe um saudável e apropriado questionamento com relação ao porquê do consumismo desenfreado de produtos que não fazem a menor diferença na qualidade da saúde e da vida de uma pessoa comum: já parou para revisar quantos ‘trecos’ habitam nossas casas que simplesmente ocupam espaço ou que nem nos damos conta que temos?

A partir destas questões descortina-se a perversa lógica industrial capitalista que, preenchendo de futilidades uma parcela dos indivíduos consumidores, poluindo o ambiente com tanto plástico e outros materiais de difícil processo de descarte, esquece outra parcela maior que não consegue consumir o suficiente para si e ter vida digna.

Esta mesma pobreza empurra muitas comunidades e grupos para uma depredação do meio ambiente deplorável. Soma-se a falta de instrução adequada com a indiferença política de tantos responsáveis, para lamentarmos destruição de nascentes, margens de rios, ocupação indiscriminada do solo urbano, enfim, a pobreza que vinga nas nossas cidades e entristece o povo do campo.

Logo, pobreza estrutural, lógica capitalista de consumismo desenfreado, opções políticas desastrosas e omissão coletiva tornam-se a receita perfeita para o caos ambiental e as suas já conhecidas consequências no clima e na saúde de todos.

O que fazer diante deste círculo vicioso? Nossa postura mais comum é a omissão. Apenas uma minoria pôde compreender que a ética, entendida na acepção aristotélica e trazida a nós de modo brilhante por Lima Vaz, é um olhar sobre o cuidado com a nossa morada. E esta tem duas dimensões, a interior, que nos molda a capacidade de pensar para todos, e a exterior, que harmoniza a convivência fraterna e possibilita a sobrevivência com qualidade e dignidade.

Ética não é a dos outros. É de todos. Não é para mim, mas comigo em direção ao mundo. Ela modera instintos e desejos porque anseia em construir o futuro. Ela questiona o comportamento, portanto escreve e inscreve os costumes (mos, mores, moral) para que o ser humano pense em si e para si com o olhar carregado de esperanças em um horizonte muito mais audacioso do que o seu jardim.

Nós, seres humanos, somos todos terra que virou carne. Por isso ouvimos que ‘um dia voltaremos para ela’. Não é exagero dizer que quando recordo e com carinho rego o meu jardim, planto e colho flores por todo o planeta! Também quando manifesto publicamente que gases de efeito estufa e pecuária extensiva desmatadora matam o planeta estou fazendo ética.

As imagens da jovem sueca Greta Thunberg de greve diante de sua escola todas as sextas-feiras foi capaz de mobilizar outros adolescentes pela Europa e já contagiou o mundo. Apenas lamento que em nosso país com tanta riqueza de biodiversidade não se apresentem tantas outras ativistas mirins para denunciarem nossas mazelas. Ah, claro! Dirão que não podemos "matar" aula... dirão muitas outras coisas. Mas também já ouvi dizer: “Se se calarem, as pedras gritarão”!

Mas o que diremos todos quando não houver mais volta? Nas inúmeras leituras de minha pesquisa sobre as relações entre bioética e a ecologia, fui tomado de assombro pela perspectiva concreta de mudança do regime de chuvas do Sudeste brasileiro pelo desmatamento da Amazônia. Isso sem contar outros tantos exemplos assustadores, cientificamente comprovados, permanentemente revistos e calculados. Mas do susto e da surpresa, começo a ter medo ao perceber uma avalanche de ideias desprovidas de senso crítico e de embasamento científico tentando desandar tais pesquisas.

Realmente é muito difícil, de dentro de nossos confortáveis espaços climatizados e diante de tanta sedução de bens, produtos e serviços, pensar que o ritmo deste modelo é insustentável para os próximos anos. Francisco não teve medo de "apocaliptizar", revelar a todos esta face franca e dura. A cada um cabe ao menos iniciar, em chave de interioridade mística, espiritual o caminho da volta. Volta para a simplicidade das casas de nossos avós, para o fim da nefasta obsolescência programada de móveis, eletrodomésticos, automóveis e enfim, tudo o quanto possa ser possível fazer para um mundo mais sóbrio, digno, menos plastificado e mais biodegradável. Mais hortas, mais jardins, mais caminhadas ao ar livre, mais jogos, lazer, beijos e abraços. Mais Vida e vida em abundância!

*Otávio Juliano de Almeida é presbítero da Arquidiocese de BH, doutorando em Bioética, pároco e professor de Ética Teológica na PUC MINAS.

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