Cultura TV

04/06/2019 | domtotal.com

O melhor do humor britânico

Bolsonaro e seus filhos (uma verdadeira milícia familiar) bem poderiam ser personagens sentados no banco da praça do clã dos Nóbrega.

Nessa hora dá uma inveja danada dos ingleses...
Nessa hora dá uma inveja danada dos ingleses... (Divulgação/BBC)

Por Alexis Parrot*

A recente homenagem concedida a Carlos Alberto de Nóbrega pela Câmara Federal, com direito a aparição surpresa do próprio presidente na solenidade, não poderia ser mais apropriada. Ao mesmo tempo em que o reconhecimento é merecido, trata-se também de um trágico sinal dos tempos.

Além de ser a atração de humor popular mais longeva em exibição da TV brasileira, A praça é nossa talvez seja o programa que melhor represente a desmoralização institucional que o país vive. Bolsonaro e seus filhos (uma verdadeira milícia familiar) bem poderiam ser personagens sentados no banco da praça do clã dos Nóbrega, conversando sobre golden shower e rachadinhas com a velha surda.

Nessa hora dá uma inveja danada dos ingleses...

Donos de um humor ferino e sofisticado, os súditos da rainha Elizabeth dificilmente abririam espaço em sua televisão para o humor preconceituoso, sexista e cheio de duplos sentidos que tanto sucesso faz por aqui na terra do real.

Corroborando a tese, o britânico Steve Coogan definiu o que almeja com seu trabalho na seguinte frase: "Usar a comédia para fazer pensar e não apenas para provocar risos. Rir é bom, mas se for possível, rir e pensar ao mesmo tempo é melhor".

Coogan é o protagonista do hilário filme Perdendo a noção (Andrew Fleming, 2008), o diretor do filme de guerra que Ben Stiller, Jack Black e Robert Downey Jr. estão rodando em Trovão tropical (Ben Stiller, 2008) e a mente criativa por trás do delicado Philomena (Stephen Frears, 2013). Neste último, além de ser o responsável pelo roteiro, interpreta o jornalista que promove e acompanha a peregrinação da personagem de Judi Dench em busca do filho perdido.

Estrelou também os filmes Trip to Italy e Trip to Spain, baseados na série televisiva The trip. Tanto na TV quanto no cinema, faz-se acompanhar do comediante Rob Brydon. Com o trabalho, revitalizaram a tradição das duplas de humor da TV britânica e não devem nada a nomes como French e Saunders; Fry e Laurie; Morecamb e Wise; e Mitchell e Webb, para ficar em apenas alguns exemplos.

De tão simples (uma dupla que viaja, come em bons restaurantes e conversa – nada mais), o conceito do programa parece ser uma roubada, mas é uma delícia; justamente pela despretensão. As imitações de celebridades que os companheiros fazem durante as viagens já são parte obrigatória de qualquer antologia da comédia contemporânea que se preze.   

Em 2018, ao lado de John C. Reilly, ressuscitou o gordo e o magro, atuando com precisão cirúrgica no pungente retrato que fez de Stan Laurel, em Stan & Ollie (direção de Jon S. Baird). 

Mas antes de tudo isso, havia Alan Partridge, seu personagem mais emblemático, cujas desventuras e trapalhadas fazem parte da vida do telespectador inglês desde o começo dos anos 1990.

Criado inicialmente para ser um repórter esportivo no programa humorístico de rádio do amigo Armando Ianucci (o criador da série Veep e diretor da pequena joia chamada A morte de Lenin), Partridge foi moldado pelos dois e logo ganhou programa próprio na BBC, Knowing me, knowing you – uma citação à canção do Abba usada como música tema da abertura.

A atração era um talk show fake, em que o vaidoso e limitado jornalista destratava e constrangia seus convidados; sempre que possível, repetindo com prazer um dos mais ridículos bordões já criados: A-Há! A paródia durou duas temporadas e o sucesso foi tanto que, em 1997, os mesmos Coogan e Ianucci produziram uma sitcom com o personagem, mostrando seu cotidiano como disc-jóquei de rádio em uma cidadezinha do interior, após ter sido sumariamente demitido da televisão.

Em 2010, o personagem retorna para uma websérie e acaba ganhando as telonas com o filme Alpha Papa, três anos depois. Mesmo com esta notável trajetória, por incrível que pareça, Alan Partridge continua inédito na TV brasileira. Volta e meia retorno a este assunto; o descaso (ou incompetência) das emissoras de televisão do país no que diz respeito à compra de programação estrangeira para exibição. Mesmo com o advento do streaming, continuamos perdendo muito do melhor que se faz mundo afora.

Há agora uma chance de redenção. Há alguns meses, a BBC trouxe o personagem de volta para uma nova série, This time with Alan Partridge. Arrisco dizer que é a melhor entre todas já produzidas da franquia e merece ser exibida por aqui.

Dessa vez, Partridge tem uma segunda chance na TV quando é escalado para substituir o apresentador de uma revista eletrônica no horário nobre. Cada um dos seis episódios da temporada é a íntegra de uma edição desse This time, a exemplo do talk show do início da carreira, um programa fictício transmitido ao vivo.

Assistimos também a tudo que acontece no estúdio nos intervalos da atração ou enquanto um vídeo está sendo exibido. Nestes momentos, vêm à tona rusgas entre a equipe; apresentadores que sorriem no ar, imediatamente viram a cara um para o outro assim que recebem o aviso de "corta". É um programa de televisão feito com o que vemos, mas principalmente com aquilo que não passa na televisão. Os tempos mortos são o que alinhava e dá sentido ao que vai ao ar.

Toda a crítica que falta, por exemplo, a uma A praça é nossa, é a matéria prima que alimenta a série. Tudo que diz respeito ao mundo contemporâneo torna-se alvo do olhar irônico do programa, a começar pela própria televisão. Com inteligência e anarquia, This time with Alan Partridge promove uma muito bem-vinda desmistificação da mídia e de jornalistas e repórteres que são vistos como celebridades.   

É televisão feita por gente que entende mesmo de televisão e sabe tirar humor daquilo que faz parte do dia a dia da profissão, ainda mais quando é feita ao vivo. Uma tela interativa que nunca funciona; as participações do público pelo telefone que fogem do controle; mudanças de roteiro de última hora, o delay do sinal das entradas ao vivo de repórteres que estão na rua; o estilo dramático dos jornalistas da TV inglesa – com a locução ritmada de forma monocórdia (todas parecem ser da mesma pessoa) e passagens criativas (ou que, pelo menos, desejam ser criativas). Tudo isso é desconstruído com fleuma e talento.

Alan Partridge retorna (quase 30 anos após sua primeira aparição) como um personagem composto nos mínimos detalhes, cheio de subtextos e totalmente maduro – inclusive em todas as suas inadequações, machismo, hipocrisia e autoestima inabalável. Um parvo que se ama demais – talvez seja esta sua melhor definição.

Em um dos episódios, um movimento propõe doações para a construção de um monumento para os cães a serviço da polícia. Simon, o fiel escudeiro de Partridge, lê ao vivo um tuíte enviado para o programa, comentando o assunto: "Por que tem gente feliz em atirar dinheiro para alguns cachorros policiais, mas ninguém disposto a doar para uma causa como as crianças refugiadas?"

Do alto de toda a sua insensibilidade, o apresentador responde rapidamente: "Não sei". E, sem desarmar o sorriso do rosto, passa direto para um próximo assunto. Ele é o homem errado na hora errada e daí vem toda a sua graça. Mas, definitivamente, é alguém do nosso tempo – tendo que lidar, mesmo sem nenhuma habilidade para tanto, com as questões que são do nosso tempo (como assédio, corrupção, hack-ativismo e igualdade de gênero, entre outras).

A maneira como o personagem comete atos falhos, justo por querer mostrar demasiadamente que está atento e alinhado a este tipo de agenda, é coisa da gente rolar no chão de tanto rir. É uma das críticas mais bem pensadas e executadas a este tipo de sujeito que todos nós conhecemos; uma espécie de dinossauro em pele de cordeiro.   

Enquanto no Brasil os mitos vão desmoronando (Bolsonaro elogia publicamente o MC que se suicidou após espancar a amante grávida e Neymar acusado de agressão e estupro), na Inglaterra, Alan Partridge ressurge – mais hipócrita do que nunca; e por isso, a figura ideal para ridicularizar todo tipo de hipocrisia.

(This time with Alan Partridge – produção da BBC, sem previsão de exibição no Brasil)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas