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10/06/2019 | domtotal.com

Amamentados com fel

A estupidez e a ignorância ricocheteando e triunfando sob um silêncio que, às vezes, parece quase complacente por parte de pessoas que não concordam com nada disso, mas se mantêm passivas.

E quanto ao capitão, sabe o que mais me entristece nisso tudo? Foi colocado ali por uma eleição.
E quanto ao capitão, sabe o que mais me entristece nisso tudo? Foi colocado ali por uma eleição. (Valter Campanato/Agência Brasil)

Por Ricardo Soares*

Outro dia acordei mais cedo que de costume com chuva, um friozinho quase extemporâneo e ausência de luz aqui em casa. Quase do lado de minha cama há um grande janelão de vidro, de onde posso ver meus três belos e ativos vira-latas pretos (um menino e duas meninas), que se acocoram uns sobre os outros quando esfria para estarem mais próximos do dono agasalhado do outro lado do vidro.

Apesar do tal friozinho, a temperatura era "amena e salubre" como se dizia antigamente e, preguiçoso, sem luz, não pude ler e daí comecei a fuçar no celular graças ao maldito 4G, que nos socorre (e martiriza) quando a luz acaba e nada mais resta a fazer. Assim, o que deveria ter sido distração, virou desalento. Ao passar os olhos nas notícias do dia me vi com vontade de permanecer imóvel onde estava. Retrocessos por todos os lados seguem num tiroteio implacável que nos atinge por todos os lados.

A estupidez e a ignorância ricocheteando e triunfando sob um silêncio que, às vezes, parece quase complacente por parte de pessoas que não concordam com nada disso, mas se mantêm passivas. Eu mesmo me sinto muitas vezes um covarde acomodado diante de tanta desfaçatez, que vai de uma ministra ordinária e lesada que vê sexo até na nata do leite, um deseducado e sem graça ministro da Educação que mal sabe falar português, um ministro do Meio Ambiente que faz mapa para ajudar mineradoras, um ministro das Relações Exteriores que mal articula, um ministro do Turismo notadamente corrupto, um ministro da Justiça com voz de marreco e procedimentos de "reco" do Exército. Aquele que se borra sob as ordens do capitão.

E quanto ao capitão, sabe o que mais me entristece nisso tudo? Foi colocado ali por uma eleição. Não foi imposto, não deu golpe, embora o marreco supracitado tenha lhe dado a vitória de bandeja quando encarcerou o principal concorrente. E esse a quem alguns chamam de presidente foi votado (ainda que não pela maioria) e levou. Fato é que vamos ter que conviver com absurdos diários por pelo menos mais três anos e meio se o sujeito ficar de pé até lá. Mas o que mais me entristece não é isso na verdade. 

O que me estarrece, me espanta e me dá vontade de ficar na cama no dia de chuva é ver o discurso – sobretudo nas redes sociais, porque pessoalmente mal articulam frases – dos filhos do capitão. Uma malta de descerebrados forjados pelo discurso de ódio do pai. Cretinos individualistas, homofóbicos, radicais, cultores de armas e porradas, sem menor empatia com causas sociais e com fraternidade. Fico aqui me perguntando que mãe criou esses meninos. 

Foram amamentados com fel e sangue? Do pai, completamente boçal e raso, já intuímos aquilo que receberam. Mas e a mãe dos "garotos"? E o meio que os pariu e lançou ao mundo? Primos, amigos, escolas? Não há um único twitter, uma única postagem, uma única palavra desses "garotos" que reverbera paz, amor, conciliação, apaziguamento de espíritos. E vamos ter que aguentar isso por sabe-se lá quanto tempo. Um discurso de "Deus, pátria e família" eivado de rancor e vingança. E ainda escorados pelos satélites em volta como aquela Joice, aquela Chester Mulher, só peito, papo e pompa, deputada eleita, que se diz jornalista, mas é conhecida mesmo como notória plagiadora que, de tão oportunista, exorcizou seu gabinete que foi um dia do deputado Lula. 

Lugar comum dizer que vivemos um pesadelo coletivo, uma montanha russa de emoções caricatas rodeadas de gente do mal  para quem os únicos culpados de tudo – da morte de Odete Roitman à derrota de 7 a 1 para a Alemanha – é culpa do PT. Gente que celebra a própria ignorância, a estupidez, o raso de lama tóxica em que vivem. Não sei onde tudo isso vai dar. Mas urge levantarmos de nossas camas nesse país de dias escuros e chuvosos mesmo que o sol esteja a pino. Urge levantarmos o estandarte da igualdade, fraternidade, liberdade, os três temas da Revolução Francesa. Urge ou então seremos nós os decapitados por aqueles que foram amamentados com fel e ignorância.

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

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