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05/06/2019 | domtotal.com

Lamento de uma sibipiruna

Restam-me poucas horas de vida, percebo.

À medida que crescia, avistava os quintais das casas, modestas ou opulentas, mas onde havia vida intensa.
À medida que crescia, avistava os quintais das casas, modestas ou opulentas, mas onde havia vida intensa. (Divulgação)

Pablo Pires Fernandes*

Há meses observo e ouço as máquinas ao meu redor e, já há algum tempo, percebi que seria assassinada. Não era possível evitar o crime. Por isso, decidi me expressar e deixar um depoimento, um singelo testemunho de quem assistiu aos últimos 50 anos de transformação de Belo Horizonte. Tenho esperança que algum jovem se interesse ou, talvez, alguém no futuro.

Nasci, ou melhor, fui plantada em 1970. Sou uma sibipiruna da família Caesalpinia, gênero pluviosa. O primeiro nome é de origem tupi e o segundo, latino, referência ao meu gosto pela chuva. Minhas raízes estão firmes – ainda – aqui na Rua do Ouro. Minha copa é frondosa e tenho mais de 20 metros de altura. Daqui, presenciei mudanças incríveis e alguns segredos que nem ouso revelar. Mas quero contar sobre o que assisti nesses mais de 40 anos de vida.

Quando adquiri certa altura e podia avistar a rua desde a Avenida do Contorno até um pouco além da Rua Monte Alegre, passava os dias e noites reparando nas pessoas, pois sempre admirei o ser humano e suas contradições. A maioria dos circulavam ali era funcionários públicos e gente da favela que ocuparia, mais tarde, todos os lados de um flanco da Serra do Curral.

À medida que crescia, avistava os quintais das casas, modestas ou opulentas, mas onde havia vida intensa – meninos e meninas corriam e trepavam nas mangueiras e jabuticabeiras, pulavam os muros baixos e confesso que torci muito para certos times ou jogadores de futebol, com canelas e joelhos pueris ralados e as traves indicadas com pedregulhos no meio da rua. Vi muitos casais namorando nas sombras e muitos bêbados já fizeram xixi no meu tronco.

Ainda na minha infância, fui avistando a mudança na paisagem. Primeiro, via e sentia o cheiro da morte de minhas irmãs, depois vinha a poeira e, em alguns meses, surgia um edifício. Quando tinha uns 10 anos, essa estranha prática passou a se tornar recorrente. Janelas se multiplicavam e a brisa da montanha chegava aqui repleta de novos odores.

Agora, dezenas de prédios escondem os poucos quintais que restam nas redondezas e a linha da Serra do Curral se tornou interrompida por arranha-céus de gosto duvidoso. Agora, a morte me ronda. Nos últimos meses, assisti, perplexa à demolição de sete casas. Uma após a outra, foram todas vítimas dessa senha destrutiva do homem. As velhas paredes tombaram e surgiram imensas crateras de terra vermelha, revirando as raízes de minhas irmãs.

Restam-me poucas horas de vida, percebo. Dizem que será construído um grande supermercado aqui, que será bom para o bairro e para os moradores. Terão pães e carne, gastarão seu dinheiro. Não terão, no entanto, a minha sombra fresca. Não sei se percebem a diferença, a importância da vida de uma árvore. Eu me importo com as pessoas, mas nem sei se faz diferença agora que deixo minhas últimas palavras.

As máquinas me cercam, o corte é iminente e já ouço o ronco da serra.

Adeus.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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