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08/06/2019 | domtotal.com

Fato, ficção e reconstrução da linguagem

Maria Valéria Razende faz defesa das vozes femininas apagadas pela história ao fundir fato e ficção no romance 'Carta à rainha louca'.

Premiada com o Jabuti e o Casa de Las Américas, Maria Valéria Rezende dedicou muitos anos à educação popular.
Premiada com o Jabuti e o Casa de Las Américas, Maria Valéria Rezende dedicou muitos anos à educação popular. (Adriano Franco/Divulgação)

Por Jacques Fux*

Sabemos que as fronteiras entre ficção e realidade nunca são nítidas e explícitas. Além disso, um bom escritor-ficcionista, que não queira necessariamente “inventar” uma história inteiramente do zero (projeto borgeano impossível), pode – e deve – fazer uso de dados/fatos históricos para engrandecer e romancear a sua obra literária. Esse é o caso de Maria Valéria Rezende – escritora consagrada com os prêmios São Paulo, Jabuti e Casa de Las Américas. Nascida em Santos, entrou para a Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho em 1965, tendo se dedicado à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e depois em Pernambuco, Paraíba e João Pessoa. Sua história de vida, sua formação pessoal e acadêmica – graduou-se em Língua e Literatura Francesa, Pedagogia e fez um mestrado em Sociologia – contribuiu especialmente para a escrita dessa Carta à rainha louca.

O termo faction, que seria a junção dos termos fact e fiction (fato e ficção), foi cunhado por Antony Beevor na Revista Débat em 2011. A ideia seria discutir e polemizar a questão do fato, relacionado à história, e da ficção, relacionada a qualquer tipo de representação dessa ‘verdade’ histórica. Segundo o pesquisador, existem inúmeros problemas quando a representação, por meio da literatura, reclama ser baseada em fatos reais mas exagera na ficção: “Acredito que a faction seria apenas um problema quando personagens históricos reais são introduzidos e palavras são colocadas em suas bocas. (...) A fronteira entre fato e ficção é uma área de imenso potencial comercial e de não menos grande potencial de corrupção, em termos históricos. Recentemente, testemunhamos um aumento acentuado no que chamarei de “faction insidiosa” tanto em documentários quanto em ficção. Uma razão é que entramos em um mundo pós-alfabetizado, onde a imagem em movimento é rainha”.

A crítica perpetrada por Beevor, que deve ser considerada, por exemplo, em casos de abusos e falta de seriedade com temas relacionados ao Holocausto, não se enquadra ao texto de Maria Valéria Rezende. Com o devido rigor, e a partir de uma reconstrução linguística e histórica meticulosa, a escritora inicia seu livro em Olinda, no ano de 1789, quando a personagem Isabel das Santas Virgens, presa no Convento do Recolhimento da Conceição, escreve uma apimentada carta à rainha Maria I, conhecida como a Rainha Louca. A autora revela, em entrevistas, que na década de 1980, ao passar por Lisboa, decidiu investigar os arquivos ultramarinos e encontrou uma história/fato que merecia ser contada/ficcionalizada. Uma senhora mantinha uma casa para acolher mulheres desgarradas – aquelas discriminadas senhoras que não serviam “nem” para o casamento, já que não tinham condições para um dote. Como não havia lugar para elas nesse sistema machista e preconceituoso, eram deixadas à margem dos olhos e esquecidas pela sociedade.

Nessas intrigantes cartas, a “louca-narradora” conta para a outra “louca-Rainha” o lá que acontecia. Sem papas na língua – e essas são as melhores partes do livro: Isabel decide “apagar” (mas nos presenteia com essas frases apenas rasuradas) alguns trechos da própria carta por ter desvelado e escancarado as críticas e o olhar certeiro e preciso sobre o violento machismo e a depreciação da mulher. O texto ainda coloca, como pano de fundo, as questões acerca da colonização brasileira, nos transportando para um passado velado e obliterado.

Acusar uma mulher de louca e histérica sempre foi (e ainda é) um subterfugio masculino para perpetuar seu poder fálico, frágil e fraco. A narradora nos mostra muito bem – e de forma irônica e sarcástica – essa situação. A “louca” é a única capaz de compreender o contexto de forma global – expondo o seu próprio banimento, e também o da mulher, com um olhar criterioso, profundo, sensível e delicado. Lúcida, arguta e engenhosa, a narradora-autora nos apresenta – fato e/ou ficção – as lacunas para a reconstrução da história. Lacunas essas, preenchidas pelas narrativas das vencidas e submergidas – personagens cruciais que os homens fizeram questão de abolir.

CARTA À RAINHA LOUCA 

De Maria Valéria Rezende

Editora Alfaguara

144 páginas

R$ 49,90 e R$ 34,90 (e-book)

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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