Religião

06/06/2019 | domtotal.com

Ecumenismo: procurarás a justiça, nada além da justiça (Dt 16,11-20)

A luta por justiça e a vivência da caridade em espírito de comunhão caracteriza o ecumenismo.

O papa Francisco e o patriarca ecumênico de Constantinopla Bartolomeu I se abraçam em Istambul em 2014.
O papa Francisco e o patriarca ecumênico de Constantinopla Bartolomeu I se abraçam em Istambul em 2014. (Tony Gentile/ Reuters)

Por Élio Gasda*

Estamos em plena Semana de Oração pela Unidade Cristã, promovida mundialmente pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e pelo Conselho Mundial de Igrejas. “Procurarás a justiça, nada além da justiça” (Dt 16,11-20) é o tema de reflexão de 2019, preparado por cristãos da Indonésia.

Os cristãos da Indonésia, país com 265 milhões de pessoas, 86% de muçulmanos e apenas 10% de cristãos, têm motivação de sobra para lutar pela justiça. A Indonésia é a maior nação do Sudeste da Ásia. Têm mais de 17 mil ilhas, 1.340 diferentes grupos étnicos e mais de 740 línguas locais, mas ainda assim está unida na sua pluralidade pela língua nacional bahasa indonésia. A nação se baseia em cinco princípios chamados pancasila, com o lema Bhineka tunggal ika (unidade na diversidade). 

No meio da diversidade de etnias, linguagem e religião, os indonésios têm vivido pelo princípio de gotong royong, que é viver em solidariedade e com colaboração. Isso significa viver a partilha nas diversas esferas da vida, no trabalho, nas tristezas e festividades, vendo todos os indonésios como irmãos e irmãs. Uma harmonia ameaçada pelo crescimento econômico que incentiva a competição. Corrupção na economia e na política enfraquece a Justiça e as leis e coloca em risco o meio ambiente.

No Brasil também a questão ambiental é lembrada. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs de Minas Gerais (Conic-MG), responsável pela preparação da Semana Ecumênica ressalta em carta o rompimento da barragem de rejeitos do Córrego do Feijão, em Brumadinho, provocado “pelos interesses econômicos de grupos financeiros que têm na mineração a sua geração de riquezas”. Queremos orar para que a justiça da graça de Deus subverta a justiça humana que nem sempre assegura a reparação às pessoas afetadas pela ação de grandes corporações. Que as vidas, interrompidas pela destruição ambiental provocada pelo rompimento desta barragem, sejam colocadas acima das perdas financeiras das empresas mineradoras”, afirmam os representantes. A dor de quem perdeu amigos e ou familiares na Barragem do Córrego do Feijão independe de se ter ou não uma tradição religiosa, seja ela qual for.

Nas orações, não só desta semana, também serão lembradas as famílias afetadas pela mineração, as pessoas que dependem do Rio Doce, do Rio Paraopeba e do Rio São Francisco para sobreviverem. Rios que agonizam com os impactos da exploração. Nas orações estão ainda os povos indígenas e as famílias camponesas que perderam suas produções e suas terras no impacto causado pela ganância das mineradoras.

A interminável luta dos brasileiros pela justiça. Uma justiça que, de acordo com os representantes das igrejas-membro (Luterana, Anglicana do Brasil, Presbiteriana, Ortodoxa de Antoquia, Aliança de Batistas do Brasil e Católica) do Conic “nos desafia a olharmos para a complexidade dos problemas da humanidade, a revermos as relações de poder e a compreender que os interesses individuais ou de grupos econômicos não podem ser colocados acima dos seres humanos, da integridade da Criação e do bem-estar da humanidade”.

Esse é o ecumenismo propagado por Francisco, que sempre se utiliza da palavra "juntos", para anunciar o Evangelho, o amor, a paz e a justiça: podemos “caminhar e agir juntos para dar testemunho do Senhor, servindo, de modo particular, aos irmãos mais pobres e mais esquecidos, entre os quais Ele se faz presente”. É “o ecumenismo do pobre”. Podemos testemunhar o Evangelho junto àqueles que sofrem, independentemente dos diálogos de cúpula e das diferenças teológicas.

O ecumenismo não é chegar ao fim do jogo das discussões. Não é esperar que os teólogos alcancem um acordo em torno da Eucaristia comum. O ecumenismo se faz com as obras de caridade e querendo-se bem. “Isso se faz caminhando, andando juntos, rezando juntos. Trabalhando juntos para ajudar os pobres, os doentes, os enfermos como lemos no capítulo 25 de Mateus”. Podemos caminhar juntos: unidade, fraternidade, mão estendida, esclareceu Francisco durante voo de retorno da Romênia. 

Ecumenismo não é apenas um movimento favorável à união de todas as igrejas cristãs. É a “fraternidade humana pela paz mundial e a convivência comum” como diz o documento histórico assinado pelo papa Francisco e o grão-imame de Al-Azhar, Ahmad al-Tayyib, no início do ano durante sua viagem histórica aos Emirados Árabes: “Pedimos a nós mesmos e aos líderes do mundo, aos artífices da política internacional e da economia mundial, para que se empenhem seriamente em difundir a cultura da tolerância, da convivência e da paz, para que intervenham, o quanto antes, para deter o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que vive o mundo de hoje”. Que “as religiões não incitam nunca a guerra, não despertem sentimentos de ódio, hostilidade, e extremismo, e nem incentivem a violência ou ao derramamento de sangue”. Continua o documento: “Deus, Onipotente, não precisa ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas”.

Fé e injustiça são incompatíveis. Nenhuma forma de exploração pode ser justificada em nome do cristianismo. É usar o nome de Deus em vão. Toda violência e discriminação mascarada pela religião devem ser condenadas. “Procurarás a justiça, nada além da justiça” (Dt 16,11-20).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016).

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