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06/06/2019 | domtotal.com

Jovem e negro: esse é o perfil da principal vítima do recorde de homicídios no Brasil

Atlas da Violência aponta que 65.602 pessoas foram assassinadas em 2017. Situação pode se agravar com flexibilização do controle de armas.

Ato contra o genocídio da juventude negra pelas ruas de Madureira contra a morte de cinco jovens em 2015
Ato contra o genocídio da juventude negra pelas ruas de Madureira contra a morte de cinco jovens em 2015 Foto (Tomaz Silva/Agência Brasil)
O Brasil registrou em 2017 um recorde de assassinatos, que teve como principais vítimas jovens negros e que pode se agravar com a flexibilização do controle de armas decretada pelo governo de Jair Bolsonaro
O Brasil registrou em 2017 um recorde de assassinatos, que teve como principais vítimas jovens negros e que pode se agravar com a flexibilização do controle de armas decretada pelo governo de Jair Bolsonaro Foto (AFP/Arquivos)

O Brasil registrou em 2017 um recorde de assassinatos, que teve como principais vítimas jovens negros e que pode se agravar com a flexibilização do controle de armas decretada pelo governo de Jair Bolsonaro, revela um relatório publicado nesta quarta-feira.

No total, 65.602 pessoas foram assassinadas em 2017, média de 31,6 homicídios por cada 100 mil habitantes, segundo o "Atlas da violência" realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), baseado em dados do Ministério da Saúde.

O aumento do número anual de assassinatos foi de 36,1% a partir de 2007 e de 4,9% entre 2016 e 2017.

O risco de ser jovem e negro

"Homem jovem, solteiro, negro, com até sete anos de estudo e que esteja na rua nos meses mais quentes do ano entre 18h e 22h". Este é o perfil dos indivíduos com mais probabilidade de morte violenta intencional no Brasil, segundo o IPEA.

O Instituto destaca que 59,1% das mortes de jovens com entre 15 e 19 anos é provocada por assassinatos.

"Estamos matando a nossa juventude", alertou o coordenador do relatório, Daniel Cerqueira.

De 2007 a 2017, a taxa de negros vítimas de homicídios cresceu 33,1%, contra 3,3% entre os brancos. Dos 65.620 assassinatos registrados em 2017, 75% correspondiam a negros ou pardos.

"Um dos grandes elementos que acho que caracteriza a sociedade brasileira é o racismo. A gente não pode negar isso. Somos um país que convive há mais de 350 anos com a escravidão negra e a gente vai olhar os reflexos disso na desigualdade educacional, de oportunidades...", declarou Cerqueira.

O relatório revela que também cresceu o número de mulheres assassinadas: em 2017 foram 4.936, ou treze por dia, sendo 66% negras, o que representa um aumento de 30,7% desde 2007.

O Atlas de 2017 aponta igualmente para um forte crescimento das denúncias de homicídios contra a população LGBTI, que passaram de 5 em 2011 para 193 em 2017.

O custo desta violência galopante é sideral: a soma dos gastos com segurança, indenizações, atendimento médico e outros equivale a 6% do Produto Interno Bruto do Brasil, segundo o IPEA.

- Novas rotas das drogas -

No Norte e no Nordeste a taxa de homicídios atingiu os piores níveis, superando 60/100.000 no Acre e no Alagoas, e 50/100.000 no Pará, Pernambuco e Sergipe.

Isto pode ser atribuído "à guerra entre facções" que disputam novas rotas do tráfico de cocaína, tendo Bolívia e Peru como principais fornecedores, no lugar da Colômbia.

Isto fez com que o Brasil assumisse gradualmente uma posição estratégica para o tráfico de drogas em direção à África e à Europa", destaca o relatório do IPEA.

- Um tiro pela culatra? -

Em 2018 e início de 2019, os números apontam uma queda no número de assassinatos, mas isto pode "estar intrinsicamente ligado a um processo de acomodação dessas escaramuças" entre facções do narcotráfico, "uma vez que economicamente é inviável manter uma guerra de maior intensidade durante anos a fio".

Bolsonaro flexibilizou por decreto a posse e o porte de armas para combater a criminalidade, mas o tiro pode sair pela culatra, adverte o pesquisador do IPEA.

Cerqueira alerta para o risco de que o desmantelamento do Estatuto do Desarmamento de 2003 resulte em uma criminalidade ainda pior e espera que o Supremo Tribunal Federal anule os decretos de Bolsonaro.

O presidente do IPEA, Carlos von Doellinger, declarou que discorda destas conclusões, mas não interferiu na elaboração do relatório, segundo Cerqueira.


AFP

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