Religião

07/06/2019 | domtotal.com

Gratuidade para com a casa

A ética que deve pautar nossa relação com o mundo, nossa 'casa comum', é a da gratuidade.

O mundo humano e o mundo das coisas são o lugar da ética, que precisa se tornar nosso lar.
O mundo humano e o mundo das coisas são o lugar da ética, que precisa se tornar nosso lar. (Kyle Glenn/ Unsplash)

Por Teófilo da Silva*

Gratuidade: eis uma palavra caída no desuso. Se você, caro leitor ou leitora, parar para observar, quase não temos feito uso dessa palavra. Sinais próprios de nossos tempos? Mas, há uma coisa inegável: as nossas melhores relações, aquelas pautadas no e pelo amor, são as melhores justamente porque são as mais gratuitas. O amor apenas ama: é assim que ele se realiza. É certo que a reciprocidade no amor é sempre bem-vinda e bem quista. Mas reciprocidade não significa retribuição: é assim que o amor é gratuito, ama-se, apenas, sem esperar nada em troca, apenas que encontre casa onde aportar.

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O grande e saudoso Belchior compôs um verso que se tornou muito popular: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. É, não tenho dúvidas, uma boa inspiração para nossas relações não só com as pessoas, mas também com as coisas, com o mundo, essa nossa casa. Infelizmente, uma concepção utilitarista do mundo e das coisas tomou conta de nós. Tudo está sob o jugo do "para quê". Se pararmos para observar o nosso cotidiano, perceberemos que essa pergunta, a do "para quê"?, é uma constante em nós. Relações com as pessoas e com as coisas, pautadas no "para quê", não têm muito espaço para a gratuidade, porque giram ao redor da serventia.

Há realidades, coisas e relações pessoais que não servem para nada! Não são menos valiosas. São, na verdade, ocasiões pertinentes para que nutramos em nós a gratuidade, o sem "para quê". Relações de gratuidade são aprendidas. E é assim que devemos nos relacionar com o mundo das coisas. É certo que nossa sobrevivência e nosso bem-viver dependem desse mundo das coisas. Mas essa relação, se pautada no utilitarismo, é adoecedora para o mundo e para nós mesmos. É preciso viver com consciência de que aquilo que a natureza nos oferece faz parte de um sistema orgânico, do qual nós mesmos somos parte. E que não apenas somos destinatários do que o mundo das coisas nos oferece, mas também devemos contribuir para a harmonia do sistema.

É preciso, pois, que aprendamos a cuidar da casa. Da palavra ecologia, o prefixo constitui o extrato mais importante: vem do grego óikos, que significa casa. O mundo das coisas é nossa casa. Mas não apenas nossa: e é aqui a grande virada de compreensão que o ser humano precisa ter. Não é a casa que está para nós, sem mais; nós é que somos "com" a casa. Se chegarmos a essa compreensão, poderemos habitar esse lar com gratidão e, em decorrência disso, emanar também gratuidade. Pensar o mundo como casa é fundamental para transformarmos nossa relação com ele. Na lida com a casa, há toda uma ética, à qual não podemos nos furtar.

Relações gratuitas, porque aptas ao amor, geram relações de cuidado. E é disso que nosso mundo humano e o mundo das coisas precisam. Amar e mudar nossa relação com as coisas, com a devida licença poética em parafrasear Belchior. O cotidiano é a melhor ocasião para nos educarmos para a gratuidade, em nossa relação com o mundo das coisas. Nessa relação gratuita, novas perspectivas de relação uns com os outros também nascem: tornamo-nos parte de um todo, em busca de harmonia. O mundo humano e o mundo das coisas são o lugar da ética. Esta é a nossa casa e precisamos fazer dela um verdadeiro lar. Vivamos a gratuidade, façamos dessa casa um lar de amor!

*Teófilo da Silva é teólogo e poeta.

EMGE

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