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07/06/2019 | domtotal.com

A sobra de arroz do coreano

Educação traz humanidade, evolução, dignidade. Ela é a base do futuro de um indivíduo; da sua independência e autonomia.

Desse jeito, vamos continuar comendo restos do arroz dos coreanos.
Desse jeito, vamos continuar comendo restos do arroz dos coreanos. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Tive o privilégio de viver um pedaço de minha vida num Brasil otimista, animador e que crescia de verdade. Estudantes de Engenharia, por exemplo, chegavam ao final do curso praticamente empregados. Curiosamente, naquela época o chamado “mercado” era pródigo, embora um tanto restrito. Sobravam empregos, na sua maioria locais ou regionais. O Brasil que recebíamos de nossos pais era muito melhor do que este que entregamos aos nossos filhos. 

Pouco depois, com a interiorização do desenvolvimento, amigos e parentes começaram a se mudar daqui para trabalharem nos cafundós da Amazônia, no Sul do Brasil, nas capitais do Nordeste, em cidades do interior que se expandiam.

Agora, o mercado de trabalho ficou amplo e globalizado. O tamanho das oportunidades tem o mesmo tamanho do mundo. Na rota dessa geração estão centenas de chances em países que oferecem boas colocações, bons salários e perspectivas de carreiras promissoras. O avanço da tecnologia aproximou as nações; criou uma linguagem universal acessível e agregadora.

Se podemos trabalhar lá fora, profissionais estrangeiros também podem aqui. Isso inclui alguns novos desafios, do tipo disputar vagas com.... coreanos. E os coreanos – assim como jovens de outros países em ascensão – participam da copa do mundo do emprego com uma larga vantagem.  

Em 1960, o Brasil apresentava uma renda duas vezes e meia maior que a da Coreia do Sul. Hoje, caímos para um terço do que produzem lá. Trata-se de um país com 1/5 de nossa população num território 80 vezes menor. O que aconteceu na Coreia do Sul nesse período? Nada muito misterioso. O país oriental apenas investiu pra valer, sem medo nem restrições, numa área fundamental: a educação.

Enquanto isso, colecionamos resultados de governos irresponsáveis, corruptos e demagogos. Quase 12 milhões de analfabetos encontram-se à margem da sociedade, presas fáceis para o crime. Sete em cada 10 alunos do ensino médio têm nível insuficiente em Português e Matemática. Dos 40 países analisados em uma pesquisa recente, estamos em penúltimo lugar no ranking da educação. A evasão no ensino médio entre jovens de 16 a 19 anos ultrapassa 40%. Professores, com salários miseráveis, são agredidos em sala de aula.

Educação não é apenas uma ferramenta fria e egoísta para ganhar aquela vaga disputada pelo coreano. Educação traz humanidade, evolução, dignidade. Ela é a base do futuro de um indivíduo; da sua independência e autonomia. Desperta a autoestima, o prazer de ganhar a vida pelo próprio esforço, além de contribuir para a construção de algo maior.

Esta semana, o brilhante jurista e ministro Luís Roberto Barroso voltou a tocar no grave assunto, alertando para a necessidade de um pacto urgente pela educação no Brasil. Irônico, lembrou que nossas escolas estão cheias de discussões do tipo “escola sem partido”, “ideologia de gênero” e até a inacreditável e patética “64 foi golpe ou não?”. De que forma tais temas formarão nossos estudantes para a capacitação profissional?

Não bastasse o lavada que tomou da Coreia ao longo de 60 anos, a educação brasileira continua a perder tempo e dinheiro no atoleiro da politização, do antagonismo birrento e adolescente, das discussões de mesa de bar. A deputada Gleisi Hoffmann afirmou outro dia que “Lula Livre e educação são pautas inseparáveis”. Opa! Como assim, deputada? Além da cara-de-pau que não disfarça o oportunismo deslavado, chega a ser cômico associar o precioso valor “educação” a um ex-presidente preso por corrupção e que se vangloriava de não dar muita bola para os livros e os estudos.

Desse jeito, vamos continuar comendo restos do arroz dos coreanos na nossa pequena cuia temperada com tolices e preguiça. E pior: desprezando a fartura sem limites que o Brasil insiste em nos proporcionar.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal 'O Tempo'.

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