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10/06/2019 | domtotal.com

Naquela noite de plenilúnio

Pedrinho da Viola era perdidamente apaixonado por Maria das Graças.

E foi numa noite de plenilúnio, altas horas, que Pedrinho tomou coragem
E foi numa noite de plenilúnio, altas horas, que Pedrinho tomou coragem (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

E cá estamos. Como vocês podem ver, meu caro amigo e minha amiga caríssima, este é um lugarzinho pequenininho, mineirinho da gema, gostoso lugar. E tem uma coisa que nenhum outro tem: Maria das Graças.

Ah, que bela donzela! Das Graças reúne todas as graças da beleza mais pura e mais admirada de toda a redondeza. Passou pela adolescência sem dar conta de quanta formosura seus 17 anos viriam a abrigar. Nenhuma mais bonita. Nenhuma de pele tão clara e olhos tão brilhantes. Nenhuma com aquelas tranças negras, com aquele jeitinho de sorrir, de falar, de não dizer nada. Chama todas as atenções quando passa pelas ruas da cidade. Se vai à missa, o sino parece repicar de alegria. Costuma caminhar rumo à Biquinha, a mina d’água urbana onde mulheres lavam roupa e contam fofocas. Quando lá vai, Das Graças leva na cabeça uma grande bacia de roupa equilibrada numa rodilha. É então a Garota da Biquinha, tal qual a de Ipanema. Toda soltinha dentro do vestido de chita, atrai olhares ao passar. Das moças, olhares de inveja. Dos rapazes, de gula ou de cobiça ou de admiração ou de tudo misturado.

E há olhares e suspiros de paixão. Os mais apaixonados são os olhares de Pedrinho da Viola, que a contempla muito mais com o coração do que com os olhos.

Pedrinho da Viola, cujo apelido tem toda lógica, porque toca violão como ninguém, aprendeu sozinho, ou melhor, observando o pai tocar. Sempre que o pai, que era ourives, violonista e também Pedro, saía para o trabalho na sua oficina, Pedrinho pegava o violão e garimpava notas. E as cordas conspiravam a seu favor. Aos 12 anos compôs uma valsa dedicada à mãe, Dona Arilda. Cantou para ela e a fez chorar. Aos 15, tocava e cantava com o pai, que lhe dera no aniversário o melhor presente que podia ganhar: um violão. E os dois formaram a dupla Pedro & Pedrinho, que encantava a cidade.

Pedrinho da Viola era perdidamente apaixonado por Maria das Graças, mas tinha uma coisa nele que o afastava dela. Uma coisa chamada timidez. Toda vez que vinha a vontade de se aproximar dela, de falar com ela, o medo o detinha. Puxava-o e o imobilizava. Só não era tímido quando abraçava o violão.  As curvas do instrumento eram para ele a cintura e as formas de Das Graças.

Uma noite, sozinho em seu quarto, Pedrinho resolveu compor uma canção para ela. Os versos vieram antes da melodia e assim diziam: No caminho da Biquinha/ Lá vai ela/ Toda graça, toda bela/ A minha rainha/ Queria que me levasse/ Me lavasse, me esfregasse/ Me torcesse, me enxaguasse/ Me enxugasse, me quarasse/ E no fim de tudo, me passasse, me amasse/ Das Graças, como te amo!

Esses versos o fizeram corar feliz. Releu e gostou. Só precisava colocar uma melodia à altura da letra. Dormiu pensando, sonhou e acordou com a música nos dedos. Pegou o violão e, sentado na cama, cantou. Dona Arilda passava pela porta do quarto e parou pra ouvir. Empurrou devagarinho a porta e abriu-a.

- Meu filho, isso é muito bonito – ela disse.

- Verdade, mãe? Fiz para a Das Graças.

- Vai cantar pra ela?

- Não sei. Acho que não. Não tenho coragem.

Dona Alzira então contou como se apaixonara pelo pai Pedro. Foi numa serenata.

- Eu tinha 18 anos. Seu pai, 20. Assim como você. A gente namorava meio que de longe. Um dia ele perguntou se eu queria casar com ele, não respondi. Não tinha certeza se gostava dele pra casar. Até que numa noite de abril, era lua cheia, eu acordei ali pela meia noite com a voz dele cantando uma música linda, que eu nunca tinha ouvido. Meu coração pulou para a rua. Levantei, abri meia janela quando ele cantava o último verso. Aí eu falei alto, quase gritei: “Quero, sim, Pedro, eu quero”. Dois meses depois estávamos casados. Faça o mesmo, Pedrinho. Já que fez uma música pra ela, cante pra ela. Mas não se esqueça: espere a lua cheia.

E foi numa noite de plenilúnio, altas horas, que Pedrinho tomou coragem e cantou bem debaixo da janela de Das Graças. Cantou e tocou o mais bonito que pôde.

Não conto o que aconteceu depois porque, sinceramente, não sei.  Saberá você?

EMGE

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