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09/06/2019 | domtotal.com

Sabedoria e discernimento

A sabedoria embasa o discernimento, para que a humanidade possa alcançar a paz e a felicidade para todos.

A sabedoria, por muitos confundida com conhecimentos culturais e ou científicos, vai muito além do domínio da física
A sabedoria, por muitos confundida com conhecimentos culturais e ou científicos, vai muito além do domínio da física (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Neste domingo, a Igreja comemora o Dia de Pentecostes. Nele, relembra-se a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, após a Ressurreição a Cristo. E nesta vinda, sete dons lhes foram infundidos, conforme reza a tradição cristã, com base no capítulo 11 do Livro do profeta Isaías. Mas, não é minha intenção, nesse artigo, dissertar sobre questões exegéticas, tampouco teológicas. Quero destacar dois desses dons que, independentemente de crença ou não crença, fazem uma falta enorme, em nossa civilização, tão avançada tecnologicamente, contudo tão insatisfeita, infeliz mesmo, como consequências dessa desumanizadora dupla carência.

A sabedoria, por muitos confundida com conhecimentos culturais e ou científicos, vai muito além do domínio da física, da matemática, da biologia etc. Se voltarmos na história, vamos descobrir que muitos dos marcados pela história da humanidade como grandes sábios, pouco ou nada sabiam dessas ciências. No Sul do hoje Nepal, no século 5 a.C., vivia um príncipe chamado Sidarta Gautama, gozando da vida imperial. Num passeio pela cidade, entrou em contato com um mendigo, um ancião, um morto e um asceta, que deixara tudo em busca do sentido da vida. Tocado pelo que viu, pela fragilidade e impermanência de tudo, o príncipe abandonou sua casa tornando-se, ele mesmo, um asceta em busca do caminho para a superação do sofrimento humano. Não deixou nada escrito, só o seu exemplo, tornando-se Buda, o iluminado.

Diógenes de Sinope, filósofo grego do século 4 a.C., é outro exemplo dramático dessa realidade. Desprezando todos os valores materiais, morava num barril e era visto caminhando pelas ruas com uma lamparina acesa, durante o dia e com sol a pino. Questionado por aquela extravagância, dizia estar à procura de um homem honesto. Desapegado de tudo, tinha uma sabedoria inata que causava inveja a todos. Certa vez, Alexandre, o Grande procurou-o em busca de conselhos, e parando em sua frente, quando se aquecia ao sol, perguntou-lhe o que poderia fazer por ele. Recebeu como resposta: “Não me tires o que não me podes dar”. Diógenes referia-se à sombra que o grande conquistador fazia sobre ele, privando-o do banho de sol. Diógenes também não deixou nada escrito, apesar de toda a sua sabedoria.

Chegando ao ano 1º da era cristã, encontramos aquele que deu nome a uma nova era da humanidade: Jesus Cristo. Filho de uma jovem casada com um carpinteiro, foi o mais sábio dos homens, deixando ensinamentos que mudaram a história. Nunca escreveu nada e o que ensinou foi narrado por seus discípulos, indicando o caminho que a humanidade deveria seguir para encontrar a felicidade. Síntese dos seus ensinamentos estão no capítulo 5 do Evangelho de Mateus, conhecido como o Sermão da Montanha.

Três homens sábios que influíram radicalmente na história da humanidade, especialmente com a sabedoria que possuíam e com o exemplo de vida que tiveram, mesmo sem ter qualquer diploma, mestrado ou doutorado.

O discernimento, é a capacidade de distinguir, com clareza e certeza, o que é certo, e o que não é; o que é bom, e o que é ruim. E a partir dessa distinção, ser capaz de direcionar sua própria vida, suas palavras e suas ações exclusivamente para o bem comum, para a paz universal, para a felicidade de todos, sem qualquer distinção ou segregação. Pelo discernimento, somos capazes de abrir mão de vantagens indevidas, capazes de olhar para o outro como se olhássemos no espelho, vendo nele um igual a nós mesmos, com os mesmos direitos, com a mesma dignidade, merecendo o respeito que gostaríamos de receber dos demais.

Mas, também, pelo discernimento, somos capazes de reconhecer que nada na natureza tem igualdade absoluta com outros seres da mesma espécie, constatar que até os dedos das mãos não são iguais, ainda que todos desempenhem funções próprias e tão importantes quanto as dos demais. E sendo assim, é uma quimérica utopia, pretender uma sociedade onde todos seja absolutamente iguais, tudo sendo em completa semelhança, como se todos fossemos feitos numa mesma forma, com a mesma carga genética, produtos de uma linha de montagem onde ninguém recebesse mais ou menos do que o outro. 

O verdadeiro discernimento nos faz compreender que as igualdades estão no nível da dignidade, dos direitos, do respeito. Contudo, como na natureza, também os humanos apresentam distinções de capacidades, de formatos, de funções, e isso é que faz a humanidade sofrer quando essas diferenças não são respeitadas e compreendidas, retirando-se de alguns as oportunidades que são também dos outros. Todos temos direitos e deveres iguais e em quantidades proporcionais: mais direitos, mais deveres, nunca menos deveres e mais direitos, como quase sempre se pretende ter. Com direitos e oportunidades iguais, com certeza os frutos serão diferentes, mas igualmente bons. Uma macieira não dá laranjas, nem uma jaqueira produz jabuticabas, mas todas elas produzem frutos saborosos. Mesmo que alguns gostem mais de uns do que dos outros.

A sabedoria embasa o discernimento, para que a humanidade possa alcançar a paz e a felicidade para todos, respeitando-se as diferenças naturais de cada um, sem entendê-las como seleção de melhores ou piores. A hUMAnidade é UMA, e à natureza, todos pertencemos e dela dependemos, razão do zelo que por ela devemos ter.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

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