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11/06/2019 | domtotal.com

O uso da matemática, lógica e computação na literatura

Letras e números costumam ser vistos como símbolos opostos, correspondentes a sistemas de pensamento e linguagens distintas e por vezes incomunicáveis.

A utilização da matemática no campo literário se dá, na maioria das vezes, por meio da apresentação, reflexão e transformação em matéria narrativa de problemas de ordem lógica.
A utilização da matemática no campo literário se dá, na maioria das vezes, por meio da apresentação, reflexão e transformação em matéria narrativa de problemas de ordem lógica. (Pixabay)

Por Jacques Fux*

No dia 15 de março de 2010, a Academia Brasileira de Letras lançou o primeiro Concurso Cultural de Microcontos. Os microcontos de tema livre deveriam conter no máximo 140 caracteres, seguindo a mesma restrição do Twitter. A ganhadora, Bibiana Silveira da Pieve escreveu: “Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida”. A segunda colocada, Carla Ceres Oliveira Capeleti escreveu: “Joguei. Perdi outra vez! Joguei e perdi por meses, mas posso apostar: os dados é que estavam viciados. Somente eles, não eu”.

Diante da mesma restrição imposta, dois microcontos completamente diferentes foram escritos. Diante da mesma restrição, um fenômeno de comunicação está ocorrendo: um volume gigantesco de grandes ou pequenos textos circula diariamente pela internet e pelos celulares e passa a ser um fator determinante na política, na publicidade, na informação e na literatura. Neste ensaio proponho uma análise do uso de certas restrições na literatura, fato este que não é novo.

Letras e números costumam ser vistos como símbolos opostos, correspondentes a sistemas de pensamento e linguagens distintas e por vezes incomunicáveis. Essa perspectiva, no entanto, foi muitas vezes refutada pela própria literatura, que em diversas ocasiões valeu-se de elementos matemáticos como forma de melhor explorar sua potencialidade e de amplificar suas possibilidades criativas. É a esses contatos literário-matemáticos que nos dedicaremos ao longo deste breve ensaio, apresentando algumas experiências desse diálogo entre as letras e os números realizadas ao longo da história literária e discorrendo, com maior profundidade, sobre um grupo emblemático da mesma, em atuação até os dias de hoje: o Ouvroir de Littérature Potentielle, conhecido como Oulipo, grupo literário-matemático fundado na França em 1960.

A utilização da matemática no campo literário se dá, na maioria das vezes, por meio da apresentação, reflexão e transformação em matéria narrativa de problemas de ordem lógica – como paradoxos, ambiguidades e jogos combinatórios – que objetivam complexificar a narrativa e aumentar sua potencialidade, ampliando suas possibilidades de leitura. É certo que nenhuma leitura é unívoca: o texto, por si só, não diz nada; ele só vai efetivamente produzir sentido no momento em que é lido. Levando ao extremo tal perspectiva, um texto seria capaz de produzir tantos sentidos distintos quanto fossem as leituras dele feitas.

Qual seria, então, o papel da matemática nessa relação de amplificação potencial? Por que se considera que os jogos combinatórios aumentam as possibilidades de leitura? Nesse sentido, a própria noção de potencialidade torna-se fundamental: potencial é o que ainda não existe concretamente, mas é passível de existência por apresentar-se como possibilidade latente. Então, se dois leitores, diante do mesmo texto, apresentam diferentes possibilidades de leitura, o que acontece com essa potencialidade se os textos ainda puderem ser permutados, alterados, jogados, falsificados, ludibriados? A matemática potencializa o texto, tornando ainda mais amplo seu campo de leituras possíveis a partir de algoritmos, regras, restrições e contraintes, num contínuo processo de expansão: “Mesmo que o projeto geral tenha sido minuciosamente estudado, o que conta não é o seu encerrar-se numa figura harmoniosa, mas a força centrífuga que dele se liberta, a pluralidade das linguagens como garantia de uma verdade que não seja parcial”, segundo Italo Calvino (1995).

Uma contrainte pode ser entendida como uma restrição inicial imposta à escrita de um texto ou livro, sendo as mais básicas de caráter linguístico. O Oulipo trabalha tanto com as restrições matemáticas quanto com outros tipos de restrições: dado um tema, os integrantes do grupo discutem e compõem textos, livros e pequenos manuscritos com essa restrição inicial. Já o grupo criado por Jacques Roubaud e Paul Braffort em 1981 chamado Atelier de Littérature Assistée par la Mathématique et les Ordinateurs (Alamo), que é uma extensão computacional do Oulipo, tem como objetivo gerar textos literários automáticos dados determinadas contraintes. O grupo oferece, também, alguns programas computacionais que permite qualquer pessoa elaborar e produzir seus próprios textos com a ajuda de computadores. São eles:  Conte à votre façon (CAVF) e Langage Algorithmique pour la Production Assistée de Littérature (Lapal).

Labirintos móveis

Em novembro de 1960, pessoas que se interessavam tanto pela literatura quanto pela matemática reuniram-se para discutir estas questões e formaram o Sélitex (Seminário de Literatura Experimental). Entre essas pessoas estavam François Le Lionnais, Raymond Queneau, Albert-Marie Schmidt, Jean Queval, Jean Lescure, Jacques Duchateau, Claude Berge e Jacques Bens. Cerca de um mês depois, registrava-se nas atas de reunião do grupo a mudança de seu nome para Ouvroir de Littérature Potentielle (Oulipo). É importante essa mudança de nomenclatura pois ela aponta para uma noção fundamental ao trabalho do Oulipo: a de potencialidade da literatura. É justamente essa questão que justifica o abandono do termo “experimental” presente no acrônimo da primeira denominação do grupo, uma vez que seus membros acreditam que a potencialidade exprime melhor a diversidade de combinações e manipulações da linguagem, a utilização de contraintes, da matemática e das inúmeras possibilidades de leitura.

O fundamento principal do grupo constitui-se, assim, como uma ruptura radical com a visão mítica do “poeta inspirado” herdada dos românticos e utilizada pelos surrealistas – com quem, aliás, os oulipianos tem uma divergência fundante, personificada em Raymond Queneau.  Queneau tinha 21 anos quando conheceu o movimento surrealista e seu primeiro manifesto, escrito por André Breton, colaborando ativamente com o movimento durante cinco anos. Em 1929, por motivos pessoais e ideológicos, Queneau se desentende com Breton e, juntamente com Michel Leiris, André Masson, Pierre Naville, Georges Bataille, Francis Picabia e Antonin Arnaud, sai do movimento. Trinta anos mais tarde, declara: “Quando me separei do movimento surrealista, estava um pouco perdido, já que tinha em face a negação total: não havia mais literatura nem anti-literatura... e, depois do Surrealismo, a única coisa a fazer era retomar a literatura”, afirma Queneau, citado por Le Tellier (2006). Nesse sentido, a aplicação da matemática e das restrições na escrita literária do Oulipo justifica-se ainda como reação à escrita automática alardeada pelos surrealistas, enfatizando seu caráter voluntário, lúdico e de intercâmbio com o leitor.

Raymond Queneau e François Le Lionnais propõem, assim, por meio do Oulipo, uma refundação da literatura sob os padrões dos contraintes: “A intenção do Oulipo é propor novas estruturas. Isso é tudo. Agora vocês podem pensar que isso trará outra coisa. O sentido mesmo do Oulipo é o de propor estruturas vazias”, segundo Queneau na obra mencionada. A importância literária do grupo apresenta relevo, no entanto, com a produção de escritores como Raymond Queneau, Georges Perec e Italo Calvino que, mais do que em identificar ou criar novas restrições e propor “estruturas vazias”, se interessavam em explorar as possibilidades que as regras formais ofereciam à literatura, experimentando-as até seu limite, e chegando muitas vezes ao seu esgotamento.

As restrições não eram, assim, para o Oulipo, instrumentos constrangedores da liberdade e sim, ao contrário, uma fonte inesgotável de possibilidades de criação.  Segundo os oulipianos, todo texto é construído sob a coação de determinadas regras (sejam elas gramaticais, culturais, ou mesmo de modelos literários definidos como o soneto), muitas vezes nem percebidas como tais e encaradas como naturais. Por isso, acreditam que definir as restrições sob as quais o autor construirá seu texto dá a ele mais liberdade, uma vez que as regras auto-impostas são conhecidas: “O clássico que escreve a sua tragédia observando um certo número de regras que conhece é mais livre que o poeta que escreve aquilo que lhe passa pela cabeça e é escravo de outras regras que ignora”, de acordo com Queneau, citado por Calvino (1993).

As restrições são apenas o começo do processo de escritura oulipiana, ao qual se seguem diversas etapas de exploração e recriação das mesmas no sentido de amplificar sua potencialidade criativa.  É esse transbordar a regra do jogo e elevá-la à sua enésima potência que possibilita a qualidade literária desses autores.

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

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