Religião

12/06/2019 | domtotal.com

O cuidado da natureza como tarefa cristã

Uma compreensão equivocada do Gênesis levou ao entendimento de que o ser humano poderia dominar a Terra sem dela cuidar.

O ser humano foi constituído como uma espécie de jardineiro em Éden, símbolo do cuidado para com o mundo que deve nutrir.
O ser humano foi constituído como uma espécie de jardineiro em Éden, símbolo do cuidado para com o mundo que deve nutrir. (Dmitry Dreyer/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

No relato da criação contido no livro de Gênesis é possível perceber a imagem de um Deus que cria e se alegra com aquilo que resulta de sua palavra criadora. A cada nova coisa criada, a frase "e Deus viu que era bom” se faz presente na narrativa, levando-nos a compreender que toda a natureza é agradável a Deus e existe por seu amor criador. Aliás, não poderia ser diferente, pois, em perspectiva cristã, Deus é amor e lhe é próprio o criar, de maneira que Deus está sempre criando e gerando vida.

Ao longo dos séculos, contudo, a criação foi vista como algo apenas para benefício humano, sem nenhum valor em si mesma. Numa ideia antropocêntrica, de que todas as coisas foram criadas para o ser humano domina-las, a exploração da natureza e dos recursos naturais foi incentivada e duramente executada nos períodos moderno e pós-revoluções industriais.

A continuação desse processo acontece ainda em nossos dias, nos quais a poluição do ar se encontra em níveis alarmantes. O aquecimento global, comprovado por inúmeras pesquisas, mostra-se crescente, ainda que algumas pessoas de má fé e não preocupadas com o planeta insistam em dizer que isso não é verdade. 

O desmatamento da Amazônia, considerado o pulmão do mundo, alcançou um nível alarmante por contar com o incentivo do governo atual e seus ministros, numa destruição sem medida da biodiversidade. A corrida nuclear nos alcançou a possibilidade da destruição do planeta e de toda vida na Terra. Todas essas coisas são motivadas pela visão de que a natureza está aí para servir ao ser humano e que este deve arrancar dela até o último recurso para satisfazer os prazeres e luxos da sociedade capitalista e consumista.

Diante disso, relembrar a premissa cristã da criação se mostra fundamental. Atentar ao texto, como bem coloca o teólogo alemão Jürgen Moltmann, nos faria perceber que o ser humano não deve ser visto como coroa da criação e, consequentemente, aquele que deveria dominar sobre tudo o que existe. Antes, por ser o último criado, sua existência está em dependência total da existência da natureza, sendo, portanto, colocado como um jardineiro que deve cuidar do jardim onde fora colocado, a fim de que possa usufruir e viver dele.

Assim, longe de ser o maior da natureza, o ser humano é o mais dependente de tudo. Um simples exercício mental nos mostra isso. Imaginemos, por um segundo, se todos os recursos naturais acabassem e não houvesse mais plantas, animais e água. Nós, seres humanos, não sobreviveríamos uma semana sequer sem a natureza. Agora, imagine se, de um dia para o outro, a humanidade deixasse de existir. Podemos ter certeza de que a natureza continuaria vivendo e, sem dúvida, de uma maneira muito melhor do que hoje.

O cuidado da natureza é tarefa cristã. Pregar o consumo sem limites dos recursos naturais, a privatização desses recursos, como a água ou as áreas verdes, é algo que não encontra eco nas Escrituras. Dessa forma, é tarefa cristã se posicionar contra o desmatamento da Amazônia; contra a venda das reservas aquíferas que estão no nosso país; contra o extermínio dos povos indígenas, que o governo atual tem insistido em fomentar; contra a mineração criminosa, que empresas como a Vale têm feito em Minas Gerais, acabando com as riquezas naturais e a vida de cidades para a obtenção de lucro exorbitante, que retorna para seus acionistas enquanto destrói vidas e famílias no estado.

O reconhecimento da natureza como criação de Deus é fundamental para a luta por sua conservação contra os desejos do sistema financeiro de controlar e possuir todas as reservas naturais com o intuito de vendê-las para a obtenção de lucro e, consequentemente, o extermínio das pessoas mais vulneráveis.

Preservar a natureza é tarefa cristã. Todo aquele e toda aquela que incentiva a degradação da natureza e seu extermínio não pode ser um enviado de Deus. Antes, revela-se como um enviado das trevas que só tem como intuito matar, roubar e destruir.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

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