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11/06/2019 | domtotal.com

Vaza Jato: veja por que vazamento da Lava Jato é o maior escândalo da história da República

Conversas secretas entre o então juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato comprovam que 'grupo' planejou as falsidades que levaram à prisão do ex-presidente.

Os materiais contêm pistas de que os promotores da força-tarefa falaram abertamente sobre a meta de impedir a vitória do PT nas eleições de outubro de 2018.
Os materiais contêm pistas de que os promotores da força-tarefa falaram abertamente sobre a meta de impedir a vitória do PT nas eleições de outubro de 2018. (Fábio Rodrigues Pozzebon/Ag. Brasil)

Por Martín Granovksy
Página 12

A filial brasileira do site The Intercept publicou material desclassificado que recebeu de fontes fidedignas, e que comprovam o comportamento ilícito das autoridades judiciais da Operação Lava Jato, que serviu como desculpa para o golpe Michel Temer contra Dilma Rousseff em 2016, justificou a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva em 2018 e criou as condições para o triunfo da extrema-direita, através de Jair Bolsonaro.

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As negociações foram realizadas pelo atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, que então era então o juiz da causa contra Lula, e o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa do Ministério Público.

O artigo foi escrito por Glenn Greenwald, um colunista e especialista em direito constitucional americano que trabalhava para o jornal britânico The Guardian e permitiu que uma equipe do jornal e The Washington Post ganhasse um Prêmio Pulitzer em 2014, graças a uma investigação sobre a espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, por sua sigla em inglês) dos Estados Unidos, graças às revelações do ex-agente Edward Snowden. Greenwald vive nos Estados Unidos e no Brasil, onde reside seu marido, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ).

Segundo o The Intercept, seus textos são baseados em chats privados, gravações de áudio, vídeos, fotos e documentação judicial fornecida pelo que definiu como “uma fonte anônima”. Também foi assim com o caso mais famoso de revelações, que levaram à queda de um presidente – Richard Nixon, nos Estados Unidos, tinha uma fonte única, e também anônima, que a história conhecia como “Garganta Profunda”. Sua identidade só foi conhecida após sua morte: tratava-se de Mark Felt, que morreu em 2008, depois de uma longa carreira no FBI, a Agência Federal de Investigações dos Estados Unidos. Sua informação foi fundamental para que os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do The Washington Post, pudessem revelar a trama que se escondia por trás da espionagem para do Watergate, o prédio que abrigava a sede do Partido Democrata, de oposição a Nixon.

O The Intercept publicou neste domingo (9/6) três reportagens com o material em português e em inglês, para a propagação global do escândalo que abalou o Brasil: durante a noite, os tweets deste verdadeiro Morogate estavam entre as quatro principais tendências globais no Twitter.

O site decidiu publicar o material porque entendia que o significado das revelações “poderia ter enormes consequências sobre os indícios e supostas provas da Operação Lava Jato”. O The Intercept lembra que a Lava Jato não era apenas uma das estratégias para impulsar a demolição do Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma, mas também o argumento para Bolsonaro fabricar, com a ajuda de Moro, um Super Ministério da Justiça, com poderes de vigilância e espionagem sem precedentes história brasileira.

Até agora, Moro e Dallagnol puderam manter o segredo sobre como armaram a trama judicial, mas as reportagens do The Intercept começaram a produzir as primeiras rachaduras nas suas imagens.

“O processo judicial está marcado por fraudes no Lava Jato deve envolver a libertação imediata de Lula", escreveu Dilma Rousseff, ainda durante a noite de domingo.

Anti PT

Dallagnol é o procurador que Lula acusou de ter montado uma apresentação em Power Point para incriminá-lo, sem prova nenhuma. Sobre Moro, Lula costuma lembrar que o juiz disse que agiu com base em sua convicção íntima.

Os materiais contêm pistas de que os promotores da força-tarefa falaram abertamente sobre a meta de impedir a vitória do PT nas eleições de outubro de 2018.

O The Intercept esclarece que não incluiu nada nas divulgações que afetasse as vidas privadas dos protagonistas, somente as informações que tiveram relação com o interesse público. Eles também explicaram que, como é prática em outros países, “não estamos exigindo o comentário das altas autoridades mencionadas antes da publicação, porque não queríamos avisá-las antecipadamente sobre nosso trabalho, e porque os documentos falam por si”. No entanto, o site publicou, na mesma noite de domingo, uma comunicação pública da força-tarefa da Lava Jato, na que não negaram o conteúdo, mas acusando a reportagem de ter agido ilegalmente, o que o jornalista Glenn Greenwald contesta, dizendo que todo o procedimento agiu dentro do respeito à legalidade.

Aquele que antes era o acusador de Lula, agora está sob os holofotes como suspeito. No começo da causa, Dallagnol atribuía ao ex-presidente a suposta posse de um apartamento triplex no balneário de Guarujá, que a força-tarefa assegura que foi o produto de um suborno empresarial. Naquele então, o procurador se defende dizendo que: “eles vão dizer que estamos acusando %u20B%u20Bcom base indícios frágeis e notícias de jornal, então devemos amarrar o assunto com algo muito forte, uma ligação entre a Petrobrás e o enriquecimento, temos que preparar as respostas certas e ter tudo na ponta da língua”. Ele se referia a um artigo publicado pelo jornal O Globo em 2010, que atribuiu o triplex a Lula.

Quando Dallagnol foi criticado, Moro o consolou-o: “definitivamente, as críticas à sua exposição são desproporcionadas. Mantenha-se firme”.

Após a decisão do Supremo Tribunal Federal de conceder a liberdade a Alexandrino Alencar, que ocupava a direção das relações institucionais da Odebrecht, Dallagnol pediu a Moro que resolvesse a questão no mesmo dia e colocasse a testemunha novamente na prisão. Em suas mensagens com os promotores, Dallagnol chamava Moro de “russo”. Em outro momento, no dia 21 de fevereiro de 2016, Moro sugeriu mudar a ordem das operações planejadas pelos promotores.

A parte mais interessante é a que mostra como Dallagnol e sua força-tarefa de 13 promotores – com sede em Curitiba, onde Moro era um juiz – pareciam ter dúvidas sobre a força do teste. A grande dúvida era, justamente, se Lula havia mesmo recebido o apartamento como presente para favorecer a empreiteira OAS em seus contratos com a Petrobrás.

Nas conversas com seus funcionários, não aparece nenhuma evidência concreta fornecida por nenhum deles. Isso era importante porque, caso contrário, a denúncia não poderia ser comprovada em Curitiba, onde as ações sobre a OAS já estavam sendo questionadas. Os promotores de São Paulo reivindicaram jurisdição sobre o assunto. Os paulistas estavam investigando o Caso Bancoop. O grupo de promotores de São Paulo tinha estabelecido, no entanto, que o Caso Bancoop havia começado quando ninguém falou sobre a alegada corrupção na Petrobrás, conhecida no Brasil como “Petrolão”. Mas se a causa tivesse que se mudar para São Paulo, estaria fora da órbita de Moro. Por isso, foi necessário relacioná-la à OAS e os escândalos da Petrobras.

Em uma das mensagens de Telegram, Dallagnol deu instruções sobre como a queixa deveria ser apresentada: “as imagens precisam ser claras, um círculo central e outros círculos ao redor, isto é, a evidência de que Lula era o dono”. Essa foi a origem do famoso Power Point, que ele apresentaria alguns dias depois aos jornalistas.

Piada

Os procuradores também discutiram as maneiras com a que poderiam diminuir o impacto de uma entrevista do ex-presidente Lula à colunista da Folha de São Paulo, Mônica Bérgamo. A entrevista foi autorizada pelo ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, e os integrantes do grupo temiam que ela poderia “fazer o Haddad ser eleito” e “permitir o retorno do PT” ao governo.

O “Haddad” citado é Fernando Haddad, ex-ministro da Educação e candidato do PT contra Bolsonaro. Ele perdeu no segundo turno, apesar de ter obtido 47 milhões de votos. A entrevista com Lula seria realizada menos de duas semanas antes do primeiro turno das eleições.

Nos diálogos fica evidente, de acordo com o The Intercept, que “os procuradores não são apartidários, ou apolíticos, e parecem estar motivados por convicções ideológicas, e pelo desejo de que o PT não volte ao poder”.

Convencida de que o diálogo entre eles se manteria privado para sempre, a procuradora Laura Tessler disse no ano passado, que “parece piada, a entrevista vai se tornar uma corrente, e depois da Mônica Bérgamo, outros jornalistas repetirão a mesma coisa, e nós aqui bancando os palhaços”.

Outra procuradora, Isabel Groba, responde desta forma: “mafiosos!!!!!!!”.

Tessler diz que uma coletiva de Lula “antes do segundo turno pode levá-los (os eleitores) a votar no Haddad”.

Paralelamente, segundo o The Intercept, Dallagnol conversou com uma amiga que se identificou no Telegram como “Carol PGR” (sigla que alude à Procuradoria Geral da República, o órgão supremo dos procuradores). Alarmada pela entrevista e pela eventual coletiva de imprensa de Lula, Carol PGR enviou várias mensagens a Dallagnol:

“Estamos em um trem sem comando e eu não sei o que nos espera”.

“A única certeza é que estaremos juntos”.

“Estou muito preocupado com a volta do PT, rezei muito para que Deus ilumine nossa população para que um milagre nos salve”.

Quando ficou claro que a entrevista estava para acontecer, os promotores chegaram a discutir o que poderia ser feito para dar menos vantagens a Lula: uma entrevista com Bérgamo ou uma coletiva com vários jornalistas.

O juiz Januário Paludo chegou a sugerir um plano: “abrir a possibilidade de todos fazerem uma entrevista no mesmo dia diminuiria a chance de ser abordada”.

Outro procurador, Athayde Ribeiro Costa, sugeriu que a Polícia Federal agisse para que a entrevista acontecesse somente após as eleições. A interpretação dos funcionários se baseava na ideia de que a permissão da Suprema Corte seria cumprida dessa forma, mas que a Polícia Federal teria o direito de decidir a data da entrevista. “Vamos agendar para depois”, disse ele.

Em nenhum momento se viu um Dallagnol aborrecido com o tom das opiniões dos membros de sua força-tarefa, que foram comunicados dentro do grupo do Telegram.

Em referência à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que não quis recorrer da autorização da entrevista, eles disseram que “ela acha que se Haddad vencer, ele a indicará ao Supremo Tribunal Federal”. Outro comentário dizia “que palhaço... eu amo tocar para o público, ele quer ganhar o apoio da imprensa”.

Os indícios sobre o escândalo estão apenas começando. A sombra de Nixon parece se projetar em Moro e Bolsonaro.

*Reportagem publicada originalmente em pagina12.com.ar

Tradução de Victor Farinelli


Pagina 12

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