Cultura

11/06/2019 | domtotal.com

TV Cultura 50 anos - altos e baixos

Se no jornalismo as coisas parecem caminhar para um triste déjà vu, a programação do canal trilha outra estrada.

Cultura - O Musical é um dos programas que nos enchem os olhos produzidos pela emissora paulista.
Cultura - O Musical é um dos programas que nos enchem os olhos produzidos pela emissora paulista. (Divulgação TV Cultura)

Por Alexis Parrot*

A TV Cultura completa cinco décadas de existência em 2019 e merece todas as comemorações possíveis, apesar de todo e qualquer pesar.

Após um período de corte profundo de verbas e demissão em massa de funcionários, determinados pelos governos estaduais tucanos de Serra e Alckmim, o canal parece começar a dar sinais de alguma recuperação. No ano do cinquentenário, conseguiu estrear de fato uma nova grade de programação – coisa que vem tentando, sem sucesso, pelo menos desde 2016.

De maneira geral, gosto imensamente dos programas da emissora público-estatal paulista na mesma medida em que rechaço o seu jornalismo. Enquanto a programação infantil do canal é de primeiro mundo (com prêmios ao redor do globo que confirmam sua excelência) e algumas das atrações são ainda hoje fundamentais para a disseminação da cultura e da produção artística brasileira e sua memória (Sr. Brasil, Persona em foco, Metrópolis, Ensaio, Manos e minas, entre outros), os telejornais são provincianos, chapa branca e ideologicamente comprometidos. 

A volta anunciada de Willian Corrêa para reassumir a chefia de jornalismo da casa e o posto de âncora do Jornal da Cultura, após uma temporada na África, não soa animadora. Em sua primeira passagem pela emissora, o noticiário não se preocupava em disfarçar o DNA tucano ou o antipetismo visceral, negando sobremaneira uma suposta e alardeada isenção jornalística.

Sobre Corrêa à frente do telejornal, escrevi neste espaço, em 2017: "...merece destaque a simpatia excessiva do jornalista: diverte-se além do devido à frente do noticiário e intervém de menos nas falas dos comentaristas". Não há por que esperar dele um comportamento diferente neste retorno ao ninho.

Mas se no jornalismo as coisas parecem caminhar para um triste déjà vu, a programação trilha outra estrada. Dois programas em especial chamam a atenção e fazem com que brilhem nossos olhos.

Cultura – O Musical

Uma ideia fantástica e bem executada. Chamado de "primeiro reality de musicais da TV brasileira" – na verdade, um show de calouros temático –, o programa encantou e emocionou. Fazendo dobradinha com o sempre encantador Rolando Boldrin e seu Sr. Brasil, as manhãs de domingo da Cultura passaram a ser mais imperdíveis ainda.

Trinta e seis jovens talentos competiram pelo título de revelação do teatro musical brasileiro, julgados por nomes emblemáticos da área, como o pioneiro Jorge Takla, a irrepreensível Fernanda Chamma e o lendário maestro Julio Medaglia, por exemplo.

Ainda sobre o júri, é impossível não citar a doçura e envolvimento com o programa de Fabi Bang - a pequena sereia da versão brasileira do musical e mãe de Isabel (como sempre era apresentada); além da presença de Claudia Raia, prestigiando o marido Jarbas Homem de Melo, que assumiu a apresentação.

Estreante no papel, Melo não fez feio. Foi ganhando confiança a cada novo episódio do programa e terminou a maratona mais dono da função, porém, não menos animado. Sua alegria de estar ali era palpável porque genuína; encarou o trabalho como profissão de fé e soube nos contagiar, conquistando certamente novos fãs para os musicais.      

No último final de semana foi ao ar a final da competição, gravada na Sala São Paulo, casa da Osesp que abriu as portas para o teatro musical – simbolizando um encontro benfazejo entre o erudito e o popular. Para quem não assistiu, todos os programas (nove no total) estão disponíveis no youtube e não vou contar como termina para não dar spoiler. Vale a pena assistir e torcer.

Arrisco apenas uma crítica: vamos ver se na próxima temporada não se consegue arranjar uns caraminguás para dar ao vencedor, além do troféu e do título. É mais que merecido.

Não bastasse a seriedade e verdade com que a competição é conduzida, o programa presta importante serviço público. As mudanças previstas para a Lei de Incentivo à Cultura (antiga Rouanet) ameaçam extinguir o teatro musical brasileiro.

O teto determinado (e chutado, como tudo neste governo) de R$ 1 milhão para projetos culturais, inviabiliza a produção de musicais, matando um mercado de trabalho já estabelecido que emprega centenas de pessoas e movimenta até o turismo nas grandes cidades.

Ao demonstrar por A+B a força e importância do gênero tanto como expressão artística quanto como elemento propulsor da economia, Cultura – O musical denuncia, mais uma vez, a ignorância que guia Bolsonaro e sua equipe e o desgoverno pelo qual passa o país.

A volta do Provocações

Após idas e vindas de uma negociação iniciada em 2015, o eclético e prolífico Marcelo Tas foi finalmente entronizado no posto antes ocupado por Antonio Abujamra. No ano em que a TV Cultura comemora seu aniversário de 50 anos, o Provocações volta ao ar repaginado, porém, fiel ao espírito original que o consagrou.

Os primeiros convidados do programa conseguiram trazer uma diversidade difícil de se notar em outras produções da casa, como o Roda viva ou o próprio Jornal da Cultura. A escolha de Ciro Gomes, Danilo Gentili, Janaína Pascoal e o midas do funk Kondzilla para iniciar esta nova etapa da produção revela liberdade editorial e busca por relevância jornalística.      

Perceptivelmente, o programa está se desenvolvendo à medida que avançam suas gravações. A iluminação, por exemplo, nos dois primeiros episódios (com as entrevistas de Ciro e Gentili), por abraçar tão fortemente a ideia do chiaroscuro, conseguiu esconder totalmente o discreto e elegante cenário, pontuado por hashtags. Nas duas edições subsequentes, a luz já foi reequacionada, atenuando bastante o problema.

Os planos muito abertos vistos no programa com Gentili quebravam a impressão intimista que é marca da atração desde a época de Abujamra. O reenquadramento da câmera geral já no episódio seguinte conseguiu equilibrar melhor a equação e mostra o empenho da equipe em aparar arestas e aprimorar o conceito visual do talk show.

A crítica é pertinente, mas não tira do programa os seus muito méritos. Tas está endiabrado e, por não se furtar a surpreender ou até constranger os entrevistados, consegue arrancar deles reações inesperadas. Dizer na cara de Janaína Pascoal que muita gente a chama de louca ou repetir incessantemente que Danilo Gentili pode ir para a cadeia a qualquer momento, são daqueles momentos preciosos e raros, coisa que nos desacostumamos a ver na TV.

A participação do público via twitter, com perguntas e comentários é sensacional. Ao contrário da praxe (excessivamente utilizada por canais e programas na nossa TV), é a primeira vez em muitos anos que vemos o expediente de fato acrescentar algo  - porque aqui, finalmente, não são selecionados apenas elogios para aparecerem no pé da tela.

A exemplo do questionário de Bernard Pivot (inspirado em Proust) com que James Lipton fechava as entrevistas do celebrado programa Inside the Actor's Studio, Tas também tem suas perguntas de estimação a que todos os convidados devem responder. São elas: "do que você tem medo?" e "o que é a vida?" – Esta última com direito a interessantíssima reprise, dando a oportunidade para que o entrevistado possa refrasear, aprofundar ou mudar a resposta original.

Infelizmente, a entrevista que será exibida hoje à noite com o ex-prefeito de São Paulo e candidato derrotado à presidência pelo PT, Fernando Haddad, já havia sido gravada. Seria de enorme utilidade pública podermos ouvi-lo se posicionar, em cima do lance, sobre a denúncia contra Moro e Dallagnol feita pelo Intercept Brasil no último domingo (sobre as mensagens via Telegram trocadas entre eles para combinar os rumos da Lava Jato no passado recente) e que deixou Brasília de cabelos arrepiados. 

Ao final de cada programa, Tas tira uma selfie com o convidado e nos oferece um contraponto ao bordão com que Abu fechava a conversa, abraçando o entrevistado ("aqui a única coisa falsa é o abraço"), e que é a síntese da atração. Ele olha para a câmera e diz: "Você aí ficou em dúvida? ... Era essa a ideia".

Este bem-vindo espaço de crítica é uma bela homenagem à história da TV Cultura – que já viu dias melhores. Que venham logo os próximo 50 anos.

(Provocações, com Marcelo Tas: terças, às 22h30, na TV Cultura.)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o 'Dom Total'.

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